terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tempestade de vento*

Wilame Prado De minha parte, não há interesse algum em escrever sobre o suposto Dia dos Pais, comemorado neste último domingo. Antes mesmo de perder o meu, nunca enxerguei brilho nesta data. O Dia das Mães é diferente. Tem emoção, comida boa, flores e lágrimas. Nossas mães abraçam nossas avós e fica tudo muito bonito. E quando tem alguma jovenzinha grávida então? É um paparico só. Digo que esta data não tem relevância por experiência própria mesmo. Ou melhor, por inexperiência própria. Meu velho sempre foi distante. Não me recordo de domingos de agosto que comemoramos um Dia dos Pais. Inventado para vender lenços e meias, este dia não passa de mais uma data comercial. E como vendem sapatos, meias, lenços e cuecas nesta época, não? O engraçado é que, quase sempre, os presentes são comprados por mulheres e filhos, mas descontados da conta bancária do pai. Não passa de uma situação simbólica. No segundo domingo de agosto, fosse eu um pai, não iria gostar de ver descontado do meu ordenado uma quantia x de dinheiro para receber mais um presente que não vale nada. Uma carta, um abraço, um beijo (muitos filhos têm medo de encostar em seus pais) ou até uma apresentação teatral doméstica dos pequerruchos, ressaltando a importância da relação entre pais e filhos, me deixariam bem mais contente. Com todo meu azedume, os leitores devem estar dizendo, no mínimo, que tenho espírito de porco. Peço desculpas, então, aos pais e filhos que gostariam de ter lido algo mais singelo sobre esta data. Para amenizar, confesso uma de minhas maiores fraquezas: sinto falta do meu velho, e isso às vezes machuca tanto que a frieza se torna arma potente contra o sofrimento. Nesta vida galopante, a morte de pessoas queridas se parecem com a brisa que refresca quando se está sentado naqueles banquinhos na beira da praia, olhando a imensidão do mar. Simplesmente passa. A morte do meu pai, para mim, está mais para tempestade de vento, que passa também, só que deixando estragos. Então, nesse Dia dos Pais (assim como quase todos os dias vividos depois de o velho ter me deixado), procurei me distanciar. Frio igual a uma pedra de gelo, não me deixei ludibriar com o cheiro de churrasco de famílias vizinhas em plena adoração paterna ou com as charmosas propagandas emotivas na TV. Fingi estar vivenciando apenas mais um domingo comum e chato. Logo mais teria jogo do Brasileirão. Em instantes, a musiquinha da abertura do Fantástico. E não tardaria para o domingo acabar e a madrugada de segunda-feira anunciar mais uma semana de cão. Passado mais um desses domingos de agosto, agora tenho pelo menos um ano para planejar a escrita de uma crônica decente para o próximo Dia dos Pais. Enquanto isto não ocorre, fica apenas meu apelo a todos os filhos: beijem sempre seus pais. Pois, um dia, eles podem virar tempestade de vento.
Último jantar realizado com meu velho, em São Paulo, em 2006. Na foto, Fábio (cunhado), Laís (sobrinha), Juliana (irmã), Wilame Elias Neto (pai) e eu, prestes a receber um abraço
*Crônica publicada dia 11 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

4 comentários:

Duanny!. disse...

tbm acho o dia dos pais uma data comercial!
mas é algo que eu, mesmo sem meu pai (tbm é falecido) faço questão de comemorar. Sendo data comercial ou não, é um motivo a mais pra dar um abraço no coroa! afinal tenho um padrasto e faço questão de não usar um centavo dele, afinal é presente!
Tem selinho pra você lá no meu blog, na verdade dois. mas um é opcional, não que o outro tbm não seja . :)

Duanny!. disse...

tem outro selinho lá! te esperando!
HAUAHAUAHAUAHAUAHSUA.

Fábio Castaldelli disse...

azedume justificável, meu amigo! dia disso ou dia daquilo. circuladas em tinta vermelha no calendário e propagandeadas na TV, datas "especiais" ou comemorativas não trazem o respeito e a admiração que deve ser valorizada e principalmente demonstrada dia após dia. linda crônica. linda e sincera! beijemos sempre nossos pais.

abraço!

Lu B. disse...

Lindo texto(como sempre)... Entendo seu azedume, talvez no seu lugar pensaria da mesma forma, mas para mim dia dos pais é realmente uma data tao importante quanto o dia das maes... presentes a parte, o mais importante é a reuniao da familia para o almoço do domingo dos pais! e voce sabe que fazemos esta reuniao todo domingo, mas datas comemorativas sempre tem um gosto diferente...
ps: quando vi a foto fiz uma otima viagem ao passado...
abraços