terça-feira, 12 de maio de 2009

Máscara*

Wilame Prado Antes de voltar para casa, José passou numa loja de equipamentos cirúrgicos e comprou uma caixa de máscaras hospitalares, daquelas iguais a que o Michael Jackson usou quando veio ao Brasil. Chegando em casa, como era de costume às terças-feiras, jantou costeletas de porco com a mulher e com os filhos. No Jornal Nacional, acompanhou as últimas notícias da gripe Influenza A (H1N1), que anteriormente fora apelidada de gripe suína. Naquela noite, sonhou que era um porco prestes a ser condenado por causa da gripe. Prevendo um fim trágico, deleitou-se pela última vez num mar de lama e comeu lavagem como se fosse príncipe. Acordou sufocado; tomou banho, bebeu uma xícara de café, escovou os dentes, colocou uma máscara na cara e foi para o trabalho. No transporte coletivo, as pessoas olhavam perplexas para o homem que usava tranquilamente uma máscara. Quando um velho senhor tossiu dentro do ônibus, todos ao seu redor tentaram se afastar e o olharam com ar de reprovação. No fundão, já se ouvia gente reclamando da gripe suína, aviária, da vaca louca e mandando o pessoal abrir as janelas. Em seu trabalho, num escritório de contabilidade, as pessoas, no início, tiraram sarro do colega que estava usando uma máscara. Até o horário de almoço, entre um cafezinho e outro no corredor, já haviam comentado sobre casos de gripe em Maringá, sobre as mortes nos Estados Unidos e sobre filmes dramáticos, como “Ebola – o vírus da morte”, Eu sou a lenda” e “Ensaio sobre a cegueira”. E, depois de um tempo, começaram a refletir sobre o que estavam assistindo na televisão relacionado à epidemia de gripe no México. Antes de ir embora, José, sempre muito quieto, teve de responder cinco vezes o quanto tinha pagado e aonde tinha comprado as máscaras. Na viagem de volta para casa, dentro da circular lotada, percebeu que, mesmo estando aquele frio de começo de maio, as pessoas faziam questão de deixar as janelas escancaradas. No lar, encontrou os filhos brincando de médico com suas máscaras e a mulher preocupada com sua atitude inovadora: a de usar máscaras em uma cidade onde o vírus ainda não tinha chegado. No jantar desse dia, comeu bife acebolado e estranhou ao ver o resto das costeletas do jantar passado no lixo. José não era muito de falar. Ele não conseguia explicar ao certo porque decidiu usar máscaras. Mas, no outro dia, impressionou-se ao ver que já não era o único a usar máscaras na circular e nem no serviço. Um amigo seu, mais antenado no mundo virtual, mostrou a ele uns blogues que noticiaram o fato insólito: um homem usando máscara em Maringá. No domingo, como de costume, foi comprar o jornal impresso numa banca. Na capa, achou interessante a foto, bem grande, mostrando um monte de gente fazendo caminhada no Parque do Ingá com máscaras no rosto. Na foto de dentro, ao lado da reportagem especial, viu pessoas na catedral tendo de tirar as máscaras por um instante para receber a hóstia do padre. Não demoraria muitos dias para ver, em seu jornal predileto da televisão, Maringá sendo citada como a mais nova cidade em que a gripe Influenza chegou. Naquela noite, José foi dormir com um certo peso na consciência e acabou sonhando com porcos novamente. No meio da noite, acordou tossindo, com dores musculares e febre alta. *Crônica publicada dia 12 de maio na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.woohome.com/wp-content/uploads/2009/04/pig-1.jpg

3 comentários:

Lucas disse...

Gostei de sua crônica cara. Acho que você pegou o "espírito" da questão de uma forma interessante. Em tempo de pandemia, de duvida sobre o futuro próximo, a literatura surge como valvula de escape e, ao mesmo tempo, como ferramenta de reflexão.

D. Fernandes disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
D. Fernandes disse...

Parabéns. Ótima crônica, gosto de assuntos palpáveis, que estão próximo de todos nós.
Interessante que não só a mídia tomou o papel de difusora, mas também um cidadão, que através do sonho maluco (que me lembrou A metamorfose - Kafka)e sua atitude ''preventiva'', influenciou as pessoas da cidade onde mora.
Gostei muito.
Novamente, parabéns