segunda-feira, 29 de junho de 2009

Lúcio é Deus*

Wilame Prado Na final da Copa das Confederações, não estava torcendo por nenhuma seleção. Nunca gostei de nada que viesse dos Estados Unidos, mas também não botava fé no futebol do Brasil, comandado por um técnico inexperiente. O final desta história vocês já sabem, e o meu objetivo, nesta crônica, é escrever sobre o zagueiro Lúcio e não sobre o título da seleção. Criticado por um entre um brasileiro, o estilo de jogo do Lúcio, no mínimo desengonçado, não agrada a gregos e troianos, tampouco comedores de feijoadas e apreciadores de samba. A espinha de muitos se arrepia quando ele, num verdadeiro galope, corre rumo ao gol adversário, desafiando a lógica de que zagueiro deve defender e não atacar. Nessas investidas repentinas ao ataque, suas passadas largas e desconexas se parecem com as de um cavalo doido. Devemos reconhecer nossa implicância com este zagueiro, que, em muitos jogos do Brasil, é verdade, nos fez temer um contra-ataque mortal do time adversário, e finalmente homenageá-lo. Pois foi ele quem salvou o Brasil na decisão do último domingo; foi ele quem chorou e recebeu abraços e até beijos de todos da delegação brasileira. Lúcio é aquele cara que, com certeza, nem se importa tanto com a farra movida a álcool e a pandeiro dos outros jogadores. Talvez nem participe das festas particulares em mansões, em que prostitutas são convidadas para descontrair o ambiente. Ele é aquele cara que vai chegar em casa, dar um beijo na mulher e nos filhos e prontamente assistir à reprise do jogo. Vai analisar seus erros e provavelmente dar um murro na parede quando rever aquele lance em que quase deixou o jogador da seleção adversária fazer um gol. Depois da sessão replay, é quase certo que o zagueirão brasileiro vai ao quintal treinar uns carrinhos certeiros e uns chutes precisos. Lúcio é o brasileiro-mor. É aquele que chora e ri ao mesmo tempo; aquele que não desiste nunca; aquele que liga para o tio Zé depois do título; é o pedreiro, que vai, de Maringá a Mandaguari, dentro do ônibus coletivo, comentando em voz alta os pormenores do jogo do Brasil. Lúcio é o pobre, que não desperdiça a bolsa do Prouni e se forma na faculdade como um dos melhores da turma; é o ganhador da Mega-Sena, que doa metade da fortuna para seus milhares de parentes, amigos e novos amigos. Lúcio é o padeiro, que acorda às 3h da manhã para trabalhar; é o pequeno produtor rural, que bate palmas de felicidade quando sente que a chuva está por vir; é o proletário, que trabalha, de segunda à sábado, dez horas por dia, e, no domingo, faz um churrasquinho e ainda chama a sogra para tomar cerveja. O presidente Lula pode até ser o cara. Mas o Lúcio, meus amigos, é Deus, que foi crucificado, ressuscitado e, hoje, com a faixa de capitão da seleção no braço, louvado por todos os brasileiros, amém. *Crônica publicada dia 30 de junho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://imagem.band.com.br/CNT_EXT_153080.jpg

