terça-feira, 4 de agosto de 2009

Sobre amizade e motocicletas*

1 Wilame Prado Para que os momentos ficassem eternizados em nossas lembranças, esqueci de propósito a máquina fotográfica. Já na estrada, ainda perto de Jandaia do Sul, Malwee me fez parar a moto com um sinal, levantou a viseira do capacete e disse, em tom de espanto, que tinha esquecido a máquina, com um filme novinho dentro. Eu disse a ele que, da nossa memória, ninguém poderia nos tirar os milhares de retratos que tiraríamos com os olhos no decorrer da viagem. Meu ponto de partida: apartamento solitário (a mulher estava em viagem de negócios) e resquícios de uma noite mal dormida por conta dos litros de vinho caseiro que eu e dois amigos havíamos enxugado horas antes. Ressaca, fome sem vontade de comer e velocidade razoável na humilde Suzuki Intruder 125 cilindradas. Ponto de partida de Malwee: casa aconchegante e familiar, em Jandaia do Sul; um de seus lares, que dividia com irmão, pai e mãe. Um almoço nutritivo e uma Coca-cola gelada de dois litros, que pude compartilhar uns goles quando cheguei à sua casa. Foi bom para a ressaca. Estava receoso em ter de viajar com o estômago vazio, mas dizia a mim mesmo que comida era o que não faltava em postos de gasolina. Antes de gastar pneus na estrada, Malwee quis abastecer sua moto e calibrar os pneus. Eu nem queria sair de cima da minha, pois a mochila nas costas e a blusa quente já estavam no jeito para enfrentar a, até então, maior viagem que faria sobre duas rodas: 350 km, rumando ao interior de São Paulo, mais precisamente no município de Tupã. Confesso que estava com a adrenalina em alta, pois, a cada quilômetro rodado, a cada placa sinalizadora, a cada caminhão ultrapassado, enfim, a cada instante, minha vida se renovava; tudo era inédito porque, com a moto, só tinha dirigido de Maringá a Santa Fé, cidade pequenina onde meus familiares moram e que fica distante nem 60 km de casa. Quando fizemos a primeira parada, no posto de pedágio de Londrina, tive uma recaída de otimismo, pois ainda estava muito perto de casa, mas tão desgastado. Seria a ressaca? Tomamos água e café, de graça e com gosto, pois tanto eu quanto o Malwee achamos um absurdo ter de pagar pedágio, mesmo sem prejudicar o asfalto com nossas motos pequenas. Enquanto eu conversava com dois ciclistas que pararam para reabastecer suas garrafinhas com água, Malwee ficou de ouvidos atentos ao que os funcionários da pedagiadora falavam em seus merecidos intervalos de trabalho. Descobri que os ciclistas, em dias inspirados, andam até 150 km de bike, por pura diversão. E ele descobriu que os funcionários presenciam com frequência, na praça de pedágio, acidentes de trânsito, dos quais, estranhamente conseguem ver graça, por exemplo, num carro desgovernado batendo na mureta que separa as cabines do pedágio. 2 Depois de ter conversado com os ciclistas, sinto vontade de ter uma bike, um pouco mais de saúde e menos ressaca para curtir melhor a natureza enquanto pedalo (ou acelero). Depois de ouvir o relato de Malwee sobre a conversa dos funcionários da pedagiadora, fico pensando em como a violência, o terror e o sangue, em geral, banalizam o sentimento das pessoas. É por isso que dizem que notícia ruim é notícia que vende. Como é bom sentir o vento na cara. Sempre me imagino sentado numa Harley Davidson. Aliás, este é um dos meus únicos sonhos materialistas: crescer de moto. Primeiro minha humilde 125, depois uma Virago 250 cc e, quando for a hora certa, finalmente uma Harley potente. Sonhar é gostoso, ainda mais quando estamos pilotando suavemente, num asfalto sem buracos, sem muito movimento, numa tarde aprazível de sábado, olhando para o horizonte e pensando num destino distante, mas que seja bom quando vier. Na saída de Londrina, resolvemos fazer uma parada relâmpago. Enquanto fumava meu Marlboro azul e Malwee tragava suavemente seu LM também azul, olhávamos embasbacados para o que seria