terça-feira, 5 de maio de 2009

Nós ganhamos; eles gastam*

Wilame Prado Em minha meninice, mamãe me dava o dinheiro contado para, na hora do recreio, entrar na fila da cantina e comprar, com muita alegria, um salgado e um Mupy (alguém se lembra deste suco de saquinho à base de soja, que se tomava com o canudinho?). Pagando com notas de cruzeiros, as que tinham um beija-flor estampado se não me falhe a memória, ainda pegava umas balas com o troco. Naquela época, ainda morando na grande São Paulo, sempre ia ao mercadinho próximo de casa comprar um vinagre ou um óleo que estava faltando e, com o troco, comprar doce de abóbora, em formato de coração, no Bar da Dona Cida. Hoje, os doces já não me atraem tanto, mamãe já não precisa me dar dinheiro e a maior cidade do Brasil significa nostalgia sem fim para mim. Recebo meu salário e, juntamente com o salário de minha mulher, faço um verdadeiro milagre para pagar aluguel, condomínio, luz, internet, remédios, mercado etc. E já não sobram trocos. Mas, até aí, tudo bem: nada mais justo do que trabalhar, receber dinheiro, pagar contas e usufruir serviços e bens da sociedade. O problema é quando os outros gastam nosso dinheiro de maneira indevida. É o que acontece, e sempre aconteceu, nas Câmaras de Vereadores e de Deputados, e no Senado Federal. Não sei se choro ou se rio (de desespero) quando ligo a tevê e ouço um parlamentar dizer que deputados idosos precisam levar a mulher em Brasília para que estas zelem pela integridade física dos maridos. Os políticos podem levar suas mulheres, filhos, amantes e empregadas para onde quiserem. Só que devem, no mínimo, pagar as despesas dos convidados da farra, incluindo as passagens aéreas, com o próprio gordo salário que recebem. Em tempos de crise, reduzir custos no setor público se torna quase que uma obrigação, mas, por se tratar do nosso dinheiro, esta prática deveria ser uma constante. E por falar em custos, bem que os serviços da área de Saúde de Maringá poderiam ser melhorados, não? Mas, infelizmente, uma corja de vereadores preferem deixar de economizar mais de R$ 3 milhões ao ano e continuar com a mamata dos cargos comissionados. Gostei muito do que escreveu Milton Ravagnani, colunista deste jornal, sobre os cargos comissionados da Câmara: “são cabos-eleitorais remunerados com dinheiro público para trabalhar, durante quatro anos, para que aquele que o nomeou consiga sua reeleição.” Nossa realidade é absurda: somos obrigados a pagar caros impostos e, automaticamente, contribuir para o vertiginoso crescimento das panças de nossos representantes políticos (esses desalmados) e de seus amiguinhos comissionados. Mas sei que deve haver uma meia dúzia de pessoas sérias neste meio. Por isso, imploro a elas para que tomem providências contra essa desavergonhada e criminosa prática – a de gastar erradamente o dinheiro dos outros. *Crônica publicada dia 5 de maio na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://coisasdehomem.com/imagens/dinheiro.jpg

Um comentário:

Fabio Chiorino disse...

você descreveu a infeliz situação atual tão corretamente, que não consigo encontrar algum argumento além da ausência de terremotos para justificar que é bom nascer e morrer no Brasil.
Abraços, grande Wilame