terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mudanças de hábito*

Wilame Prado Antigamente, quem ia calçado à escola era o maioral. Absolutamente normal era caminhar, descalço, alguns quilômetros de estrada de terra para chegar ao colégio na cidade. Isso quem conta são alguns tios e tias meus que, embora não tenham conseguido concluir nem a oitava séria, são muito mais inteligentes do que eu. Quando fazia o curso de História, tive um professor que justificava o êxito do capitalismo (e por isso era absolutamente a favor do Estado mínimo e das privatizações) com um simples fato: antigamente, ninguém tinha chuveiro elétrico em casa. Concluía, então, que, graças ao capitalismo, a qualidade de vida das pessoas melhorou consideravelmente. Mas engana-se quem pensa que, com a crônica de hoje, vou entrar na chafurdada discussão entre capitalismo e socialismo, direita e esquerda, Mc´Donalds e cachorrão da esquina da Lojas Americanas, privatização da Vale do Rio Doce e Bolsa Família. Como diria Rodrigo Amarante, numa das canções de Los Hermanos: “deixa o verão pra mais tarde”. Trazendo hábitos e costumes do passado até o nosso confortável presente, quero mesmo é fazer um exercício de futurologia sobre os costumes pré-adquiridos pós-gripe-suína. Então o leitor vai dizer: “o que isso tem a ver com pé sujo de terra e banho gelado na bacia?”. Tem a ver com o fato de que, com o passar do tempo e das circunstâncias, nossos hábitos vão se modernizando e fazendo mutações. Nem sempre positivas, é verdade. Pelo menos eu, não sabia que o álcool em gel 70% era eficaz na higienização das mãos. Por esses dias de gripe suína, descobri que desinfetar as mãos com o álcool também é uma boa prática para inúmeras doenças contagiosas. Então eu me pergunto: por que não fazíamos isso antes? Quantas e quantas pessoas morreram com outros tipos de gripes e doenças contagiosas no passado? Sem polemizar, vamos logo ao exercício de futurologia prometido: creio que, num futuro não muito distante, será normal, assim como é fazer pipi e lavar as mãos, ou escovar os dentes ao acordar, passar álcool nas mãos de quando em quando, com ou sem surto de gripe. Os fabricantes não deixarão escapar a oportunidade de fazer potinhos de álcool em gel personalizados com os personagens do Homem Aranha ou da Barbie para estimular o uso das crianças. E mais: versões com cheirinhos agradáveis de uva, morango e laranja também serão feitos para aquele odor de corredor de hospital presente no álcool não incomodar ninguém. Embora eficazes, entretanto, as medidas de higienização deixarão as pessoas mais distantes e frias. O carnaval vai amornar e o futebol nem será mais considerado um jogo de contato. Dar o cotovelo para ser tocado por outro cotovelo será o máximo de uma relação amistosa entre conhecidos. Até o número de crianças recém-nascidas cairá, pois o sexo virtual, seguro e límpido, será prática cada vez mais comum. E um professor de História ficará se perguntando se a ganância dos grandes conglomerados empresariais dos setores avícolas e suínos, que queriam sempre mais e mais frangos ou porcos prontos para o abate em tempo recorde, nem que para isso fosse preciso bombar os bichos com antibióticos, tenha sido a causa do surto da gripe, que forçou as pessoas a mudar seus hábitos no dia a dia. Andar descalço, tomar banho frio, dar as mãos a um conhecido ou dois beijinhos no rosto serão práticas obsoletas, abomináveis e estudadas pelos alunos desse professor de História, curiosos em saber como as relações humanas eram tão mais intensas no passado. *Crônica publicada resumidamente dia 25 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.fenatracoop.com.br/site/wp-content/uploads/2009/03//Alcoolgel.jpg

terça-feira, 18 de agosto de 2009

Apagado*