futuramente um condomínio de ricos banhado por um lago artificial, bem lá embaixo. Ficamos com vergonha de entrar no escritório improvisado no acostamento, que vende lotes, para tomarmos um café de graça. Daríamos uma de loucos, perguntaríamos o preço do lote e demonstraríamos interesse na compra, mesmo com nossas mochilas esgarçadas nas costas e nossas roupas e tênis humildes. Perderíamos muito tempo com toda essa cena. Então, optamos por seguir viagem, já sentindo um pouco de frio. Fizemos um trecho longo, de mais de uma hora seguida com as bundas coladas nos bancos das motos, quando a gasolina começou a escassear. Era o momento de procurarmos um posto de gasolina, tirar água do joelho, dar lucro à Petrobras e, quem sabe, comer algo. Creio que já estávamos no Estado de São Paulo. Não sei qual o nome da cidade. Só sei que, num posto qualquer, devorei um bolinho de carne mais seco que minhas mãos gélidas por causa do vento. Uma Coca-cola de 600ml me ajudou a engolir aquela massa de farinha e carne moída de terceira. Pouco tempo depois, a cor negra substituía o azul de um céu de brigadeiro. Com o comecinho de noite, iniciava-se também um pequeno medo de pilotar a moto na escuridão. No campo de visão, reduzido pela sujeira que os isentos esmagados causaram na viseira do capacete, apenas as luzes vermelhas dos faróis traseiros de outros veículos e a luz forte dos carros vindos na outra direção da rodovia. Não sou tão doido quanto Hunter Thompson. Mas, naquele momento, no negrume da estrada e na gênese de uma síndrome do pânico, a minha versão de “Medo e delírio sobre duas rodas” tinha começado. Meu destino – o município de Tupã – parece que sumira do mapa. Acho que era setembro. 3 Será que tem alguém me seguindo? Será que tem alguém me seguindo? Porque o carro não me ultrapassa? Vai, merda, ultrapassa logo! Estou devagar porque nem sei quando é curva ou reta nessa estrada esburacada, com plantações infinitas de cana-de-açúcar nos dois lados da pista. Será que os agricultores do interior de São Paulo já ouviram falar em soja ou milho? Estou ficando louco? Essas eram as perguntas que eu fazia para mim mesmo, enquanto pilotava a moto há mais de duas horas sem parar. Em minha cabeça, Malwee já estava perdido há muito tempo, e não queria me assustar mais. Em minha cabeça, já existia a possibilidade daquele ser o último dia da minha vida. Nunca desejei tanto ver um nascer do sol e o som de pássaros cantando em meio ao arvoredo das ruas das cidades do Paraná. Não aguentava mais a escuridão. Todo automóvel que vinha em sentido contrário parecia que ia bater de frente comigo. Todo automóvel que vinha atrás de mim, parecia que estava me seguindo ou então que queria me atropelar. Quando comecei a ver silhuetas de seres estranhos passeando no meio da pista, querendo que eu os atropelasse, decidi parar no acostamento. Fiz sinal para que Malwee também parasse. Ouvir a voz do meu amigo seria como nascer de novo, pensei. Eu sabia que ele estava perdido, mas era bom ouvi-lo tentando se justificar, dizendo que logo mais chegaríamos a alguma civilização, longe de toda essa cana-de-açúcar, treminhões fantasmas e usinas de álcool, que pareciam encenar um filme de horror. Fiquei imaginando que toda aquela fumaça que saía das chaminés das destilarias era fruto de incinerações de corpos de mochileiros como nós, que se atreveram a passear com suas motocicletas pelo reinado da açúcar, do álcool e da cachaça. De repente, comecei a enxergar uma luz no fim do túnel, ou melhor, no fim da estrada. Postes de luz fizeram nossa recepção num lugar que mais parecia um sítio asfaltado, um vilarejo rural. Na única avenida do lugar, pessoas jogavam baralho na mesa de fora de um bar. E só! Malwee me contou que estávamos em Borá (menor município por habitantes do Brasil) e que menos de 50 km de distância nos separava de Tupã. Fiquei aliviado e com energias recarregadas para, ainda naquela noite de sábado, conhecer alguns bares da cidade. Pronto. Dever cumprido. Finalmente, depois de mais de cinco horas de viagem, estávamos em Tupã. Com pernas e nádegas dormentes, fomos muito bem recepcionados pela avó de Malwee, que se prontificou em preparar um prato delicioso de comida para nós. Guardamos as motos na garagem. Um tempo depois, Malwee já dava a partida num garboso Fuscão bege, até conservado, de sua avó. A noite de sábado só estava começando. Estávamos morrendo de sede, e os bares de Tupã nos aguardavam. “Acelera esse Fusca Malwee”, gritei ao entrar no carro. 