terça-feira, 16 de junho de 2009

Sob efeito de drogas*

Wilame Prado Acabo de me encontrar; digo, eu (minha mente) e meu corpo. Ficar doente não é fácil e nunca foi, exceto na época do colégio ou da natação às 7h da manhã. Daí sim era bom ficar doente para não ter de levantar cedo, tomar frio na cara e enfrentar aquele busão lotado e fedido. Para elevar a temperatura do corpo, já tentei até colocar alho no sovaco, mas meus pais sentiram o cheiro e estragaram meus planos de ficar em casa assistindo desenho. E na natação, então!? Aquele cloro ardido entrando nos olhos, e a série de polichinelos que tínhamos de fazer antes de entrar na piscina era um saco. Eu era criança e queria mesmo é paquerar as menininhas, ou então brincar com os moleques de “saio-maiô” – aquele futebol em que a bola é uma lata de refrigerante amassada, parecendo um disco. A febre me deixou nostálgico, desculpe-me. Mas, como ia dizendo, ou escrevendo, sei lá, acabo de me encontrar. Instantes atrás estava eu quase morrendo de frio, com os dedos congelados, com duas cobertas por cima do meu corpo gordo no sofá, tremendo até os dentes e sentindo uns calafrios nas costas. Delirei com uma febre maldita, que me acometeu neste feriado prolongado. “Quem manda ficar sem blusa e tomando gelado”, minha mãe deve estar dizendo. Às vezes é bom sair do corpo, pois viajamos na maionese sem nem mesmo usar qualquer tipo de drogas. Deveriam transformar a febre em cápsula e comercializá-la, né? Dá um “barato” na gente! Nunca senti tanto frio na minha vida, e nem estava tão frio naquele sofá laranja, ridículo e desconfortável da minha sala. Como eu odeio aquele sofá. Um dia vou botar fogo nele, em plena sala, em plena novela das oito, em plena dor no pescoço infernal. E por falar em inferno, neste momento, embora tenha me encontrado, sinto que a temperatura do meu corpo está elevada, minhas mãos e meu peito, agora, parecem estar em brasas. Tudo efeito das gotinhas; estou sob efeito de drogas. Mas tratem de acalmar a vó quando ela for ler meu texto no jornal, e diz pra ela que estou sob efeito de drogas legalizadas, ou seja, de remédio, mais especificamente falando, da milagrosa dipirona sódica. Pensando bem, acho que não me encontrei coisa nenhuma. As drogas que vendem em farmácias são mais pesadas do que a febre. A guerra entre o frio e calor foi vencida por 35 gotas, contadas. Como pode isso? É melhor estar sob efeito da febre ou sob efeito de drogas? Quer saber: se você está lendo este texto, desconsidere. Eu não sou eu. Não me encontrei coisa nenhuma e acho que não vou me encontrar jamais. Alguém foi o culpado de eu ter escrito tudo isto; nego até a morte que sou o responsável de qualquer merda que escrevi até hoje. Acho que a febre está voltando, e agora, metade do meu corpo é brasa e a outra metade é frio. Ficar doente é f... *Crônica publicada resumidamente na coluna Crônico no dia 16 de junho, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://navibedecopacabana.blog.terra.com.br/files/2009/02/comprimidos1.jpg

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