Wilame Prado Uns pingos gelados começavam a cair do céu. No intervalo das aulas, na faculdade, costumava ficar naquele local, e não seria por causa de uma simples garoa que sairia de lá, mesmo com o cigarro aceso em mãos. Enquanto todos procuravam se esconder do que não poderia nem sequer ser chamado de chuva, ele procurava uma cadeira para encostar suas nádegas, cruzar as pernas e tragar alucinadamente. Achou uma cadeira daquelas brancas, de plástico, que são encontradas em bares e sorveterias. Acomodou-se. Sentiu gota a gota molhar sua camiseta, levemente. Não havia mais ninguém ao lado. A garoa continuava amena e discreta, assim como a aragem refrescante. Com as tragadas consumidas, seu pedaço de tabaco ia se esgotando lentamente. Enquanto isso, a mente viajava para algumas léguas de toda àquela gente, chuva, longe da cadeira de plástico. Conhecidos dele, que faziam o mesmo curso na faculdade, talvez com dó de vê-lo se molhar, resolveram chamá-lo para perguntar o que estava ocorrendo. Ele desdenhou, e reagiu naturalmente: olhar sossegado, sorriso amarelo e, logo em seguida, a velha cara melancólica de sempre. A chuva nem sequer conseguiu apagar a guimba de cigarro no chão. Já era hora de voltar à aula, ainda que tendo consciência de que seria melhor ficar consigo mesmo em vez de ir à jaula do conhecimento falso. Resolveu subir os degraus rumo à sala só para não perder mais uma presença na lista de chamada. Foi acompanhado de uma aprazível colega de curso – a do cabelo vermelho que gosta de Mutantes. Ela, instigada com a abstinência social do rapaz em meio ao fervor acadêmico, perguntou: - Parece que você está meio abatido, triste, solitário? E ele, como sempre, com seu excesso de menosprezo por si, disse: - Que nada, isso é normal. Muitas vezes fico um tanto quanto distante dos demais. E ela: - Você já estudava aqui ano passado? - Sim. - Pois a primeira vez que vi você foi este ano, numa palestra chata. Ele respondeu: - É que sou meio apagado mesmo. Terminando de subir os degraus, já com uma pontada de dor na panturrilha, refletiu sobre o que havia dito à garota de cabelos vermelhos. E imediatamente se lembrou da guimba, ainda acesa, que jogara há pouco no chão. Naquele dia, desistiu de assistir aula. Desceu os degraus, voltou ao pátio, catou o cigarro, agora apagado e completamente encharcado, e jogou no lixo. Ao sentar-se novamente na cadeira de plástico branca, sentiu entrar em contato com seu corpo a poça de água gelada que se formara na superfície do assento da cadeira. A chuva virou tempestade. E não adiantava acender nenhum cigarro agora. Nem mesmo isqueiro ou um palito de fósforo. Com toda a água gelada e transparente que caía do céu, todos permaneceriam apagados. Assim como ele. *Crônica publicada dia 18 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://2.bp.blogspot.com/_X3yQA406A2c/SOm2X2cPVeI/AAAAAAAAAVY/4oBoSb74yqc/s400/Homem%2Bsentado%5B1%5D.jpg

terça-feira, 11 de agosto de 2009

Tempestade de vento*

Wilame Prado De minha parte, não há interesse algum em escrever sobre o suposto Dia dos Pais, comemorado neste último domingo. Antes mesmo de perder o meu, nunca enxerguei brilho nesta data. O Dia das Mães é diferente. Tem emoção, comida boa, flores e lágrimas. Nossas mães abraçam nossas avós e fica tudo muito bonito. E quando tem alguma jovenzinha grávida então? É um paparico só. Digo que esta data não tem relevância por experiência própria mesmo. Ou melhor, por inexperiência própria. Meu velho sempre foi distante. Não me recordo de domingos de agosto que comemoramos um Dia dos Pais. Inventado para vender lenços e meias, este dia não passa de mais uma data comercial. E como vendem sapatos, meias, lenços e cuecas nesta época, não? O engraçado é que, quase sempre, os presentes são comprados por mulheres e filhos, mas descontados da conta bancária do pai. Não passa de uma situação simbólica. No segundo domingo de agosto, fosse eu um pai, não iria gostar de ver descontado do meu ordenado uma quantia x de dinheiro para receber mais um presente que não vale nada. Uma carta, um abraço, um beijo (muitos filhos têm medo de encostar em seus pais) ou até uma apresentação teatral doméstica dos pequerruchos, ressaltando a importância da