sábado, 28 de novembro de 2009

Pedra da "felicidade"

Reportagem interessante publicada em O Diário sobre a “Cracolândia maringaense”. Se quiserem ler, está aqui.
Abaixo, se quiserem ler também, meu comentário com relação à matéria.

Pedra da “felicidade”

Ótima proposta de cobertura jornalística e fotográfica de O Diário. Naquela praça, além do consumo desacanhado de drogas, ainda há o comércio sexual de senhoras já com algumas décadas de vida, à luz do dia. Enquanto isso, pessoas vão e vem, sobem em suas circulares para encarar mais um dia de cão, fazem viagens de até uma hora para municípios vizinhos, de pé, com pasta ou mochila nas costas, com guarda-chuva em mãos quando está chovendo, e provavelmente com uma marmita insossa, devidamente guardada na bolsinha, que será devorada na hora do almoço para o peão, ou a peoa, aguentar o restante da tarde. Na volta, é a mesma coisa. Só que, infelizmente, muitos nem retornam a seus lares para dar aquela deitada no sofá enquanto assiste um pedaço da novela. É que precisam ir à faculdade (é desperdício pagar o Fies e cabular aula) e buscar um diploma para, quem sabe um dia, não precisar mais ficar andando de circular ou a pé pelo centro de Maringá, onde pessoas passam o dia e a noite toda numa peregrinação constante em busca de mais uma pedra da "felicidade".

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um fevereiro sem carnaval*

Wilame Prado

No meio de uma entrevista, vibração ritmada na mesa e luz piscando em compasso: era o celular dando sinal de vida e querendo chamar atenção. Nem sei como consegui terminar o árduo trabalho de questionar o entrevistado com perguntas que eu já sabia a resposta depois de ver na telinha externa do celular as três chamadas não atendidas do telefone da casa de meu avô.

Com câncer no rim incurável, já que seus 80 anos de idade e seus problemas cardíacos o impossibilitavam de fazer cirurgia, só restava esperar o dia fatal, o dia em que o velhinho cearense careca, cheio de prosa e piada, nos deixasse e fosse para um lugar além.

Escrever? Que nada. Retornar a ligação? Muito menos. Andei de um lado para o outro, tentando fazer mil e uma teorias de que o mais provável - uma morte anunciada – não fosse a única opção para terem me ligado, às 15h40 de uma quinta-feira chuvosa.

Como se fosse calmante, construía possibilidades imaginárias para tentar me convencer de que o motivo da ligação não fosse mais do que um simples convite para um almoço de domingo. Olhando a chuva que não queria parar, vendo pessoas absortas em seus afazeres proletários, a pressão do pensamento lógico não me deixava ter esperanças.

Por mais um segundo de abstração, lembrei de meu finado pai, primogênito desse meu avô que estava em estado terminal. As pessoas da família diziam que o câncer fora desenvolvido por causa da morte prematura do filho, que sofrera derrame com apenas 49 anos de idade. E eu, louco para desligar meu cérebro, não queria acreditar que, em menos de um ano, perdera pai e avô.

Já com um terço da garrafa de café no estômago, resolvo retornar a ligação. Quando ouço ao telefone a voz de minha tia que mora a quase um dia de viagem da casa de meu avô, as borboletas douradas da esperança morreram com a vertigem da emoção – o pior só podia ter acontecido para ela estar na casa do velhinho atendendo ao telefone, pensei.

Meu cérebro logo transformou a sensação de ouvir aquela voz em pernas bambas, batimentos cardíacos apressados e gelo no estômago. Ao ouvir o motivo da ligação, pela primeira vez na vida senti alívio em receber uma notícia calamitosa.

Pois, ao pensar insistentemente na morte de meu avô, ouvir ao telefone que ele havia sofrido um derrame e que estava em coma no hospital universitário foi como achar nota de R$ 50 no bolso da blusa, esquecida há anos no guarda-roupa.

Dois dias se passaram, e finalmente seria minha vez de visitar o velhinho cearense no hospital. O horário da visita estava marcado para as 15h45. Mas, infelizmente, a vontade de se encontrar com o filho em algum lugar mais tranquilo foi maior do que rever o neto e permanecer em um sombrio e gelado hospital branco, cheio de tubos de oxigênio espalhados pelo corpo. Aproximadamente às 11h da manhã de um fevereiro sem carnaval não muito distante, ele morreu.

*Crônica publicada dia 24 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Autoajuda só atrapalha*

Wilame Prado

Dizem que para criticar algum livro é preciso lê-lo primeiro. É verdade. Por isso, nunca critico Paulo Coelho. Simplesmente não perderei meu tempo lendo obra sobre alquimia dele. Também nunca li nada que está na prateleira dos chamados livros de autoajuda. Folheei alguns por curiosidade. Experiência boa para rir do quanto é obvio, clichê e de mau gosto o quê esses caras da autoajuda escrevem.
Mesmo com meu absoluto desdém pelos livros de autoajuda, sinto medo de ficar falando sobre isso. É que tem muita gente que gosta, assim como de Paulo Coelho, de praticar a chamada ideologia do pensamento positivo. Situação complicada é quando alguém te recomenda, ou então te presenteia, com livros dessa categoria. Nessas horas, a sinceridade é algo totalmente dispensável e difícil de ser praticada.
Um amigo meu afirma mais ou menos isso: “as pessoas otimistas não dormem de noite pensando que amanhã elas precisarão ganhar o mundo. O pessimista, já consolado com toda a desgraça que é sua vida, provavelmente terá uma noite de sono mais tranquila”. Concordo com ele. Durmo igual a uma pedra.
Não acredito na hipótese de que as pessoas que estão no fundo do poço são únicas e exclusivamente culpadas pela situação em que se encontram. O mundo também não ajuda. Posso ficar pensando positivamente minha vida inteira e nada conseguir. De nada vale eu ficar só ambicionando, por exemplo, um excelente emprego, numa excelente empresa. Também preciso agir. A começar: entrar num curso de inglês.
O parágrafo de cima soou como algo positivista. Poderia bem tê-lo apagado, mas o deixo ali em homenagem aos leitores que apreciam escritos de autoajuda. E já que é para ajudar de alguma forma, que tal começando pelos verdadeiros clássicos da literatura? Penso que quem consome bons livros são pessoas melhores.
Para o amor, poderia citar Gabriel García Márquez e obras como “O amor nos tempos do cólera”, “Do amor e outros demônios” e “Memória de minhas putas tristes”. Para entender que são nas coisas simples da vida que encontramos felicidade, ler “As margens da alegria”, conto do livro “Primeiras histórias”, de João Guimarães Rosa, é uma boa pedida. Você vai ficar fascinado de perceber o quanto o menino ficou alegre só porque viu um pavão no terreiro da casa dos tios.
São tantos os clássicos da literatura que fica difícil recomendar numa crônica só. É tanto livro que existe neste mundo, e que cada vez mais se encontra acessível (vide: www.estantevirtual.com.br), que ler autoajuda deveria ser considerado crime. Isso até me lembrou aquele filme do Truffaut, “Fahrenheit 451”, em que proibiam o pessoal de ler, queimando todos os livros que encontrassem nos lares.
Tive vontade de escrever sobre esta autoajuda que só atrapalha porque, finalmente, encontrei alguém que anunciou publicamente o seu profundo desafeto com o pensamento positivo. É a jornalista e escritora americana Barbara Ehrenreich, que acaba de publicar o livro "O lado ruim das coisas: como a promoção incansável do pensamento positivo prejudicou a América" (tradução livre).
Ehrenreich percebeu o quanto a autoajuda lhe prejudicou quando foi diagnosticada com um câncer de mama. Ela afirma, em entrevista na Istoé, que, caso seguisse a linha da autoajuda, teria de “lutar não somente para aguentar os tratamentos terríveis, mas também fazer um esforço enorme para pensar positivamente”.
Ainda na entrevista, disse constatar “que o excesso de positivismo atrapalha a economia, a política e a sociedade como um todo, porque faz com que as pessoas fiquem mais individualistas, egoístas e, em última instância, infelizes”.
Genial esse ponto de vista. Quando o livro for traduzido aqui no Brasil, darei um exemplar de presente para cada pessoa que já me indicou alguma obra de autoajuda, na vã ilusão de que acreditaria em fórmulas mágicas de “Como alcançar o primeiro milhão” ou então de “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.
Crônica publicada dia 17 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Câncer de pele


