terça-feira, 1 de setembro de 2009

Vou-me embora pra Maringá*

Wilame Prado
No distante ano de 1992, Telê Santana concedia gentilmente entrevista ao batalhão de jornalistas renomados de um dos melhores programas da televisão brasileira, o Roda Viva. Consegui assistir parte daquela entrevista porque a TV Cultura, em comemoração aos seus 40 anos, vem retransmitindo alguns dos muitos momentos marcantes que ocorreram na emissora. Na entrevista, ele disse que, embora lesse tudo quanto é jornal que lhe chegasse em mãos, e inteirinho, diferentemente dos jogadores que só liam a página de Esportes, estava chateado por só haver notícias ruins. Um astuto jornalista disse ao mestre Telê: “notícia ruim vende”. Mas, veja só. Não só de notícias ruins sobrevive este jornal que vos escrevo. Na edição nobre deste diário, a dominical, que custa mais que o dobro do jornal vendido no meio da semana, percebo em destaque, na capa, uma belíssima fotografia de Maringá vista de cima, com o seguinte título: “Plano Maringá 2030 prevê cidade-modelo”. Eis uma boa notícia, num domingão bonito e quente. Notícia esta que alegra aos jovens que querem continuar morando em Maringá, enche de esperança os adultos que já não veem outra escapatória para suas vidas a não ser envelhecer na Cidade Canção e também deixa os velhinhos ainda mais serenos e orgulhosos por morar numa cidade tão bonita. O leitor atento vai dizer que não leu notícia boa nenhuma, pois tudo não passa de um plano para coisas que acontecerão daqui muitos anos. Tem toda razão leitor sabichão, mas a boa notícia mesmo, a meu ver, é que tem gente fazendo planos, traçando metas e cultivando sonhos para nossa nobre Maringá. E planejar, como dizem as pessoas sábias, é uma ótima maneira de se chegar onde realmente se quer. Li atentamente a reportagem do jornalista Edson Pereira Filho, no caderno Zoom. E pude conhecer um pouco mais deste plano para 2030. Achei o projeto coordenado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem) ousado, é verdade. De qualquer forma, fiz o cálculo e, estando vivo até lá, terei 44/45 anos de idade. Caso o plano obtenha sucesso, nós, maringaenses, moraremos numa cidade com no máximo 500 mil habitantes; poderemos andar de trem às cidades da região metropolitana; teremos serviços de saúde, educação e segurança otimizados; e nunca mais precisaremos dar moedas a flanelinhas porque a Guarda Municipal se encarregará de garantir a segurança em ruas e estacionamentos. Diferentemente de hoje, quando sofremos de azia quando nos lembramos do valor pago no aluguel da casa ou do apartamento, em 2030 ficaremos satisfeitos com os preços praticados no mercado imobiliário porque a especulação financeira será restringida, a favor do bem coletivo. E ainda poderemos, caso brote em nós um sentimento bucólico, morar no sítio e imitar nossos avós na lida com plantas e animais. Isso porque, o homem do campo maringaense terá praticamente todas as comodidades que a tecnologia oferece em setores de comunicação ou de transporte, por exemplo. Até com nossas humildes motocicletas 125 cilindradas ou então com nossas magrelas poderemos circular tranquilamente pelas ruas de Maringá. Sistemas de ciclovias e de rolamento de partida dos semáforos para motocicletas também estão previstos no plano para 2030. Espero poder ser feliz daqui a 21 anos. Em 2030, com quase 50 anos, quero sim uma vida confortável. Chega de saudade, como escreveu Tom e Vinicius. Quero estar longe da tristeza, da pobreza e da miséria. Que nunca falte o leite das crianças, o doce das mulheres e a cerveja dos homens. E que o plano para uma Maringá quase perfeita não fique apenas no papel. Vou esperar essas duas décadas e, mesmo se os ventos do destino me levarem para outro lugar, esforçarei-me para voltar à cidade-modelo. Pois, em Maringá terá de tudo; será outra civilização; teremos telefones automáticos e alcalóides à vontade; e também prostitutas bonitas pra gente namorar. E quando estiver muito triste, querendo, ao ver a noite chegar, até me matar, ficarei tranquilo, pois, em Maringá serei amigo do rei, terei a mulher que quero, na cama em que escolher. Manuel Bandeira foi embora pra Pasárgada. E eu vou-me embora pra Maringá, em 2030. *Crônica publicada resumidamente dia 1 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://images.quebarato.com.br/photos/big/7/8/160A78_3.jpg

3 comentários:

Cauhê disse...

u u huuuu

Fábio Castaldelli disse...

opa! que venha essa Maringá, que cheguemos a ser "cinquentões. que nessa cidade além de tudo isso, tenha cerveja barata pra gente beber e um bom time de futebol pra gente assistir. e se vc chegar antes de mim, por favor, diga ao rei coisas boas sobre minha pessoa.

abraço!

Emerson Wiskow disse...

Bah, ótima crônica.
Grande abraço