relação entre pais e filhos, me deixariam bem mais contente. Com todo meu azedume, os leitores devem estar dizendo, no mínimo, que tenho espírito de porco. Peço desculpas, então, aos pais e filhos que gostariam de ter lido algo mais singelo sobre esta data. Para amenizar, confesso uma de minhas maiores fraquezas: sinto falta do meu velho, e isso às vezes machuca tanto que a frieza se torna arma potente contra o sofrimento. Nesta vida galopante, a morte de pessoas queridas se parecem com a brisa que refresca quando se está sentado naqueles banquinhos na beira da praia, olhando a imensidão do mar. Simplesmente passa. A morte do meu pai, para mim, está mais para tempestade de vento, que passa também, só que deixando estragos. Então, nesse Dia dos Pais (assim como quase todos os dias vividos depois de o velho ter me deixado), procurei me distanciar. Frio igual a uma pedra de gelo, não me deixei ludibriar com o cheiro de churrasco de famílias vizinhas em plena adoração paterna ou com as charmosas propagandas emotivas na TV. Fingi estar vivenciando apenas mais um domingo comum e chato. Logo mais teria jogo do Brasileirão. Em instantes, a musiquinha da abertura do Fantástico. E não tardaria para o domingo acabar e a madrugada de segunda-feira anunciar mais uma semana de cão. Passado mais um desses domingos de agosto, agora tenho pelo menos um ano para planejar a escrita de uma crônica decente para o próximo Dia dos Pais. Enquanto isto não ocorre, fica apenas meu apelo a todos os filhos: beijem sempre seus pais. Pois, um dia, eles podem virar tempestade de vento.
Último jantar realizado com meu velho, em São Paulo, em 2006. Na foto, Fábio (cunhado), Laís (sobrinha), Juliana (irmã), Wilame Elias Neto (pai) e eu, prestes a receber um abraço
*Crônica publicada dia 11 de agosto na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Charlene Flanders é minha primeira publicação no site Cronópios

O conto "Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida", agora também no Cronópios.

Sobre amizade e motocicletas*

1 Wilame Prado Para que os momentos ficassem eternizados em nossas lembranças, esqueci de propósito a máquina fotográfica. Já na estrada, ainda perto de Jandaia do Sul, Malwee me fez parar a moto com um sinal, levantou a viseira do capacete e disse, em tom de espanto, que tinha esquecido a máquina, com um filme novinho dentro. Eu disse a ele que, da nossa memória, ninguém poderia nos tirar os milhares de retratos que tiraríamos com os olhos no decorrer da viagem. Meu ponto de partida: apartamento solitário (a mulher estava em viagem de negócios) e resquícios de uma noite mal dormida por conta dos litros de vinho caseiro que eu e dois amigos havíamos enxugado horas antes. Ressaca, fome sem vontade de comer e velocidade razoável na humilde Suzuki Intruder 125 cilindradas. Ponto de partida de Malwee: casa aconchegante e familiar, em Jandaia do Sul; um de seus lares, que dividia com irmão, pai e mãe. Um almoço nutritivo e uma Coca-cola gelada de dois litros, que pude compartilhar uns goles quando cheguei à sua casa. Foi bom para a ressaca. Estava receoso em ter de viajar com o estômago vazio, mas dizia a mim mesmo que comida era o que não faltava em postos de gasolina. Antes de gastar pneus na estrada, Malwee quis abastecer sua moto e calibrar os pneus. Eu nem queria sair de cima da minha, pois a mochila nas costas e a blusa quente já estavam no jeito para enfrentar a, até então, maior viagem que faria sobre duas rodas: 350 km, rumando ao interior de São Paulo, mais precisamente no município de Tupã. Confesso que estava com a adrenalina em alta, pois, a cada quilômetro rodado, a cada placa sinalizadora, a cada caminhão ultrapassado, enfim, a cada instante, minha vida se renovava; tudo era inédito porque, com a moto, só tinha dirigido de Maringá a Santa Fé, cidade pequenina onde meus familiares moram e que fica distante nem 60 km de casa. Quando fizemos a primeira parada, no posto de pedágio de Londrina, tive uma recaída de