sexta-feira, 17 de julho de 2009

Senadores custam mais de R$ 400 mil ao mês*

Os advogados gaúchos Irani Mariani e Marco Pollo Giordani ajuizaram, na Justiça Federal, uma ação que pretende discutir as horas extras não trabalhadas, no Senado, e outras irregularidades que estão sendo cometidas naquela Casa. A ação tramita na 5ª Vara da Justiça Federal de Porto Alegre e tem como réus a União, os senadores Garibaldi Alves e Efraim Morais, e todos os funcionários do Senado Federal, em número de 3.883 servidores, cuja nominata, para serem citados, posteriormente, deverá ser fornecida pelo atual presidente do Senado Federal, senador José Sarney.
Ponto nuclear da ação é que, durante o recesso de janeiro deste ano, em que nenhum senador esteve em Brasília, 3,8 mil servidores do Senado receberam, juntos, R$ 6,2 milhões em horas extras - segundo a petição inicial. Os senadores Garibaldi e Efraim são, respectivamente, ex-presidente e ex-secretário da Mesa do Senado. Foram eles que autorizaram o pagamento das horas extras por serviços não prestados. A ação popular também busca a revisão mensal do valor que cada senador está custando: - R$ 16.500 (13º, 14º e 15º salários); - mais R$ 15 mil (verba de gabinete isenta de impostos); - mais R$ 3.800 de auxílio moradia; - mais R$ 8.500 de cotas para materiais gráficos; - mais R$ 500 para telefonia residencial; - mais onze assessores parlamentares com salários a partir de R$ 6.800; - mais 25 litros de combustível por dia, com carro e motorista; - mais cota de cinco a sete passagens aéreas (ida e volta) para visitar a base eleitoral; - mais restituição integral de despesas médicas para si e seus dependentes, sem limite de valor; - mais cota de R$ 25 mil ao ano para tratamentos odontológicos e psicológicos. Esse conjunto de gastos está, segundo os advogados Mariani e Giordani, impondo ao erário uma despesa anual em todo o Senado de R$ 406.400.000,00,00 ou R$ 5.017.280,00 para cada senador - o que dá uma média de R$ 418 mil mensal como o custo de cada senador. Mariani disse que, como a ação popular também tem motivação pedagógica, os advogados estão trabalhando na divulgação do inteiro teor da petição inicial, para que a população saiba que existem meios legais para se combater a corrupção. A causa será conduzida pela juíza Vânia Hack de Almeida (Proc. nº 2009.71.00.009197-9). *Recebido por e-mail da leitora Estter Ribeiro, de Campo Mourão

quarta-feira, 15 de julho de 2009

O futuro de Sarney

Wilame Prado Estive conversando com Deus dia desses, que finalmente me revelou o que aconteceu com o senador José Sarney. Tendo contatos em 3º grau com todo o Universo, Deus convenceu marcianos do bem a abduzir o ser de bigode amplo, fazendo, assim, uma fineza ao Brasil. Pelo que entendi, na conversa franca com Ele, os E.Ts ajudaram nosso País porque se convenceram que Deus é brasileiro. Deixando-se esquecer do oitavo mandamento, Ele levou essa mentira adiante (que prefere chamar de omissão) com a ajuda de alguns artífices típicos da nação tupiniquim. Deus, que não é bobo nem nada, convidou os marcianos para uma reunião regada à caipirinha, roda de samba e, claro, morenas com traseiros protuberantes, sambando de salto alto e algumas lantejoulas como vestimenta. Ainda houve tempo, na reunião, para a exibição de momentos marcantes da Seleção Brasileira, com golaços de Pelé, em 1970, e de Ronaldo, em 2002. Ao final do encontro entre Deus e E.Ts, ficou combinado que o ex-presidente do Brasil e hoje presidente do Senado, José Sarney, seria convidado a se retirar, por um tempo, do Planeta Terra e ir para não sei onde, com uma ressalva feita pelos marcianos: as morenas tinham de entrar no Objeto Voador Não Identificado (OVNI) também. E foram. Nessa época, os jornais brasileiros noticiaram uma fuga cinematográfica de Sarney, logo após a revelação de que o bigodudo teria uma conta clandestina no exterior. Algumas revistas de direita apontaram como certa sua estadia na Venezuela, graças ao bom relacionamento entre Lula e Chávez. Mas como é difícil acreditar em revista de direita, essa notícia plantada foi logo esquecida. Mesmo sem beber um gole sequer da caipirinha dos Céus, Deus continuou me contando os causos, empolgou-se e me adiantou até o futuro do nosso País. Disse que a política no Brasil continuaria uma merda. Os brasileiros já não teriam Sarney e nem Heráclito Fortes, ufa. Mas teriam como presidente do Senado o ACM Neto, e como presidente da República, um tucano bicudo e despenado. Ixi. Nesse futuro calamitoso, contou descorçoado Ele, o número de pobres e miseráveis cresceria vertiginosamente porque não conseguiriam surfar na onda do progresso – com fome, descalços e sem falar chinês, não teriam chances de conquistar os empregos oferecidos nas multinacionais que dominariam o País. Até que um dia, sem mais nem menos, disse um preocupado Deus, o Sarney voltaria. Lula, neste momento, já nem se interessaria por política – em sua velhice, apenas acompanharia aos jogos do Corinthians e faria viagens pelos países pobres do mundo – com o prêmio Nobel da Paz, seria nomeado membro interino da ONU. E Ele continuou profetizando, afirmando que, com a mesma fisionomia, com o mesmo bigode e com o mesmo sotaque maranhense, Sarney voltaria, sereno, da temporada de férias com os E.Ts, sem se lembrar de nada e achando poético estar com os pés descalços nas areias das praias de seu Estado. Assim como Lula, Sarney já não se interessaria por política. Mas tentaria, sem sucesso, resgatar seu espaço como colunista da Folha de S. Paulo, pois finalmente se convenceria de que era um intelectual (nisso, o trabalho dos marcianos deixou a desejar) e não um governante. Então, retornaria às aulas de pintura, mas, em sua casa, já não caberiam tantos quadros com flores retratadas por ele. Para Sarney, não restaria escolha, disse Deus: o jeito seria calibrar sua veia literária e continuar escrevendo seus contos e romances até um entardecer de um possível outono, em que, em vez de marcianos, finalmente Ele (ou não) fosse lhe buscar. Mesmo assim, os livros do bigodudo continuariam sendo humilhados pela crítica, odiados pelos leitores e acumulados, cheios de pó e ácaros, em bibliotecas de todo o Brasil. Ao final drástico de mais um comandante solito a reinar, nem o próprio Sarney aguentaria relembrar sua história oficial, regada de mentiras e com honras a um mérito nunca existido. Com seu livro autobiográfico estirado pelo chão, finalmente faria a indagação que deveria ter feito logo nos primeiros anos de vida pública: “aonde foi que eu errei?”.
Crédito da imagem: http://1.bp.blogspot.com/_u0b81TDUJ_k/SZmukctEqSI/AAAAAAAAPX8/B0fR9_85k-0/s400/186.jpg

