quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Diálogos docentes*

Wilame Prado
Professor 1: Eles mataram aquele menino. Mataram! Uma morte moral. O rapaz perdeu até o jeito de andar. Pergunto pra você: pra quê tudo isso? Agora, o Pedro está pensando em se transferir de colégio. Parece que até conversou com o doutor Márcio pra tentar um atestado de quinze dias. Assim, não vai precisar voltar nunca mais ao colégio e nem encarar o terror dos corredores na hora do recreio.
Professor 2: Estou sabendo. O pai dele, o Juruna lá do Banco do Brasil, parece que já está vendo umas papeladas pra se transferir pra cidade grande. Confessou ontem pra nós, lá no clube, no carteado, que morar em cidade pequena é ruim por causa disso. Todo mundo conhece todo mundo, e fala de todo mundo.
Prof. 1: Fico pensando: se eu fosse diretor de colégio, sei lá, expulsava o Murilo e o Caio. Esse papo de suspensão de uma semana, os moleques até gostam. Tiram férias antecipadas, jogam videogame a tarde toda, tomam aquela porcaria de tereré e, não duvido muito, já estão mirabolando pra sacanear mais alguém com aquelas músicas.
Prof. 2: Eu gosto do Pedro, mas não me aguentei, cara, vou confessar. Eu ri pra caramba do vídeo que os moleques botaram no You Tube. No início, a gente pensa que vai ser uma música séria – eles tocam muito violão, hein? Mas depois, quando o Caio começa a cantar... pelo amor de Deus! É muita sacanagem pra uma pessoa só.
Prof. 1: E se acha que eu não mostrei o vídeo pra todo mundo lá em casa não, é? Aqueles moleques tinham que trabalhar no CQC.
Prof. 2: Se viu? O Caio, depois que “compôs” a canção da desgraça do Pedro, começou a namorar a Bia, aquela gostosa do terceirão. Como pode, um piá do primeiro ano conseguir tal façanha? As meninas do terceirão só querem saber de professor ou dos caras que fazem cursinho pré-vestibular à noite.
Prof. 1: Está com inveja, é? Toma cuidado viu. Ouvi dizer que a Marli está dedurando professor que olha aluninha com más intenções...
Prof. 2: A Bia já tem 18, e eu não estou nem aí com a paçoca, meu amigo. Pelo menos, alguma coisa de bom a gente tem que ter nessa profissão. Devia ter feito Direito e não História, viu.
Prof. 1: Relaxa, cara. Se você conseguir dar aula no cursinho, aí fechou. Grana boa por mês. O duro é que tem que saber contar piada né?
Prof. 2: É embaçado. Vou pedir pro Caio e pro Murilo fazerem algumas canções sacaneando o Einstein, o Pitágoras e o Platão (risos).
Prof. 1: (risos) Não tem jeito. Os piás são carismáticos mesmo. A gente dá bronca, coitado do Pedro e do Juruna e tal, mas os moleques animam aquele primeiro ano.
Prof. 2: É verdade. Mas ainda estou de cara com a Bia. Ô menina bonita, viu.
Prof. 1: De lembrar dela, me deu fome. Vamos de bandejão no refeitório ou P.F. na padaria?
Prof. 2: P.F é melhor né!
*Crônica publicada dia 27 de outubro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Agora sim 50 mil

Agora sim 50 mil. É isso. Seria a hora de parar com o blog?
Enquanto reflito sobre isso, leiam a crônica "Diálogos docentes" na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná.

Quase 50 mil visitas


Contagem regressiva para o visitante de número 50 mil. Segundo contador suspeito, instalado ao lado aí, desde o dia 8 de março de 2008, faltam 20 visitas para o feito.

Nesses quase 600 dias de contador, dividido pelo número de visitas, a média diária de personas que entram neste blog é de 83,333333333...

Enquanto isso, leia “As dez vozes do escuro”, no Portal Literal.

Um abraço e muitíssimo obrigado aos leitores que já se acomodaram, pegaram tuas latinhas e relaxaram suas nádegas nesta Poltrona.