otimismo, pois ainda estava muito perto de casa, mas tão desgastado. Seria a ressaca? Tomamos água e café, de graça e com gosto, pois tanto eu quanto o Malwee achamos um absurdo ter de pagar pedágio, mesmo sem prejudicar o asfalto com nossas motos pequenas. Enquanto eu conversava com dois ciclistas que pararam para reabastecer suas garrafinhas com água, Malwee ficou de ouvidos atentos ao que os funcionários da pedagiadora falavam em seus merecidos intervalos de trabalho. Descobri que os ciclistas, em dias inspirados, andam até 150 km de bike, por pura diversão. E ele descobriu que os funcionários presenciam com frequência, na praça de pedágio, acidentes de trânsito, dos quais, estranhamente conseguem ver graça, por exemplo, num carro desgovernado batendo na mureta que separa as cabines do pedágio. 2 Depois de ter conversado com os ciclistas, sinto vontade de ter uma bike, um pouco mais de saúde e menos ressaca para curtir melhor a natureza enquanto pedalo (ou acelero). Depois de ouvir o relato de Malwee sobre a conversa dos funcionários da pedagiadora, fico pensando em como a violência, o terror e o sangue, em geral, banalizam o sentimento das pessoas. É por isso que dizem que notícia ruim é notícia que vende. Como é bom sentir o vento na cara. Sempre me imagino sentado numa Harley Davidson. Aliás, este é um dos meus únicos sonhos materialistas: crescer de moto. Primeiro minha humilde 125, depois uma Virago 250 cc e, quando for a hora certa, finalmente uma Harley potente. Sonhar é gostoso, ainda mais quando estamos pilotando suavemente, num asfalto sem buracos, sem muito movimento, numa tarde aprazível de sábado, olhando para o horizonte e pensando num destino distante, mas que seja bom quando vier. Na saída de Londrina, resolvemos fazer uma parada relâmpago. Enquanto fumava meu Marlboro azul e Malwee tragava suavemente seu LM também azul, olhávamos embasbacados para o que seria futuramente um condomínio de ricos banhado por um lago artificial, bem lá embaixo. Ficamos com vergonha de entrar no escritório improvisado no acostamento, que vende lotes, para tomarmos um café de graça. Daríamos uma de loucos, perguntaríamos o preço do lote e demonstraríamos interesse na compra, mesmo com nossas mochilas esgarçadas nas costas e nossas roupas e tênis humildes. Perderíamos muito tempo com toda essa cena. Então, optamos por seguir viagem, já sentindo um pouco de frio. Fizemos um trecho longo, de mais de uma hora seguida com as bundas coladas nos bancos das motos, quando a gasolina começou a escassear. Era o momento de procurarmos um posto de gasolina, tirar água do joelho, dar lucro à Petrobras e, quem sabe, comer algo. Creio que já estávamos no Estado de São Paulo. Não sei qual o nome da cidade. Só sei que, num posto qualquer, devorei um bolinho de carne mais seco que minhas mãos gélidas por causa do vento. Uma Coca-cola de 600ml me ajudou a engolir aquela massa de farinha e carne moída de terceira. Pouco tempo depois, a cor negra substituía o azul de um céu de brigadeiro. Com o comecinho de noite, iniciava-se também um pequeno medo de pilotar a moto na escuridão. No campo de visão, reduzido pela sujeira que os isentos esmagados causaram na viseira do capacete, apenas as luzes vermelhas dos faróis traseiros de outros veículos e a luz forte dos carros vindos na outra direção da rodovia. Não sou tão doido quanto Hunter Thompson. Mas, naquele momento, no negrume da estrada e na gênese de uma síndrome do pânico, a minha versão de “Medo e delírio sobre duas rodas” tinha começado. Meu destino – o município de Tupã – parece que sumira do mapa. Acho que era setembro. 3 Será que tem alguém me seguindo? Será que tem alguém me seguindo? Porque o carro não me ultrapassa? Vai, merda, ultrapassa logo! Estou devagar porque nem sei quando é curva ou reta nessa estrada esburacada, com plantações infinitas de cana-de-açúcar nos dois lados da pista. Será que os agricultores do interior de São Paulo já ouviram falar em soja ou milho? Estou ficando louco? Essas eram as perguntas que eu fazia para mim mesmo, enquanto pilotava a moto há mais de duas horas sem parar. Em minha cabeça, Malwee já estava perdido há muito tempo, e não queria me assustar mais. Em minha cabeça, já existia a possibilidade daquele ser o último dia da minha vida. Nunca desejei tanto ver um nascer do sol e o som de pássaros cantando em meio ao arvoredo das ruas das cidades do Paraná. Não aguentava mais a escuridão. Todo automóvel que vinha em sentido contrário parecia que ia bater de frente comigo. Todo automóvel que vinha atrás de mim, parecia que estava me seguindo ou então que queria me atropelar. Quando comecei a ver silhuetas de seres estranhos passeando no meio da pista, querendo que eu os atropelasse, decidi parar no acostamento. Fiz sinal para que Malwee também parasse. Ouvir a voz do meu amigo seria como nascer de novo, pensei. Eu sabia que ele estava perdido, mas era bom ouvi-lo tentando se justificar, dizendo que logo mais chegaríamos a alguma civilização, longe de toda essa cana-de-açúcar, treminhões fantasmas e usinas de álcool, que pareciam encenar um filme de horror. Fiquei imaginando que toda aquela fumaça que saía das chaminés das destilarias era fruto de incinerações de corpos de mochileiros como nós, que se atreveram a passear com suas motocicletas pelo reinado da açúcar, do álcool e da cachaça. De repente, comecei a enxergar uma luz no fim do túnel, ou melhor, no fim da estrada. Postes de luz fizeram nossa recepção num lugar que mais parecia um sítio asfaltado, um vilarejo rural. Na única avenida do lugar, pessoas jogavam baralho na mesa de fora de um bar. E só! Malwee me contou que estávamos em Borá (menor município por habitantes do Brasil) e que menos de 50 km de distância nos separava de Tupã. Fiquei aliviado e com energias recarregadas para, ainda naquela noite de sábado, conhecer alguns bares da cidade. Pronto. Dever cumprido. Finalmente, depois de mais de cinco horas de viagem, estávamos em Tupã. Com pernas e nádegas dormentes, fomos muito bem recepcionados pela avó de Malwee, que se prontificou em preparar um prato delicioso de comida para nós. Guardamos as motos na garagem. Um tempo depois, Malwee já dava a partida num garboso Fuscão bege, até conservado, de sua avó. A noite de sábado só estava começando. Estávamos morrendo de sede, e os bares de Tupã nos aguardavam. “Acelera esse Fusca Malwee”, gritei ao entrar no carro. 4 Com o Fusca da avó de Malwee, andamos pelas curiosas e íngremes ruas de Tupã. Noite adentro de sábado, conhecemos alguns bares; matamos nossa sede. E, como já era de se esperar, nossa conversa ficou resumida em relatar um ao outro as sensações da viagem que acabáramos de fazer com motocicletas nada velozes. Sei que poderia continuar descrevendo o que ocorreu nos outros dias em Tupã. Talvez escreveria sobre o nobre bate-papo que tive no domingo com o tio de Malwee, que mais parecia o Sylvester Stallone. Ou talvez contaria algumas peripécias ocorridas na viagem de volta. Mas não. Termino por aqui, pois, finalmente, quero falar sobre liberdade e, acima de tudo, de amizade. Correr por aí de moto, saber que tudo ficou para trás e que a vida sempre nos dá caminhos a seguir, tudo isso gerou em mim uma sensação de liberdade. Quantas e quantas vezes, na lida com a vida, no meio de uma rotina sacana e alienada, percebi que estava com as mãos atadas e que fugir disso tudo seria pior. É aquela velha história do bicho que come quando se fica parado e do bicho que pega quando se fica correndo. Pois é. Andando com minha humilde Suzuki 125 cilindradas, pude sentir o gosto da liberdade e nenhum bicho conseguiu me pegar ou me comer (sem piadinhas maldosas). E como é bom dividir este momento único de sua vida com um camarada ao lado. Sabe, antes de termos feito esta viagem até Tupã, eu e Malwee éramos apenas bons colegas de turma. Tínhamos em comum o curso de Jornalismo e algumas opiniões parecidas com relação ao mundo, à religião, ao sexo, às drogas, ao rock e, é claro, ao bom e