domingo, 28 de junho de 2009

Michael Jackson do pau oco

Wilame Prado
Fico pensando se quando o Sarney morrer, as pessoas também vão santificá-lo, assim como acontece com todos os famosos que morrem pelo mundão afora. É que é esquisito pensar em tamanha comoção com relação à morte do preto mais branco do mundo, Michael Jackson (ao contrário de Vinicius de Morais, o branco mais preto do Brasil). Faça uma pesquisa em qualquer site de notícias escrevendo “Michael Jackson” e verá que, tirando os 1 milhão de links postados nesta última semana e também sobre a turnê que faria na Inglaterra, o restante das notícias são de escândalos de pedofilia, dívidas, divórcios e processos que a mídia não se cansava de vomitar. Olha, eu sei que muitos devem estar me xingando, ou dizendo que eu não me recordo dos tempos áureos da discotecagem dos anos 80. Eu entendo vocês, fãs. O que eu critico mesmo é a mídia, essa Maria vai com as outras, essa que condena injustamente e que santifica também injustamente. Precisava disso tudo na morte do cara? Com todo respeito aos colegas jornalistas que trabalham na CBN Maringá, assim como o gremista Murilo Battisti, mas infelizmente tive de trocar de rádio nesses últimos dias porque não aguentava mais ouvir notícias repetidas de Michael Jackson na programação da CBN Brasil. O presidente venezuelano, Hugo Chávez, tem razão em criticar a rede de notícias CNN por priorizar a cobertura da morte do astro pop em vez de noticiar a crise política de Honduras, por exemplo. Por que, quando o cara estava na pior, sendo processado, quase preso, praticamente recebendo cuspidas na cara da sociedade, ninguém foi entrevistar os artistas brasileiros para que eles opinassem sobre isso tudo? Agora que se foi, ninguém diz que ele era pedófilo, nojento, racista e outros adjetivos mais. Agora, Michael Jackson é tão somente o imortal rei do pop. Nem quero entrar na discussão dos mitos fabricados pelo pop, em meio a esta sociedade cretina consumista, porque provavelmente serei descortês. E para quebrar o clima, registro, pelo menos, a única lembrança boa que tenho de Michael Jackson: era um jogo do videogame Master System, em que ele combatia os vilões arremessando seu chapéu. Além do chapéu assassino, Michael dava uns chutes vorazes nos adversários. Era pura adrenalina o joguinho. Mas esperem: acabo de digitar no Google “master system Michael Jackson” e descubro que o nome do jogo era “Michael Jackson’s Moonwalker”, inspirado no longa-metragem homônimo. Incrível, não? Outra recordação à la Michael Jackson: na molequice, também tentei imitá-lo deslizando com os pés para trás. Mas meu fracasso com a dança foi um dos primeiros passos rumo ao distanciamento do mundo pop e também de um ser que, caso não tivesse renegado coisas tão importantes neste mundo, como a família, talvez tivesse merecido um pouco mais de respeito.
Crédito da imagem: http://www.multinet.no/~jonarne/Hjemmesia/Favorittartister/michael_jackson/michael_jackson_4.jpg

quinta-feira, 25 de junho de 2009

Eu poderia...*

Wilame Prado Eu poderia, neste momento, estar comentando sobre a não obrigatoriedade do diploma de jornalista, já que estou no último ano da faculdade e, sinceramente, ainda não decidi se jogo ou não, simbolicamente, o canudo do curso no lixo, assim como muitos estão sugerindo. Acho que não jogarei porque conhecimento nunca é demais e, salvo exceções, como em lavagem cerebral ou em uma doença do tipo Alzheimer, ninguém poderá arrancar de mim. De qualquer forma, em meu blog (www.apoltrona.blogspot.com), publiquei um texto sobre o assunto. Hoje, poderia também estar trazendo aos simpáticos leitores um prolongamento da discussão sobre os flanelinhas em Maringá, já que na sexta-feira passada o colega e editor-chefe Milton Ravagnani publicou em sua nobre coluna um e-mail que lhe enviei sobre o assunto juntamente com sua resposta. Sem delongas, apenas agradeço a ele por estar contribuindo diariamente com a sociedade maringaense, levando aos leitores de O Diário sempre pontos de vista consistentes sobre o que está por trás das notícias de política e economia da cidade. Mas, ressalto: também sou contra os flanelinhas e fico com raiva quando sou praticamente obrigado a dar trocados a muitos deles, que, com certeza, devem ganhar mais dinheiro do que eu por mês. Dizem que a crônica tem por característica o humor. Numa tentativa vã de levar aos leitores um momento de descontração em meio ao sangue que escorre de páginas policiais ou ao descontentamento gerado nas páginas de política, poderia brincar um pouco mais escrevendo coisas engraçadas. Lá vai: eu poderia estar matando, roubando, estuprando, mas estou aqui, cronicando. Sim, eu sei. Não foi nenhum um pouco engraçado. Desculpem-me. Aliás, creio que se realmente tivesse de ficar fazendo piadinhas em crônicas para conquistar leitores, definitivamente teria alguma doença crônica. Essa foi boa? Também não, né? É que tem dia que a gente está para a piada, mas tem dia que nem o palhaço quer dar risada. Passei o final de semana inteiro tentando discorrer sobre assuntos mil para esta crônica e nada consegui. Um pressentimento ruim me impedia de finalizar um texto sequer. E na noite de domingo, recebi a notícia que talvez explique um pouco o agouro deprimente que tomou conta de mim: meu amigo Malwee, que inclusive já citei na crônica “Por uma rotina mais amena”, publicada dia 15 de julho de 2008, sofrera um acidente de moto e quebrara um dedo e a clavícula, além de ter quebrado uma das pernas em vários lugares. É por isso que digo: eu poderia estar escrevendo uma crônica, mas só consigo pensar no meu amigo, que me ligou, instantes depois, dizendo, já sob efeito de remédios, que fora a pior sensação da vida dele ter sofrido um acidente. Chorando, pedindo desculpas não sei bem o porquê, ele desligou o telefone. Poderia eu estar pensando em outro assunto? *Crônica publicada dia 23 de junho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