4 Com o Fusca da avó de Malwee, andamos pelas curiosas e íngremes ruas de Tupã. Noite adentro de sábado, conhecemos alguns bares; matamos nossa sede. E, como já era de se esperar, nossa conversa ficou resumida em relatar um ao outro as sensações da viagem que acabáramos de fazer com motocicletas nada velozes. Sei que poderia continuar descrevendo o que ocorreu nos outros dias em Tupã. Talvez escreveria sobre o nobre bate-papo que tive no domingo com o tio de Malwee, que mais parecia o Sylvester Stallone. Ou talvez contaria algumas peripécias ocorridas na viagem de volta. Mas não. Termino por aqui, pois, finalmente, quero falar sobre liberdade e, acima de tudo, de amizade. Correr por aí de moto, saber que tudo ficou para trás e que a vida sempre nos dá caminhos a seguir, tudo isso gerou em mim uma sensação de liberdade. Quantas e quantas vezes, na lida com a vida, no meio de uma rotina sacana e alienada, percebi que estava com as mãos atadas e que fugir disso tudo seria pior. É aquela velha história do bicho que come quando se fica parado e do bicho que pega quando se fica correndo. Pois é. Andando com minha humilde Suzuki 125 cilindradas, pude sentir o gosto da liberdade e nenhum bicho conseguiu me pegar ou me comer (sem piadinhas maldosas). E como é bom dividir este momento único de sua vida com um camarada ao lado. Sabe, antes de termos feito esta viagem até Tupã, eu e Malwee éramos apenas bons colegas de turma. Tínhamos em comum o curso de Jornalismo e algumas opiniões parecidas com relação ao mundo, à religião, ao sexo, às drogas, ao rock e, é claro, ao bom e velho mpb. Mas, depois de termos nos embrenhado no asfalto liso e pedagiado do Paraná e pelas tortuosas estradas esburacadas do interior de São Paulo, fortificamos nosso coleguismo a ponto de nos tornarmos amigos de verdade. Foi por nossa amizade que resolvi fazer este relato, logo depois dele ter sofrido um grave acidente de moto, há um mês. Pouco tempo se passou, e os ossos de Malwee já estão voltando ao lugar. Repousando numa cadeira de rodas (só consegue ficar alguns minutos de pé), ele diz que, quando chove ou faz frio, os pinos espalhados pela perna realmente provocam uma sensação esquisita, mesclando dor e arrepios. Antes disso tudo acontecer, estávamos nos programando para realizar nossa segunda expedição motociclística. Destino: Curitiba, mais de 400 km distante de Maringá. Objetivo: encontrar a galera do Jornalismo por lá e participar do encontro da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom 2009. Planos adiados, é claro. Mas, agora, Malwee quer vender sua moto e comprar um Uno. E promete que as aventuras na estrada continuarão. Só que, desta vez, sobre quatro rodas e com um rádio ligado no último volume. *Este relato foi publicado em quatro partes, nos dias 14, 21 e 28 de julho e 4 de agosto, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná. Imagens: http://laurobarbosa.com/wp-content/uploads/2007/12/112859062_ab60866ad8.jpg http://www.vistawallpapers.com/image.php?v=./data/media/207/Harley_Davidson_FXST_Softail_Standard.jpg http://i.s8.com.br/images/books/cover/img9/252369_4.jpg http://3.bp.blogspot.com/_tGvkFxitFC8/SNv5490aZfI/AAAAAAAACQ0/7QUTC_G7bR0/s400/%2B+DE+500+MOTOS+NO+ABRA%C3%87ANDO+O+RS.jpg

Um comentário:

Murilo Battisti disse...

Me senti praticamente incluso nesta história na parte do vinho caseiro!