velho mpb. Mas, depois de termos nos embrenhado no asfalto liso e pedagiado do Paraná e pelas tortuosas estradas esburacadas do interior de São Paulo, fortificamos nosso coleguismo a ponto de nos tornarmos amigos de verdade. Foi por nossa amizade que resolvi fazer este relato, logo depois dele ter sofrido um grave acidente de moto, há um mês. Pouco tempo se passou, e os ossos de Malwee já estão voltando ao lugar. Repousando numa cadeira de rodas (só consegue ficar alguns minutos de pé), ele diz que, quando chove ou faz frio, os pinos espalhados pela perna realmente provocam uma sensação esquisita, mesclando dor e arrepios. Antes disso tudo acontecer, estávamos nos programando para realizar nossa segunda expedição motociclística. Destino: Curitiba, mais de 400 km distante de Maringá. Objetivo: encontrar a galera do Jornalismo por lá e participar do encontro da Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação – Intercom 2009. Planos adiados, é claro. Mas, agora, Malwee quer vender sua moto e comprar um Uno. E promete que as aventuras na estrada continuarão. Só que, desta vez, sobre quatro rodas e com um rádio ligado no último volume. *Este relato foi publicado em quatro partes, nos dias 14, 21 e 28 de julho e 4 de agosto, na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná. Imagens: http://laurobarbosa.com/wp-content/uploads/2007/12/112859062_ab60866ad8.jpg http://www.vistawallpapers.com/image.php?v=./data/media/207/Harley_Davidson_FXST_Softail_Standard.jpg http://i.s8.com.br/images/books/cover/img9/252369_4.jpg http://3.bp.blogspot.com/_tGvkFxitFC8/SNv5490aZfI/AAAAAAAACQ0/7QUTC_G7bR0/s400/%2B+DE+500+MOTOS+NO+ABRA%C3%87ANDO+O+RS.jpg

Por trás da crueldade e da sujeira, homens-bestas sabem o quanto vale um amigo*

Wilame Prado
Quem ler “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” (Record, 2009), lançamento da escritora carioca Ana Paula Maia, 31, provavelmente se perguntará como uma jovem mulher arrumou tanta criatividade para escrever sobre homens cruéis e sujos; sobre sangue e violência; sobre a baixeza humana que ultrapassa atitudes irracionais de bichos; sobre cachorros, porcos, lixo e esgoto. Na obra, estão reunidas duas novelas curtas. A primeira, com título homônimo ao do livro, trata o cotidiano do abatedor de porcos Edgar Wilson e seu amigo Gerson, que sofre de cálculo renal. A segunda novela, “O trabalho sujo dos outros”, leva ao leitor um pouco da rotina de Erasmo Wagner, lixeiro, Alandelon, operador de britadeira, e Edivardes, desentupidor de latrinas, pias, ralos, tanques, esgotos, canos, colunas de prédios e conduítes. Algo em comum transita pela vida de quase todos os personagens das novelas. São homens-bestas, como a própria autora os denomina na apresentação do livro, “que trabalham duro, sobrevivem com muito pouco, esperam o mínimo da vida e, em silêncio, carregam seus fardos e o dos outros”. Mas, será mesmo que “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” se resume ao relato sobre histórias de homens infelizes? Pessoas que realizam algumas das tarefas mais sujas e fedidas que há na sociedade, assim como é matar animais (ou homens), catar lixo e fezes dos outros ou então destruir os próprios tímpanos com o som brutal provocado por uma britadeira ligada o dia todo? Fosse “apenas” isso, a escritora Ana Paula Maia já mereceria aplausos por conseguir descrever tão bem cotidianos, comportamentos e atitudes que, definitivamente, não fazem parte de sua rotina diária. Entretanto, o mais louvável na obra talvez esteja um tanto quanto obscurecido pelo sangue dos porcos e de pessoas abatidas por Edgar Wilson, ou então pelo cheiro do lixo que Erasmo Wagner não recolheu das ruas em função da greve dos lixeiros. O modo como a escritora, provavelmente sem pretensão, contou uma bonita história de amizade entre homens toscos é o que realmente comove nas duas novelas. Faz o leitor lembrar que pessoas marginalizadas e embrutecidas pela vida também precisam conviver socialmente com os demais, e juntos tomar um café da manhã na padaria ou, por que não, abrir porcos, torcer por cachorros em rinhas e desentupir uma caixa de gordura, cheia de filhotes de baratas. Ademais, quando narra cenas fortes de violência e morte, Ana Paula beira um realismo cruel e trágico. A exemplo do dia em que Edgar Wilson ajuda Gerson a tirar o rim que doara à irmã prostituta no passado. E isso sem anestesia, apenas com um canivete, já que o abridor de latas e a colher que encontraram no apartamento dela não seriam suficientes para o abate humano. Esses e outros relatos de violência extrema, o leitor encontrará rotineiramente pelas 160 páginas do livro. E para descrever cenas fortes como essas, Ana Paula utilizou bastante diálogos e parágrafos e orações curtas, tornando o texto aprazível. Não é preciso consultar dicionário para entender aonde quer chegar a escritora e seus personagens tristes e sujos. Para entender a desgraça humana, poucas palavras bastam. Quem gosta, por exemplo, dos filmes “Pulp Fiction”, de Quentin Tarantino, “Old Boy”, de Park Chan-wook, ou “Amores brutos”, de Alejandro González Iñárritudo, gostará também de ler o não menos valoroso, violento e instigante “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”. Um soco bem dado na boca do estômago. Literatura na Internet Mesmo jovem, Ana Paula Maia já tem dois romances publicados: “O habitante das falhas subterrâneas” (7 letras, 2003) e “A guerra dos bastardos” (Língua geral, 2007). Com o sucesso do último livro, e com maior divulgação de seu trabalho (já que entrou para uma das grandes editoras do Brasil), a escritora vem sendo convidada com certa frequência a participar de palestras e workshops sobre literatura. Isso se deve também pelo fato de Ana Paula ter sido a autora, em 2006, do primeiro folhetim pulp da internet brasileira. E por falar em internet, para quem estiver interessado em ler “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos” e não tem R$ 29 para comprar, a autora está realizando em seu blog (www.killing-travis.blogspot.com) um concurso e vai premiar o vencedor com um exemplar do livro. Basta enviar uma ilustração ou foto que tenha relação com as novelas. A imagem deve ser acompanhada de um pequeno texto, com no máximo 300 caracteres. Serviço Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos Autora: Ana Paula Maia Editora: Record Páginas: 160 Preço: R$ 29 Fragmento de “Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos”, de Ana Paula Maia Edgar Wilson sabia que sob influência da lua nova, Chacal fervia pelas entranhas e de suas patas saíam faíscas. Ele certamente lucraria o triplo da aposta, e talvez ganhasse o suficiente para pedir a mão de Rosemery em casamento, que exigia uma geladeira nova para selarem o compromisso definitivamente. O problema é duvidar da fidelidade de Rosemery, que nos últimos tempos estava sempre alegando precisar dormir na casa da patroa, porque a mesma exigia que a faxina fosse feita bem cedo, nas terças e quintas. Mas não pensar muito sobre o que quer que seja faz parte de sua personalidade. Sempre acreditou que a Providência Divina se encarrega do fardo por demais pesado E na providência divina, Edgar deposita toda sua fé. “Pra que se colocar ansioso se isso não acrescenta nem um côvado em sua altura, nem torna um fio de cabelo preto em branco?”, era o que dizia padre Guilhermino Anchieta . Entre rinhas de cachorros e porcos abatidos, Edgar Wilson não reclama da vida. O distante ronco de um motor lhe faz apagar um cigarro sobre uma porção de formigas que reúnem-se ao redor de seu último escarro. Percebe uma coloração avermelhada e teme por algum tipo de mazela. Verifica as horas, calça suas botas de borracha e se coloca de pé. Vê a caminhonete se aproximar, dirige-se até o telefone atrás do balcão e liga para Gerson, seu ajudante, que alega estar sofrendo de uma crise renal. *Esta resenha literário foi publicada em O Diário do Norte do Paraná, no blog Killing Travis (da autora do livro) e no Portal Literal.