segunda-feira, 22 de junho de 2009

Jornalistas formados, não há o que temer

Wilame Prado Pensei que fosse ver, na semana passada, após a decisão de não obrigar jornalista a ter diploma, colegas de classe desapontados, talvez querendo botar fogo no lixo da sala. Pensei que fosse presenciar a depressão estampada nos olhos de professores, que lutam por um jornalismo mais sério, dotado de cientificidade e teorias. Imaginei coordenadores de curso ou presidentes de sindicatos desabando em lágrimas, com olheiras pela falta de sono, fruto de uma preocupação sobre o futuro do jornalismo. Enganei-me, caros leitores. É claro que existe uma revolta por parte das pessoas que estão prestes a se formar, ou que se formaram recentemente no curso de Jornalismo. É como se, ao final de uma competição acirrada, seu adversário dissesse que estava deixando você ganhar o tempo todo. No calor do momento, influenciados negativamente pelas infelizes declarações de políticos que disseram besteiras ao defender seu voto pela não obrigatoriedade do diploma, os estudantes e os jovens jornalistas esbravejaram, falaram que gastaram dinheiro à toa durante quatro anos, que o Brasil exerce uma política do analfabetismo etc. Mas, passados alguns instantes, depois de alguns copos de água e de cerveja, o pessoal se acalmou. E digo o porquê: eles sabem, no fundo, que no mercado de trabalho pouca coisa vai mudar – quem é bom continuará tendo oportunidade e quem não é continuará comendo pelas beiradas. Sobre os economistas, historiadores, médicos e advogados que querem escrever no jornal, tenho certeza absoluta que se apontarão quando começarem a entender a regras do jogo da notícia. Não há duvidas que preferirão continuar mandando seus artigos de opinião, que é bem mais recompensador. Fabricar notícia é difícil, cansativo e estressante. Enche o saco escrever todos os dias o que as fontes oficiais dizem sem poder dar aquela pitada de opinião. Quem vai regular este mercado serão os próprios jornalistas formados, que se sujeitarão ou não a ganhar menos do que o piso. Eu, particularmente, acho que o jornalismo é, no mínimo, estressante em demasia para me sujeitar a ganhar menos do que o baixíssimo piso. Sendo assim, prefiro trabalhar numa biblioteca ou na roça com meus familiares. Não sou vidente, mas, daqui pra frente, prevejo melhorias no jornalismo brasileiro. Acredito que as redações ficarão menos elitizadas, mais críticas e com maior abertura para estagiários; que os sindicatos de jornalistas serão ainda mais atuantes; e que as faculdades ficarão melhores – talvez até não se preocupando tanto com o mercado de trabalho e sim com a produção de ciência e conhecimento em prol da sociedade. Não há o que temer, caros colegas jornalistas formandos ou formados. Adquirir conhecimento é sempre válido. Somente doenças, como o Alzheimer, ou uma lavagem cerebral, podem arrancar de nós o que aprendemos. Ética não se aprende em faculdade, eu sei, mas técnicas jornalísticas, teorias que nos dão muitas respostas para o que ocorre na prática e até experiência (já que na faculdade existem um monte de jornais laboratórios), isso sim a faculdade nos oferece. Uma possível disputa entre jornalistas não formados e formados é a mais completa imbecilidade que já vi. As provocações e as comemorações que fizeram alguns jornalistas não formados aqui em Maringá, a exemplo de um que, ao vivo na tevê, gesticulou com a famosa banana para as pessoas que buscam conhecimento nas faculdades de jornalismo, é a prova cabal de que ou ele tem um complexo de inferioridade para com os formados ou então que necessite, no mínimo, participar de algumas aulas do curso para aprender a se portar melhor diante das câmeras.
Crédito das imagens: http://www.almanaquedacomunicacao.com.br/files/images/200%20anos%20de%20imprensa/Jornalismo%20sem%20pai%20e%20m%C3%A3e.jpg http://blogs.odiariomaringa.com.br/edsonlima/wp-content/uploads/2008/09/benedito1.jpg

Sob efeito de drogas (na íntegra)

Wilame Prado Acabo de me encontrar; digo, eu (minha mente) e meu corpo. Ficar doente não é fácil e nunca foi, exceto na época do colégio ou da natação às 7h da manhã. Daí sim era bom ficar doente para não ter de levantar cedo, tomar frio na cara, enfrentar aquele busão lotado e fedido, tampouco ter de ficar ouvindo aquelas professoras que, na real, nem sabiam do que estavam falando. Para ficar com febre, já tentei colocar alho no sovaco, mas meu pai sentiu o cheiro. E na natação então!? Aquele cloro maldito entrando nos olhos, a instrutora que, embora fosse bonita, não me atraía nenhum pouco porque eu era criança e queria mesmo é paquerar as meninas da minha idade, ou então brincar com os moleques de “saio-maiô”, aquele futebol em que a bola é uma lata de refrigerante amassada, parecendo um disco; o objetivo do jogo se resumia a conseguir chutar aquela pseudo-bola por entre as pernas de algum companheiro, que, fatalmente, receberia murros e pontapés até conseguir relar num poste, contar até 10 e gritar “mão negra”. Deixando de lado o “Clube da Luta” mirim, lembro-me que antes de entrar na piscina, tínhamos de ficar fazendo polichinelo, que também era um saco. Redigo: eu era uma criança e odiava ter de tomar banho no banheiro das mulheres, nem sei bem porquê ao certo. É que minha mãe me acompanhava no processo: alongamento, piscina e chuveiro quente no banheiro feminino. Acho que eu era um frouxo naquela época, isso sim. Fosse hoje, meu amigo, com essa mente pervertida que tenho, bem que gostaria de ser uma inocente criança, que fica vendo as mulheres tirando biquíni, ficando peladinhas e molhando seus corpos suaves com a água quente do chuveiro. Até me lembrei agora daquelas propagandas do sabonete Lux (sabe?), que parece que vai filmar os peitos das mulheres, mas a espuma escabrosa do sabonete desgraçado nos impede de desfrutar da beleza feminina alheia. Mas, como ia dizendo, ou escrevendo, sei lá, acabo de me encontrar. Instantes atrás estava eu quase morrendo de frio, com os dedos congelados, com duas cobertas por cima do meu corpo gordo no sofá, tremendo até os dentes e sentindo uns calafrios abominantes nas costas. Delirei com uma febre maldita, que me acometeu neste final de semana. Feriados são sempre assim: a gente aproveita, toma umas geladas, fica sem blusa jogando sinuca com uns malandros na pequena cidade e não aguenta as consequências. Como diz minha sogra: “o peido é seco aqui”. Às vezes é bom sair do corpo, pois viajamos na maionese sem nem mesmo usar qualquer tipo de drogas. A febre deveria ser traficada, né? Digo, legalizada, é melhor. Dá um barato na gente! Nunca senti tanto frio na minha vida, e nem estava tão frio naquele sofá ridículo e desconfortável laranja da minha sala. Como eu odeio aquele sofá. Um dia vou botar fogo nele, em plena sala, em plena novela das oito, em plena dor no pescoço infernal. E por falar em inferno, neste momento, embora tenha me encontrado, sinto que a temperatura do meu corpo está elevada, minhas mãos e meu peito, agora, parecem estar em brasas. Tudo efeito das gotinhas; estou sob efeito de drogas. Mas tratem de acalmar a vó quando ela for ler meu texto no jornal, e diz pra ela que estou sob efeitos de drogas legalizadas, ou seja, de remédio, mais especificamente falando, da milagrosa Dipirona Sódica. Pensando bem, acho que não me encontrei coisa nenhuma. As drogas que vendem em farmácias são mais pesadas do que a febre. A guerra entre o frio e calor foi vencida por contadas 35 gotas. Como pode isso? É melhor estar sob efeito da febre ou sob efeito das drogas? Quer saber: se você está lendo este texto, desconsidere. Eu não sou eu. Não me encontrei coisa nenhuma e acho que não vou me encontrar jamais. Alguém foi o culpado de eu ter escrito tudo isto; eu não quis, jamais, revelar que tomava banho no banheiro feminino quando criança, juro, alguém praticou tortura para eu escrever, porém nego até a morte que sou culpado de qualquer merda que escrevi até hoje. Acho que a febre está voltando, e agora, metade do meu corpo é brasa e a outra metade é frio. Ficar doente é foda.

sexta-feira, 19 de junho de 2009

Cartas de colunistas*

Do colunista Wilame Prado recebo a seguinte correspondência: “Concordo com você, Ravagnani, sobre a legalização dos flanelinhas. O meu medo é que, justamente pelo fato de eles não terem esta condição de arcar com os prejuízos de um possível carro roubado ou danificado, que, com a legalização, comece a surgir uma nova demanda de empresa, onde empresários entrariam com a grana e os pobres coitados dos flanelinhas com a mão-de-obra. Seria a privatização do espaço público de Maringá. O maior estacionamento privado a céu aberto do mundo! Acho que não podemos crucificar os flanelinhas, afinal, a sociedade nos impõe algumas regras: temos de trabalhar, temos de ganhar nosso dinheiro, ser mendigo é errado, ser favelado é feio. Essas pessoas que zelam, sem precisão, os carros, na verdade encontraram uma brecha para sobreviver de maneira mais digna, pelo menos na consciência delas. O grande problema desta ‘profissão? é que um bando de marginais se mescla no meio, ganha dinheiro e ainda assusta os motoristas. Mas, por exemplo, o flanelinha ali do Parque do Ingá, parece ser uma pessoa do bem; fica ouvindo seu radinho, já é de idade, vez ou outra dá uma varrida no local com uma vassoura feita com folhas de coqueiro, acho, e vai tocando sua vida sem prejudicar ninguém. Usava o colete da prefeitura, inclusive. Embora existam pessoas do bem sendo flanelinhas, também sou contra. Mas como acabar com uma coisa tão antiga, tão intrínseca? Não há como fiscalizar todas as ruas expulsando os flanelinhas. Qual será a solução? Deixar como está e tentar ao menos filtrar essas pessoas? Fazer um projeto intimidador para torná-los ainda mais marginalizados? Fazer uma campanha com os motoristas, pedindo para que ninguém dê dinheiro aos flanelinhas?” A resposta: Olá Wilame! "Brecha para sobreviver?" Ah, faça o favor! O flanelinha é a personificação da barbárie. É como a hiena, que espera a presa dormir para atacar. Só existe porque o poder público é covarde e preguiçoso, e só se ocupa daquilo que o sustenta, e não está nem um pouco preocupado com o cidadão, que, no fim das contas, é quem paga para que ele exista. Os flanelinhas são uma praga. Uma capitulação do homem civilizado à lei do mais forte. Quando o pacto social foi instituído, o indivíduo cedeu parte de seu direito de fazer o que bem entendesse, com as armas de que dispunha, pela segurança institucional da vida em comum. Pela segurança perdemos liberdade. Ora, o que essa escória faz é retornar ao ponto anterior ao pacto. Temos problemas sociais. E graves. E precisamos de políticas públicas para solucioná-las. O exemplo do senhor do parque, que você apresenta, é clássico. É para estas pessoas que aquelas políticas precisam ser implementadas. Usar como desculpa a existência dessas pessoas para permitir a vitória da tirania do medo que esses flanelões praticam é de uma covardia sem tamanho. A flanelagem é atividade que precisa ser coibida. Os argumentos já enumerei na coluna à exaustão. Não se restringem à responsabilização civil dos danos, não. Há outros, como os crimes praticados (são três: ameaça, extorsão e constrangimento ilegal), a dupla cobrança (o cidadão já paga a Zona Verde, que é administrada pelo município) e a apropriação indevida do espaço público por exploradores privados. Você não pode, por exemplo, abrir uma banquinha na calçada para vender suco de laranja. Por que uma pessoa pode alugar a vaga - que não possui - que é pública, para um terceiro? Finalmente é obrigação do poder público proteger o cidadão. Principalmente as mulheres e idosos, que são as vítimas preferenciais. E não o faz por incompetência e preguiça. Patrulhar as ruas dá trabalho. Muito melhor ficar nas esquinas aplicando multa em quem fura sinal vermelho. E, finalmente, Wilame: não caia nestas armadilhas dessa turma. Eles querem apenas criar currais eleitorais para se perpetuar nos cargos. Junto com os flanelinhas vem outro ataque contra a civilização: os mototaxistas. E já tem projeto de lei para regulamentar esta besteira. Já falaremos sobre isso. Abraço, Milton *Texto extraído da coluna diária de Milton Ravagnani, editor-chefe de O Diário do Norte do Paraná, publicada dia 19 de junho no jornal.

terça-feira, 16 de junho de 2009

Sob efeito de drogas*

Wilame Prado Acabo de me encontrar; digo, eu (minha mente) e meu corpo. Ficar doente não é fácil e nunca foi, exceto na época do colégio ou da natação às 7h da manhã. Daí sim era bom ficar doente para não ter de levantar cedo, tomar frio na cara e enfrentar aquele busão lotado e fedido. Para elevar a temperatura do corpo, já tentei até colocar alho no sovaco, mas meus pais sentiram o cheiro e estragaram meus planos de ficar em casa assistindo desenho. E na natação, então!? Aquele cloro ardido entrando nos olhos, e a série de polichinelos que tínhamos de fazer antes de entrar na piscina era um saco. Eu era criança e queria mesmo é paquerar as menininhas, ou então brincar com os moleques de “saio-maiô” – aquele futebol em que a bola é uma lata de refrigerante amassada, parecendo um disco. A febre me deixou nostálgico, desculpe-me. Mas, como ia dizendo, ou escrevendo, sei lá, acabo de me encontrar. Instantes atrás estava eu quase morrendo de frio, com os dedos congelados, com duas cobertas por cima do meu corpo gordo no sofá, tremendo até os dentes e sentindo uns calafrios nas costas. Delirei com uma febre maldita, que me acometeu neste feriado prolongado. “Quem manda ficar sem blusa e tomando gelado”, minha mãe deve estar dizendo. Às vezes é bom sair do corpo, pois viajamos na maionese sem nem mesmo usar qualquer tipo de drogas. Deveriam transformar a febre em cápsula e comercializá-la, né? Dá um “barato” na gente! Nunca senti tanto frio na minha vida, e nem estava tão frio naquele sofá laranja, ridículo e desconfortável da minha sala. Como eu odeio aquele sofá. Um dia vou botar fogo nele, em plena sala, em plena novela das oito, em plena dor no pescoço infernal. E por falar em inferno, neste momento, embora tenha me encontrado, sinto que a temperatura do meu corpo está elevada, minhas mãos e meu peito, agora, parecem estar em brasas. Tudo efeito das gotinhas; estou sob efeito de drogas. Mas tratem de acalmar a vó quando ela for ler meu texto no jornal, e diz pra ela que estou sob efeito de drogas legalizadas, ou seja, de remédio, mais especificamente falando, da milagrosa dipirona sódica. Pensando bem, acho que não me encontrei coisa nenhuma. As drogas que vendem em farmácias são mais pesadas do que a febre. A guerra entre o frio e calor foi vencida por 35 gotas, contadas. Como pode isso? É melhor estar sob efeito da febre ou sob efeito de drogas? Quer saber: se você está lendo este texto, desconsidere. Eu não sou eu. Não me encontrei coisa nenhuma e acho que não vou me encontrar jamais. Alguém foi o culpado de eu ter escrito tudo isto; nego até a morte que sou o responsável de qualquer merda que escrevi até hoje. Acho que a febre está voltando, e agora, metade do meu corpo é brasa e a outra metade é frio. Ficar doente é f... *Crônica publicada resumidamente na coluna Crônico no dia 16 de junho, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://navibedecopacabana.blog.terra.com.br/files/2009/02/comprimidos1.jpg

domingo, 14 de junho de 2009

terça-feira, 9 de junho de 2009

Final triste da novela dos Ccs*

Wilame Prado Pelo que parece, a novela dos Cargos Comissionados (CCs) na Câmara Municipal de Maringá teve seu último capítulo na quinta-feira, desbancando as tradições novelísticas globais, em que o derradeiro final ocorre na sexta-feira, com reprise no sabadão. E, diferentemente das “Pedra sobre pedra”, “Roque santeiro”, “A próxima vítima” e tantas outras novelas que o brasileiro conhece bem, a novelinha dos vereadores maringaenses não teve final feliz. Bem que eles tentaram mascarar suas baixas intenções aumentando o corte de cargos e dizendo que a economia seria o bastante, mesmo com o acréscimo da verba mensal de gabinete. Os vereadores até que encenaram bem, mas não ganharam prêmio algum por atuação. O júri, composto pelos maringaenses, não aprovou o roteiro e não vai deixar barato essas cachorradas internas da Câmara, pelo menos assim eu espero. Acredito numa mudança de postura daqui pra frente por parte dos maringaenses e também dos vereadores. Os engravatados eleitos pelo povo, ao final dessa fatídica novela dos CCs, começaram a enxergar que, se quiserem continuar com as malandragens, pelo menos terão de tomar cuidado e fazer mais escondidinho. E os maringaenses, por sua vez, passaram a acreditar mais em seu potencial de mudança no cenário político. Tudo bem que o final da novelinha não foi nada feliz, porém, seria mais grave ainda se o primeiro projeto da Câmara fosse aprovado, o que tiraria apenas 18 CCs. Olhando para trás, é realmente vergonhoso saber que a novelinha, ou melhor, a novelona, durou cinco meses na Câmara. Quase meio ano para resolver um assunto que nem deveria entrar em pauta, pois é muita sacanagem contratar pessoas para não fazer nada e com o dinheiro público. Mais uma lamentável página vai ficar na história da política coronelista que existe em Maringá. Todos nós sabemos, mas poucos querem falar que, na verdade, quem manda na cidade do Parque do Ingá é uma meia dúzia de pessoas, com sobrenomes iguais, e que não pensam jamais no bem comum. Não podemos nos deixar enganar com as aparências das obras inauguradas sem funcionamento ou com as cores chamuscantes de uma Academia da Terceira Idade a cada esquina. Existem coisas erradas acontecendo diariamente nos porões políticos da prefeitura e da Câmara, e é só por meio da fiscalização de cada maringaense que as podridões vão acabar. A novela dos CCs teve seu fim, mas virão outras e mais outras, sobre outros assuntos. E o protagonista, aquele que nunca morre no final e que casa com a moça mais bonita, deve ser o maringaense, sempre. Chega de participar da novela apenas como meros telespectadores passivos, em que, mesmo vendo a merda toda acontecendo, logo se esquece, numa burra amnésia coletiva, ao trocar de canal ou ao assistir a mais uma propaganda de cerveja. *Crônica publicada dia 9 de junho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 2 de junho de 2009

CCs da Câmara, a novela*

Wilame Prado Fiquei quieto durante duas semanas e não escrevi nada sobre as últimas notícias que pulularam em Maringá sobre o excesso de Cargos Comissionados (CCs) na Câmara Municipal de Maringá. Dizem que quem cala consente, mas este não é o meu caso. Às vezes, é preciso ter paciência para acompanhar os pormenores de um assunto tão complicado como este. Para ser bem sincero, aquietei-me nestes dias frios que se passaram justamente para aguardar decisões importantes, de pessoas importantes do município. Estou me referindo ao prefeito de Maringá, Silvio Barros, que teve a oportunidade de contribuir para que os anseios da população se tornassem realidade, mas que preferiu apenas devolver o projeto ridículo que autoriza a redução de 18 CCs sem dizer o que achava disso tudo. Sei que poderia ter me calado por mais algumas semanas, esperando o desfecho deste quiprocó vigente na Câmara dos vereadores. Mas, quando li a notícia de que o prefeito não omitiria opinião sobre assunto sério como este, senti os dedos coçarem e a folha branca do Word me chamar para escrever. O nosso prefeito perdeu a oportunidade de se consagrar nas páginas da história de Maringá como um político que atuou a favor do povo. Digo isso por ter certeza absoluta de que o ato legítimo das mais de 40 entidades do município, pedindo ao prefeito para que vetasse ou devolvesse o projetinho sem-vergonha, ficará marcado como o dia em que os maringaenses resolveram lutar contra a baixaria existente no cenário político do município. Fosse eu – este pobre cronista – prefeito de Maringá, faria até uma homenagem às entidades que se mostraram preocupadas com as decisões dos vereadores. Sem titubear, vetaria o projeto bizarro e ainda apoiaria o projeto mais justo, seguindo o estudo feito por cinco vereadores, que aponta o excesso de mais de 70 cargos na Câmara. Muitos, ao ler o parágrafo acima, estão, neste momento, chamando-me de ingênuo, eu sei. Porém, muitos também devem ter desdenhado das entidades que resolveram se unir para emitir um documento ao prefeito pedindo decisões sérias sobre essa farra de cargos existentes no município. Mas, já que o prefeito acha que os assuntos da Câmara (leia-se: o mau uso do dinheiro público) devem ser tratados internamente, nos resta agora aguardar os últimos capítulos da novela dos CCs e torcer para que o terceiro projeto sugerido – o de aumentar para quase R$ 13 mil a verba de gabinete dos vereadores – não seja aprovado. Aproveito para dar os parabéns aos que estão lutando a favor do bom uso do dinheiro público, torcendo para que esta prática se torne frequente em Maringá, oxalá no Brasil todo. Continuemos unidos, maringaenses, tendo a consciência de que, infelizmente, temos de lutar contra os que deveriam estar vestindo a nossa camisa – os políticos. *Crônica publicada dia 2 de junho na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná