terça-feira, 6 de outubro de 2009

Revista piauí comemora três anos*




Por Wilame Prado

Uma das únicas revistas brasileiras em atividade que dedica seu espaço para grandes reportagens, textos ficcionais, jornalismo narrativo e humor inteligente, a piauí completa três anos de vida em outubro.

Porém, mesmo com uma legião fiel de assinantes e custando R$ 9,50 o exemplar, o criador da revista, João Moreira Salles, afirma que ainda não conseguiu obter lucro com a publicação.

Para comemorar o aniversário, Salles vem percorrendo algumas universidades brasileiras e proferindo palestras para comentar sobre a revista piauí, jornalismo, cinema e cultura de uma maneira geral.

No último dia 28 de setembro, os participantes do Set Universitário, na Famecos (Faculdade dos Meios de Comunicação Social) da PUCRS, puderam assistir à palestra comemorativa. E para alegria dos internautas, a explanação de Salles foi transmitida, ao vivo, no site da faculdade e recebeu cobertura jornalística pelo twitter.

Pela internet, a reportagem do Megafone conferiu a palestra e chegou a enviar algumas perguntas ao criador da revista. Sobre essa questão de a revista estar no vermelho, Salles não demonstrou preocupação. Segundo ele, o retorno financeiro para revistas costuma demorar mais tempo do que os três anos pelo qual a piauí vem sendo veiculada.

“A revista leva tempo para conseguir o equilíbrio. Leva tempo para conseguir convencer o mercado publicitário que compensa anunciar na piauí”, diz.

Em determinado momento da palestra, as perguntas foram abertas ao público presente. E, assim como na maioria dos eventos em que Salles participa, a maior curiosidade do público diz respeito ao nome da revista. Por que piauí? Segundo o criador, simplesmente porque gosta da palavra, gosta das vogais e do som que elas remetem. “A vogal é macia, redonda, sai com jeito da boca.”

Quando comparada aos outros meios de comunicação existentes no Brasil, a piauí impressiona pela sua liberdade editorial. Na revista, quase não há editorias e, não raro, satiriza a vida pública de celebridades.

O alvo preferido das últimas edições da publicação é o empresário Roberto Justus, que se arriscou no caminho tortuoso da música, lançando um CD, e, claro, políticos de todas as espécies.

Sarney chegou a ser comparado, numa edição recente, ao Gregor Samsa, personagem principal da obra “A Metamorfose”, de Kafka, que se transforma num bicho asqueroso, da noite para o dia.

Sobre a criação de pauta e possíveis adequações ao jornalismo praticado no país, Salles deixa claro sua intenção: “a gente não vai trazer para revista procedimentos da imprensa autoritária. A gente não vai ter editoria.”

Para ler na íntegra as reportagens publicadas na piauí é preciso dedicar mais do que meia horinha do seu dia. Com fonte pequena, e quase sem ilustrações, os textos da revista são bem embasados, apurados e dedicados a um público que, segundo o criador, sabe processar informação.

Não era para menos. Isso porque, de acordo com Salles, repórteres da revista já chegaram a publicar reportagens que demoraram mais de um ano para serem finalizadas. “No mínimo, as reportagens têm apuração de dois meses. Muitas vezes, o texto vai e volta”, explica.

Para quem está cansado das mesmas notícias, abordadas quase sempre da mesma maneira pelas revistas brasileiras, Salles argumenta sobre o que considera como um dos diferenciais da piauí: "a leitura da piauí não é utilitária. É muito mais ligada à formação do espírito. Parece bobo falar assim, mas é”.



Nenhum comentário: