segunda-feira, 6 de abril de 2009

Vacas magras*

Wilame Prado “Mas como é possível dar tudo tão errado, num único momento”, perguntava-se, olhando para mais um semáforo fechado, em cima da motocicleta, sentindo a água gelada penetrar em seus sapatos e notando que sua blusa de lã estava mais pesada do que nunca. Naquela chuva de lavar alma, conseguiu ainda sorrir ironicamente ao se lembrar dos velhos ditados sobre vacas gordas e magras e sobre tempestades e calmarias. O sorriso amarelecido se deu porque, em sua bizarra imaginação, visualizou vacas obesas andando em cadeiras de rodas, fazendo compras, bem tranqüilas, em hipermercados dos Estados Unidos e também vacas anoréxicas, com relevos salientes de costelas, sendo violentamente arrastadas por tempestades de ventos, tentando segurar com suas patas, em vão, os postes e as árvores do caminho. Com a buzina chata do carro de trás, percebeu que o semáforo já estava quase se fechando, o que aumentou ainda mais seu estado de nervo. Já no apartamento, notou que seu braço direito estava formigando, causando-lhe receio, pois fazia dias que estava com uma forte dor no peito. Lembrou-se, então, da causa mortis do pai, mas, diferentemente dos tempos de menino, não fez o sinal da cruz. Sempre achou que a chamada Lei de Murphy (se alguma coisa pode dar errado, com certeza dará) fosse conversa fiada, mas, na situação em que se encontrava, não conseguia parar de pensar no exemplo típico de um pão caindo com a manteiga para o lado de baixo. Curiosamente, comeu uma fatia de pão de forma com manteiga, mas não fez teste algum com seu alimento, que foi digerido em tempo recorde – como de praxe, estava atrasado e não podia perder um minuto sequer para se alimentar direito. Os atrasos, as chuvas que tomava nas costas, a grade curricular equivocada da faculdade, o sono que o impedia de fazer o que tinha de ser feito, os gastos em excesso e não planejados, as horas-extras no trabalho, as injustiças do mundo, incluindo a seca e a fome no Nordeste que assistia na reportagem da tevê, tudo isso, de uma hora para outra, caiu bem em cima de sua cabeça, assim como aqueles cofres ou pianos que caem nos personagens do desenho Pica Pau. Diferentemente ao que ocorre com as vítimas da animação, não nasceu um galo enorme em sua cabeça. Para ele, o resultado disso tudo foi um pacote completo de problemas de saúde, incluindo dores no peito, no pulmão e principalmente no pescoço (tinha a impressão de que carregava nos ombros uma pessoa pesada), além do estresse, que se manifestava com o surgimento de feridas nas mãos e nas pernas, além de espinhas e rugas no rosto. Porém, o pior era mesmo a tristeza, que chegava e dominava seu ser, de repente, como quem não quer nada, quase tímida, mas muito sincera, assim como aqueles ventos que chegam no cair das noites de inverno. E, embora fosse novo, ficou espantado de ainda não ter achado um fio branco em meio aos seus cabelos. Tentou seguir sorrindo, mas quase já não conseguia disfarçar sua melancolia e nem olhar nos olhos de outras pessoas. Preferia olhar para o chão ou para as páginas de um livro velho, de um sebo qualquer. Foi mais ou menos assim que, num fim de tarde gelado, sozinho, vendo a cadeira que tinha acabado de quebrar na sala, teve seu primeiro colapso nervoso. Naquele dia, quase colocou tudo a perder, mesmo sendo tão novo. *Crônica publicada dia 7 de abril na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://images.amazon.com/images/P/B000003403.01._SCLZZZZZZZ_.jpg

4 comentários:

Ederson Hising disse...

Como você mesmo me disse dias atrás no trabalho, "a vida é trágica." Bela crônica rapaz!

Fábio Castaldelli disse...

cada vez mais maduro o seu trabalho, meu amigo! não fica devendo nada para os escritos que encontramnos por aí publicados em grandes jornais das capitais do nosso brasilzão. Para mim vc poderia escrever em qualquer lugar que sua literatura seria bem recebida!

pois é! resolvi dar um tempo com o blog. Nada sério, é apenas uma crise de relacionamento entre nós e que em breve deve ser sanada. hehe. O tcc me consome (e cada vez irá consumir mais) o pouco tempo restante, sem contar, que vc sabe como às vezes é desistimulante escrever num blog.

agora mudando de assunto... fiquei emocionado domingão com a virada do alvinegro praiano e não me surpreenderá se levarmos o caneco. Tamo na briga rapaz!

abraço cara!
mantemos o contato!

Lucas Camacho disse...

comecei um blog hoje, li alguma de sues cronicas e gostei muito! parabens pelo trabalho! sempre que puder vou dar uma passadinha aqui!
abraço

Fabio Chiorino disse...

puta crônica. Preciso assinar O Diário do Norte. Deve ser mais gostoso ler direto da fonte
Parabéns. Acertou quem disse aqui que seus escritos amadurecem a cada coluna.