quarta-feira, 8 de julho de 2009

Pelo olho mágico*

Wilame Prado
Era sexta-feira, e chuvosa. Cinco e quarenta da tarde. Depois de mais um dia de trabalho abominável, o estresse tinha tomado conta de sua alma e abalado por completo seu psicológico. Alguns temperos a mais contribuíram para que o nervosismo se representasse, naquele dia, nos indiscretos riscos que atravessavam de ponta a ponta sua branca testa. Enumero, pois: tentativa de assédio sexual de seu chefe sessentão; perda de apetite no almoço ao ver um pentelho nojento no molho da carne; um trânsito bruto e ignorante nas estreitas ruas do centro de Maringá; escova no cabelo desmanchada por conta de alguns irritantes pingos de água caídos daqueles toldos de lojas; e, como se fosse a cereja do bolo, o insucesso na simples operação de abrir a fechadura da porta de seu apartamento. Quase tudo isso que eu disse acima pode ser mentira. Afinal, como saberia o que realmente aconteceu com aquela mulher sendo que fiquei o dia inteiro trancafiado no apê, olhando, a cada barulho lá fora, pelo olho mágico da porta? O que posso dizer apenas é que era grande o desespero quando ela, minha vizinha, tentou abrir a sua porta por mais de trinta e sete vezes (eu contei) e não conseguiu. Senti prazer em vê-la sofrer na luta desesperadora para entrar em seu lar e, quem sabe, tomar um merecido banho, sentar no sofá, passar um requeijão numas bolachas de água e sal e comê-las assistindo à novela das seis. Poderia tê-la ajudado a abrir a porta, é verdade. Mas, pelo olho mágico, sentia quase um orgasmo vendo a moça, que não sei o nome e que beirava os 35 anos, bufar de raiva, numa posição quase sensual, naquela luta incessante entre fechadura e gente. Foram precisos 35 minutos para ela se convencer de que não conseguiria entrar no apartamento sem o auxílio de um chaveiro. Quando finalmente decidiu ligar para alguém resolver seu problema, minhas costas já estavam doendo de ficar bisbilhotando a vizinha agonizante pelo olho mágico. Mesmo assim, fui forte e assisti a sua espera de 47 minutos, sentada no chão frio, até que o abridor de portas chegasse. Foi hilário demais quando ele, em 12 segundos, abriu a porta da vizinha não sei bem de que jeito e, com mais cinco segundos, disse que o serviço custaria R$ 20. Ela pagou de cara feia e nem agradeceu o rapaz, bruaca. Nessa hora, minha vizinha deve ter sentido um alívio danado, mas também raiva por ter ficado tanto tempo tentando abrir a porta do apartamento com a chave do escritório. Ao vê-la finalmente entrando em seu lar e batendo a porta com tudo, pude descansar um pouco no sofá até que um novo barulho me empurrasse de volta em direção ao olho mágico. Assim como eu, agora, ela teria de assistir à novela das sete, pensei. *Conto publicado dia 7 de julho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.catambu.com/album/albums/Brasil/RS/Porto%20Alegre/Outras/Olho%20magico.jpg