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"De camisola", agora no Cronópios




Ela está em cima de uma cadeira, vestindo surrada camisola cor de pele - outrora devia ser branca. Faz horas que está arrumando o guarda-roupa; tira trecos, põe trecos, enfia roupa, passa pano, tira trecos novamente, passa pano de novo. A visão da janela do meu quarto, quinto andar, é privilegiada, pois a janela dela é a do terceiro andar do bloco ao lado. Continua arrumando, horas passam, eu continuo olhando hipnoticamente, e ela arrumando. Faço de tudo para justificar minha presença na janela. Fumo um cigarro devagarzinho, boa sensação, várias canecas de tereré, olhar hipnótico, arrumação constante. Às vezes, dá-se a impressão que ela me vê, mas analisando fisicamente e geograficamente, não é possível em seu campo de visão enxergar-me, não sem se abaixar. Mesmo assim, tenho certeza que ela me provoca; levanta de leve a camisola, mas não chego a ver nada indecente. Admito, ela não é tão bonita assim, mas como é provocante ver uma moça arrumando seu guarda-roupa com uma camisola curta! Só pode ser provocação...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

As dez vozes do escuro*




“A parede no escuro”, de Altair Martins, diferencia-se pela variedade da linguagem e dos pontos de vista de seus dez narradores; livro é ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Jabuti


Por Wilame Prado
Dependendo do modo como uma pessoa se expõe em sua linguagem, e atentando-se aos assuntos que, volta e meia, compõem o enredo de sua fala, consegue-se conhecê-la melhor.

É por meio da oralidade, representada nas palavras proferidas pelas pessoas, que os personagens do livro “A parede no escuro”, de Altair Martins, vão se revelando e se caracterizando. O romance foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “Melhor Livro de Estreia do Ano”.

São mais de dez narradores no livro. Em muitas páginas, o leitor encontrará um mesmo fato descrito por mais de um narrador. Isso enriquece a cena imaginada e estimula um raciocínio lógico de que a verdade nunca é absoluta e que é dependente do ponto de vista de cada um.

O exercício narrativo proposto por Martins é arriscado no campo da literatura. O autor gaúcho, para produzir o romance, nadou em águas turvas da criatividade, que poderiam muito bem tê-lo arrastado à superficialidade. Mas isso não aconteceu.

O resultado final, além de todos os prêmios conquistados, inclusive sendo um dos finalistas ao Prêmio Jabuti de melhor romance, foi uma obra genial, que exala originalidade (pelo menos quando comparado a escritores brasileiros) e riqueza estética literária. Uma prosa quase poética.

O difícil é imaginar como o autor de “A parede no escuro” conseguiu a proeza de criar tantos narradores, cada qual com suas especificidades, e os consequentes discursos relatados no livro. Em entrevista ao jornal literário “Rascunho”, Martins revela um pouco de sua labuta para tal feito.

“Escrever, para mim, é antes de tudo escutar. E colher. Meu laboratório é meu dia-a-dia: estou sempre coletando sucata. Por isso, para a elaboração de tantos narradores diferentes, adotei envelopes com seus nomes, dentro dos quais fui depositando frases e estruturas sintáticas que me pareciam convir com cada um deles”, revela o escritor.

Nesse exercício atento de observação e coleta de dados, Martins incorporou nos personagens características de pessoas conhecidas, como sua mãe, seu padrasto, professores colegas de trabalho e até alunos.

“Onira tem a sintaxe de minha mãe; Adorno, de meu padrasto; colhi o Coivara de vários professores de cursinho com os quais convivi, e ele tem um pouco da minha linguagem também. Já o Emanuel nasceu da sintaxe de textos dos alunos, algo como uma escrita aos pedaços, com referentes anafóricos desnecessários, com frases viúvas”, explica, na entrevista, a gênese dos personagens do livro.

Em meio a constantes relatos dos narradores, ora representando diálogos, ora representando seus pensamentos, o ponto de partida da trama é o atropelamento e morte do padeiro Adorno. A partir deste fato, o leitor conviverá principalmente com os dramas psicológicos de Emanuel, filho de Fojo, vizinho de Adorno, e supostamente o autor do crime, e de Maria do Céu, filha do padeiro.

Embora Martins negue ter se inspirado em “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, cabe uma comparação entre Raskólnikov e Emanuel, ambos totalmente abalados psicologicamente em razão da culpa que pesa na consciência e com a insana necessidade de desabafar o crime.

Os diálogos entre os professores Emanuel e Coivara acabam levando ao leitor um cenário contundente, mas infelizmente desastroso, da situação atual do ensino brasileiro. É nas palavras de Coivara (que sofre o peso do preconceito dos alunos por não ter um dos braços) que as críticas mais ácidas do sistema são feitas.

Emanuel, enquanto ouve os discursos inflamados do professor de História, encontra-se preocupado com o atropelamento praticado, com a relação amarga entre ele e seu pai e também com a ordem dos copos na mesa e a limpeza do chão abarrotado de giz esmagado – um dos personagens principais do livro parece sofrer de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Esse é só um dos tantos episódios que merecem destaque em “A parede no escuro”. Outro exemplo de maestria linguística e capacidade de conseguir transformar acontecimentos em literatura é a descrição dos pensamentos e sentimentos de Maria do Céu, ao saber da morte do pai.

Recém saída de casa, e ainda colecionando as palavras amargas da última briga com Adorno, o processo digestivo de aceitação da morte se dá aos poucos, com riqueza de detalhes e com surtos de sordidez, raiva, desprezo e, por fim, aceitação.

Das primeiras páginas até o fim do livro, a parede da casa de Adorno, o padeiro atropelado, configura-se quase como um outro personagem, representando a figura onipresente necessária para que o leitor entenda os dramas vividos pelo padeiro, por sua mulher, Onira, e por Maria do Céu, antes e depois do
atropelamento.

Em determinado momento do livro, dias depois da morte de Adorno, Onira pensa alto: “E tem vez que eu penso que tu não partiu ainda, e eu dou uma cochilada e me acordo assustada, porque parece que eu tenho que levar uma toalha seca ou esquentar um leite ou arrumar uma outra coisa da casa. Me dá uma tremura nos nervos por causa que parece que tu pega e te esconde atrás de cada parede.”

No escuro, a parede da casa torna-se testemunho de alguns episódios cruciais na vida de Adorno e de sua filha. Graças a um desses fatos marcantes ocorridos na vida de Maria do Céu, ela consegue uma redenção justificada pelo que pensa ter cometido: a morte do pai.

Nesse ponto, ela se parece muito com Emanuel, que vive suportando um peso de simplesmente não sentir nada pelo pai, ao fato de estar, num bar, tomando um porre homérico e criando coragem para desabafar ao amigo Coivara o crime cometido, enquanto o velho Fojo, numa cama de hospital, parece viver os últimos momentos de sua vida. Emanuel também acredita que matou seu pai.

Todos os personagens de Martins vivem se culpando ou reclamando de algo. Sua literatura não vem com enfeites ou prioriza histórias límpidas e maquiadas de pessoas quase irreais, tão comuns na literatura.

Em “A parede no escuro”, o escritor gaúcho, ao dar voz a pessoas simples, tão bem caracterizadas por seus discursos verossimilhantes, enraizadas nas tradições gauchescas de determinada cidadezinha interiorana e sem muitas ambições para o futuro, consegue traduzir a vida como ela é, por mais cretina que possa parecer.
 Métodos literários

Em sete anos de trabalho solitário escrevendo seu primeiro romance, Martins prova que metodologias e cientificidade também podem ser aplicadas à literatura. “A parede no escuro”, com o título “Desamparo”, foi o texto de sua tese de mestrado. Hoje, dando prosseguimento à sua vida corrida de professor e pai de família, Martins busca seu doutorado também em literatura.

A demora para escrever o livro é justificada pela dificuldade de se criar diferentes discursos narrativos, sem com isso perder a qualidade. Seu projeto literário, o de mexer com a estrutura habitual do romance (quase sempre com apenas um narrador e com os comuns travessões em diálogos) é ousado e perturbador. Mas ele não se importa; gosta de correr riscos.

Ainda em entrevista a “Rascunho”, Martins alfineta os escritores secos e conservadores da linguagem: “Leio securas publicadas aqui e ali, sobretudo de jovens como eu, e penso sempre que faltou a coragem de se arriscar ao erro. Sempre pequei pelo excesso, pela ousadia, e nunca pela covardia. Prefiro uma frase rica em meio a um ramalhete de coisas tortas do que qualquer coisa com cheiro de plástico”, diz.
 Contos do professor de contos

Embora “A parede no escuro” seja seu primeiro romance, Altair Martins, hoje com 34 anos, iniciou sua carreira literária com apenas 24. Na ocasião, lançou a antologia de contos “Como se moesse ferro” e, logo em seguida, o bem visto pela crítica e finalista do Prêmio Jabuti “Se choverem pássaros”, também de contos.

Martins não apenas faz, como ensina a fazer contos. É responsável pela cadeira de Conto no Curso de Formação de Escritores da Unisinos, em São Leopoldo.

Em entrevista ao jornal “Rascunho”, revela estar trabalhando num próximo livro de contos chamado, segundo o autor, provisoriamente de “Enquanto água”. “São textos sobre sensações fluidas, afogamentos, mergulhos, derretimentos. São reflexões sobre a fluidez como a vida desliza hoje, sem que possamos reter qualquer coisa”, diz.


Serviço
Título: A parede no escuro
Autor: Altair Martins
 Editora: Record
 Número de páginas: 256
 Preço: R$ 37,9
Fragmento de “A parede no escuro”
 Um pouco de qualquer coisa, filha, meu pai já respondia quando eu perguntava o que ele misturava dentro do pão. Naquele tempo o pão falava. Tinha farinha, pai? e o pão respondia que tinha. Tinha açúcar? e açúcar, pitada de nada, tinha. Tinha ovo? e o pão respondia que tinha ovo, sim. E farinha? Farinha eu já tinha perguntado?, mas farinha tinha, e muita. Tinha leite e tinha disso e daquilo mais um pouco? E íamos, o pai e eu, colocando todas as coisas dentro dos pães que, o forno apitando, iam saindo do mesmo tamanho, embora cada vez o miolo ampliasse mais sua complexidade de segredos. Se era verão, eu sentava no segundo degrau de madeira. A escada levava a casa à padaria, e eu ficava ali, na transição entre o pai e o padeiro, olhando para o pão que fumegava no prato de louça. Então eu esticava o vestido de algodão até os joelhos e improvisava uma mesa entre as pernas. E olhava para o pão como quem olhasse o escaravelho dourado. Se o virava, era com um respeito às pessoas de idade, e o fazia para ver as marcas da fôrma, verificar o vinco doído da ferida na casca. Só então, com um cuidado-menina, eu o partia. De dentro vinham fumaças de cheiro. O segredo era branco. E olhava o pai que nunca se cansava de trabalhar — meu padeiro tinha muita força nos pães o pai já tinha feito, todos todos. E voltava o meu olho a cavoucar o miolo branco do pão me perguntando O que mais ele põe aqui dentro? E enfim já era eu passando margarina de derreter a vontade. E uma pitada de açúcar como aprendi com meu pai, ou com meu padeiro, pode ser. E o comia sem resposta, barulhos bons do romper-se da casca, satisfação de dentes que vencem tudo, dedo molhado para colher o melhor dos farelos. Quantos pães eu já havia comido, todos todos, até os seis anos, e depois até os sete, e depois e depois?
Sentada no colo dele, eu acompanhava o café. Se fazia frio, as mãos quentes de meu pai me esquentavam as pernas e o peito. Não quero mais, pai, estou cheia de pão. E meu pai vinha fazer aquilo que me iluminava: ele beijava o pedaço de pão antes de atirá-lo aos cachorros. Um pecado, demais, jogar pão fora. Pão não-beijado atraía os ratos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pastel de queijo para todos*

Wilame Prado


Lendo uma matéria sobre Sharon Kleinbaum, rabina da Congregação Beth Simchat Torah, a mais famosa sinagoga de gays, lésbicas e simpatizantes (GLS) nos Estados Unidos, quedei-me a imaginar sobre nosso mundo segmentado e preconceituoso.

Por que há uma sinagoga só para GLS? Ou, então, por que há uma revista direcionada a pessoas que nasceram com a cor negra? Por que existem boates específicas a um público homossexual? São tantas as perguntas sobre este tema espinhoso.

Com certeza, muitos leitores já devem estar maquinando respostas ácidas ao pobre cronista. Mas antes de apertar na tecla “enviar” de seu e-mail, com as soluções para meus pontos de interrogação, leitor amigo, devo dizer que, ao indagar essas segmentações existentes na sociedade, não estou querendo culpar ninguém.

Seja o negro, que não se vê retratado nas publicações de brancos, seja o gay, que não se sente à vontade num barzinho onde a maioria se diz heterossexual.

Quero mesmo é, ao jogar perguntas ao vento sobre o assunto, estimular uma reflexão. Sim, refletimos, pois. Pare para pensar: o preconceito ainda está tão enraizado que muitos não veem problema algum nessas manifestações segmentadas. Para desanuviar melhor, exemplifico com a Parada Gay – evento que reúne muita gente, em diversos lugares do mundo.

Os gays, em si, adoram. Os simpatizantes e pessoas esclarecidas, que já quebraram suas amarras preconceituosas, também amam de paixão. Parabenizo o pessoal da organização e os inúmeros participantes da parada, mas, no auge de minha sinceridade, devo confessar que não gosto muito do evento. É que, mais uma vez, vejo ali uma forma de segregação, feita pelos próprios segregados.

Sabe o que eu queria mesmo? Uma Parada Humana. Queria que gays, negros, brancos, índios, rosas, amarelos, paraguaios, japoneses, italianos e até norte-americanos (por que não?) participassem juntos de uma passeata em busca da paz e pelo fim do preconceito.

Queria ir a uma igreja ou a um templo ou a uma pizzaria ou a uma boate sabendo que ali não há distinção de público. Todos, absolutamente todos, pagando é claro, têm direito de comer um pastel de queijo num mesmo lugar!

Não há dúvidas de que essas manifestações segmentadas são formas que os grupos que sofrem preconceitos têm de se organizarem, unirem forças e não morrerem, cada qual isolado em seu canto, com suas angústias e vontade de gritar.

Por isso, enquanto alguns cabeçudos não conseguirem enxergar todas as pessoas em pé de igualdade, continuarão existindo sinagogas de GLS, revista Raça e Parada Gay.

Mesmo assim, ainda acredito que, um dia, não precisaremos mais disso. Assim como não precisamos mais amarrar o braço das crianças canhotas, obrigando-as a escrever com a mão destra. Os canhotos já não são considerados filhos do diabo. Ufa.
 *Crônica publicada dia 20 de outubro na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná, e também no site Maringay.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sinhazinhas e burguesinhas*

Wilame Prado

Convenço-me, cada dia mais, que a essência em si dos homens e do mundo nunca muda, e sim apenas os personagens e as terminologias para tais manifestações comportamentais.

Olha como escrevi bonito! Terminologias, manifestações etc. Fruto de um trabalho de conclusão de curso alucinante, que me obrigou a dialogar com esse vocabulário mais bonitinho durante quase o ano todo.

Mas, voltando ao raciocínio sobre a essência da vida, quero explicar a mesmice do mundo fazendo uma singela comparação entre duas canções da nossa rica Música Popular Brasileira. São 24 anos separando a música “Sinhazinha (despertar)”, de Chico Buarque, e “Burguesinha”, de Seu Jorge. Ambas retratam a rotina de uma garota de posses.

Na música de Chico, interpretada por Zezé Mota no disco “Para viver um grande amor” (1983), a sinhazinha tem de buscar sempre mais conhecimentos e mostrar-se culta aos pretendentes namorados. “Tem cabeça pra tratar/ Tem que ler caderno B/ Hora no homeopata/ Fita no vídeo-clube” diz um trecho da letra.

A sinhazinha do século 21, apelidada de “Burguesinha” por Seu Jorge, representa também uma garota que precisa se sobressair de alguma maneira na sociedade, investindo em algo que possa torná-la especial.

Nos tempos modernos, porém, já não é preciso ser culta ou pelo menos fingir ter um certo grau de intelectualismo para conquistar os machos. Acompanhe a rotina de uma burguesinha, no trecho da música, e entenderá o que quero dizer: “Vai no cabeleireiro/ No esteticista/ Malha o dia inteiro/ Pinta de artista”.

O interessante é que, diferentemente da sinhazinha anos 80 de Chico Buarque, a burguesinha anos 2000 de Seu Jorge não está interessada em conquistar ninguém, e talvez nem pense em casamento. Quer curtir a vida, aproveitar sua grana na casa de praia e jamais esquentar a cabeça com nada. Afinal, pode sacar dinheiro e andar com o motorista em seu carro esportivo.

É ou não é o retrato vivo de nossa sociedade individualista e consumista, caro leitor? Em meio aos repetidos cantares de “burguesinha, burguesinha, burguesinha”, Seu Jorge demonstra na canção – que faz parte do CD “América Brasil” (2007) – a vontade de ter, e não de ser, das fêmeas endinheiradas: “Só no filé/ Tem o que quer/ Do croissant/ Suquinho de maçã”.

As garotas já não querem mais entrar de cabeça nas águas profundas de um relacionamento amoroso sério. Elas já não sofrem iguais às sinhazinhas das antigas, que entravam no ciclo vicioso: “Namorado pra casar/ Casamento pra sofrer/ A cabeça pra dançar/ E a vontade de morrer/ Disco novo pra rodar/ Vinho branco pra esquecer”.

De qualquer forma, ainda sou muito mais uma sinhazinha que lê o caderno B do que uma burguesinha que fica com sua tribo na balada até de madrugada.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Revista piauí comemora três anos*




Por Wilame Prado

Uma das únicas revistas brasileiras em atividade que dedica seu espaço para grandes reportagens, textos ficcionais, jornalismo narrativo e humor inteligente, a piauí completa três anos de vida em outubro.

Porém, mesmo com uma legião fiel de assinantes e custando R$ 9,50 o exemplar, o criador da revista, João Moreira Salles, afirma que ainda não conseguiu obter lucro com a publicação.

Para comemorar o aniversário, Salles vem percorrendo algumas universidades brasileiras e proferindo palestras para comentar sobre a revista piauí, jornalismo, cinema e cultura de uma maneira geral.

No último dia 28 de setembro, os participantes do Set Universitário, na Famecos (Faculdade dos Meios de Comunicação Social) da PUCRS, puderam assistir à palestra comemorativa. E para alegria dos internautas, a explanação de Salles foi transmitida, ao vivo, no site da faculdade e recebeu cobertura jornalística pelo twitter.

Pela internet, a reportagem do Megafone conferiu a palestra e chegou a enviar algumas perguntas ao criador da revista. Sobre essa questão de a revista estar no vermelho, Salles não demonstrou preocupação. Segundo ele, o retorno financeiro para revistas costuma demorar mais tempo do que os três anos pelo qual a piauí vem sendo veiculada.

“A revista leva tempo para conseguir o equilíbrio. Leva tempo para conseguir convencer o mercado publicitário que compensa anunciar na piauí”, diz.

Em determinado momento da palestra, as perguntas foram abertas ao público presente. E, assim como na maioria dos eventos em que Salles participa, a maior curiosidade do público diz respeito ao nome da revista. Por que piauí? Segundo o criador, simplesmente porque gosta da palavra, gosta das vogais e do som que elas remetem. “A vogal é macia, redonda, sai com jeito da boca.”

Quando comparada aos outros meios de comunicação existentes no Brasil, a piauí impressiona pela sua liberdade editorial. Na revista, quase não há editorias e, não raro, satiriza a vida pública de celebridades.

O alvo preferido das últimas edições da publicação é o empresário Roberto Justus, que se arriscou no caminho tortuoso da música, lançando um CD, e, claro, políticos de todas as espécies.

Sarney chegou a ser comparado, numa edição recente, ao Gregor Samsa, personagem principal da obra “A Metamorfose”, de Kafka, que se transforma num bicho asqueroso, da noite para o dia.

Sobre a criação de pauta e possíveis adequações ao jornalismo praticado no país, Salles deixa claro sua intenção: “a gente não vai trazer para revista procedimentos da imprensa autoritária. A gente não vai ter editoria.”

Para ler na íntegra as reportagens publicadas na piauí é preciso dedicar mais do que meia horinha do seu dia. Com fonte pequena, e quase sem ilustrações, os textos da revista são bem embasados, apurados e dedicados a um público que, segundo o criador, sabe processar informação.

Não era para menos. Isso porque, de acordo com Salles, repórteres da revista já chegaram a publicar reportagens que demoraram mais de um ano para serem finalizadas. “No mínimo, as reportagens têm apuração de dois meses. Muitas vezes, o texto vai e volta”, explica.

Para quem está cansado das mesmas notícias, abordadas quase sempre da mesma maneira pelas revistas brasileiras, Salles argumenta sobre o que considera como um dos diferenciais da piauí: "a leitura da piauí não é utilitária. É muito mais ligada à formação do espírito. Parece bobo falar assim, mas é”.