Adoro desenhar. Uma pena é não saber (ou não ter o dom, como um visitante do blog me alertou) II.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Plantando saudades*

Wilame Prado
Foram poucos, tio Mário, mas marcantes, os momentos em que passamos juntos, lá na roça, terra arrendada, onde o senhor, o padrinho Zé Preto e o primo Carlinhos cultivavam as oleaginosas valiosas – pelo menos naquela época em que a saca de soja era bem paga. Hoje em dia, compensa mais se abandar para os lados da cana-de-açúcar ou então construir granjeiro e plantar pomar para adubar os pés de laranja com o esterco dos frangos.
Digo isso para te manter bem informado, embora acredite que aí dos céus, das plantações divinas, das fazendas longínquas sagradas, o senhor deva estar acompanhando as dificuldades que têm os homens que labutam na roça diariamente. Não bastassem os ladrões de galinha e de gado, nos dias de hoje, tio, até gangue especializada em roubos de tratores já tem.
É por essas e outras que sinto saudade daqueles tempos. O senhor, aí de cima, deve se lembrar do dia em que fomos passar veneno na soja. Eu, moleque de tudo, vindo de São Paulo, capital, tendo nojo de pisar na terra, aprendi a respeitar a vida vivida pelo homem do campo naquele dia, que se iniciara às cinco da manhã, tomando café preto e forte e vendo a Carminha, sua irmã e minha tia, fritando ovos para nossa boia.
Recordo-me que, no mais tardar, às dez e meia da manhã já estávamos devorando aquele arroz com feijão, ovo e batata frita, como se fôssemos reis. Reis com suas boias-frias! Os reis da roça, daquele mundão verde, em perfeita harmonia com o azul do horizonte!
Senti fome logo cedo. Senti frio em cima do trator. Senti náuseas com o cheiro do agrotóxico. Mesmo com essas dificuldades, estar perto do senhor, tio Mário, sem dúvida, era a melhor das sensações. As recordações daquele e de outros momentos vividos ao seu lado, volta e meia, latejam em minha mente. Essas lembranças insistem em me jogar na cara que não mais poderei viver tudo aquilo novamente com o senhor.
Não somos mais reis, tio Mário. A seca acabou com nossa lavoura mágica. E, hoje em dia, homens como o senhor, que nasceram na roça, que brincaram de guerrinha de mamona na infância, que passaram a adolescência catando algodão, que ergueram as mãos para o céu quando a tão esperada chuva prenunciava e que trabalharam dignamente até o último dia em vida, quase não há. Mesmo assim, a gente tenta sorrir ao ver um príncipe Arthur, seu filho, dando um pouco mais de verde para o sertão que é nossas vidas com a tua ausência. Por isso, penso que, mesmo com todas as intempéries que nos acometem nessa estrada rural da vida, tudo valeu à pena, pode ter certeza.
Os homens da roça, os legítimos, os desbravadores, os que cutucavam onça com vara curta, os que almoçavam, jantavam, dormiam e acordavam cedo, devem estar, numa hora dessas, reunidos com o senhor na roça dos céus. E todos, sem exceção, plantaram de tudo aqui na roça da Terra, principalmente saudades.
Crônica publicada dia 10 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Depressão*


Adoro desenhar. Uma pena é não saber.*