quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Diálogos docentes*

Wilame Prado
Professor 1: Eles mataram aquele menino. Mataram! Uma morte moral. O rapaz perdeu até o jeito de andar. Pergunto pra você: pra quê tudo isso? Agora, o Pedro está pensando em se transferir de colégio. Parece que até conversou com o doutor Márcio pra tentar um atestado de quinze dias. Assim, não vai precisar voltar nunca mais ao colégio e nem encarar o terror dos corredores na hora do recreio.
Professor 2: Estou sabendo. O pai dele, o Juruna lá do Banco do Brasil, parece que já está vendo umas papeladas pra se transferir pra cidade grande. Confessou ontem pra nós, lá no clube, no carteado, que morar em cidade pequena é ruim por causa disso. Todo mundo conhece todo mundo, e fala de todo mundo.
Prof. 1: Fico pensando: se eu fosse diretor de colégio, sei lá, expulsava o Murilo e o Caio. Esse papo de suspensão de uma semana, os moleques até gostam. Tiram férias antecipadas, jogam videogame a tarde toda, tomam aquela porcaria de tereré e, não duvido muito, já estão mirabolando pra sacanear mais alguém com aquelas músicas.
Prof. 2: Eu gosto do Pedro, mas não me aguentei, cara, vou confessar. Eu ri pra caramba do vídeo que os moleques botaram no You Tube. No início, a gente pensa que vai ser uma música séria – eles tocam muito violão, hein? Mas depois, quando o Caio começa a cantar... pelo amor de Deus! É muita sacanagem pra uma pessoa só.
Prof. 1: E se acha que eu não mostrei o vídeo pra todo mundo lá em casa não, é? Aqueles moleques tinham que trabalhar no CQC.
Prof. 2: Se viu? O Caio, depois que “compôs” a canção da desgraça do Pedro, começou a namorar a Bia, aquela gostosa do terceirão. Como pode, um piá do primeiro ano conseguir tal façanha? As meninas do terceirão só querem saber de professor ou dos caras que fazem cursinho pré-vestibular à noite.
Prof. 1: Está com inveja, é? Toma cuidado viu. Ouvi dizer que a Marli está dedurando professor que olha aluninha com más intenções...
Prof. 2: A Bia já tem 18, e eu não estou nem aí com a paçoca, meu amigo. Pelo menos, alguma coisa de bom a gente tem que ter nessa profissão. Devia ter feito Direito e não História, viu.
Prof. 1: Relaxa, cara. Se você conseguir dar aula no cursinho, aí fechou. Grana boa por mês. O duro é que tem que saber contar piada né?
Prof. 2: É embaçado. Vou pedir pro Caio e pro Murilo fazerem algumas canções sacaneando o Einstein, o Pitágoras e o Platão (risos).
Prof. 1: (risos) Não tem jeito. Os piás são carismáticos mesmo. A gente dá bronca, coitado do Pedro e do Juruna e tal, mas os moleques animam aquele primeiro ano.
Prof. 2: É verdade. Mas ainda estou de cara com a Bia. Ô menina bonita, viu.
Prof. 1: De lembrar dela, me deu fome. Vamos de bandejão no refeitório ou P.F. na padaria?
Prof. 2: P.F é melhor né!
*Crônica publicada dia 27 de outubro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

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