terça-feira, 28 de abril de 2009

A morte não tem graça*

Wilame Prado A última vez que o vi, estava vibrando, numa mesa de bar, com o gol da virada do Santos, no primeiro jogo da semifinal do Campeonato Paulista contra o Palmeiras. Estava contente e rodeado por amigos, como sempre. Simpático e humilde, acho que esse garoto não colecionava inimigos e sim admiradores, assim como eu, que pouco contato tive com ele. Essa imagem projetada em minha mente – a de um rapaz muitíssimo feliz por presenciar a vitória do seu time de coração – é o que vai estar guardado comigo para o resto da vida quando me lembrar do jovem Alexandre Verlingue, 20 anos, conhecido também por Espeto, que morava na pequena cidade de Santa Fé, distante 60 km de Maringá. Sua trágica morte ocorreu na madrugada desta última quinta-feira. Segundo relatos, uma turma de amigos estava nadando no Paranapanema quando, depois de um tempo, deram por falta de Espeto, que estava desmaiado debaixo d´ água. Ninguém sabe ao certo se foi uma parada cardíaca ou uma congestão. Prontamente, levaram o garoto ao hospital, que, depois de ficar em coma, morreu. Nesta minha curta vida, já perdi duas tias, um tio, dois avôs e meu pai, além de alguns amigos queridos. E posso dizer que, sem dúvida, principalmente depois da morte do meu velho (que tinha o mesmo nome que eu), a vida continua sim, porém, meu sorriso nunca foi e nem há de ser igual ao do passado. Vivo e tento sobreviver um dia de cada vez, mas não adianta alguém pedir para eu ser o mesmo de outrora – simplesmente, a vida já não é tão colorida assim. Entretanto, sempre procurei evitar um raciocínio lógico (se é que isto é possível) sobre a morte. Basicamente, pensava apenas que tinha perdido meus entes queridos e que, a partir disso, viver seria um pouco mais difícil. Acho que, em pelo menos dois filmes de Woody Allen, assisti a representação bem-humorada da morte: um ser encapuzado, com sua foice, levando almas penadas, num navio sombrio, para não sei onde. Quem dera, pudesse eu ter essa visão caricaturada deste acontecimento, mas, definitivamente, a morte não tem graça para mim. Não, a vida não é um filme e é muito esquisito pensar que não mais receberei um telefonema do meu velho, ouvindo sua voz (que se parece com a minha), perguntando como está a faculdade, o trabalho ou se estou “traçando” as menininhas por aí. É totalmente insólito pensar que chegarei na casa de minha avó e não mais verei o velho João Azarias, com seu radinho ligado, ouvindo alguma rádio AM, ou então descascando laranjas, com seu canivete, para a turma chupar. Não menos depressivo é imaginar que não vou ouvir a risada gostosa do tio Mário nem vou receber um de seus sábios conselhos, como no dia em que estava desanimado por ter de trabalhar sábado, domingo e feriado e que ouvi dele: “se tá trabalhando, tá bom, uai”. A morte do garoto bom de bola Espeto, três anos mais jovem do que eu, fez-me pensar que a vida é para ser vivida agora, sem muitos planos exageradamente traçados. Afinal, se um garoto como ele, que nunca fez mal a ninguém, jovem, bonito, querido e honesto morreu, amanhã, ou até daqui a dois segundos, poderei ser convidado a me retirar deste corpo em vida e a navegar léguas e mais léguas para a terceira margem do rio, onde, assim como Espeto, comemorarei pela eternidade os gols do glorioso alvinegro praiano. *Crônica publicada, resumidamente, dia 28 de abril na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

6 comentários:

joao carlos disse...

Garanto que sera lembrada por todos amigos e familiares do grande espeto por muito tempo!

parabéns!!

Thiago disse...

Parabéns crônica ótima, esse menino era tudo de bom. E a melhor parte q concordo plenamente com você ele e nós vamos comemorar etérnamente os gols do Grande Alvinegro Praiano!a

Fabio Chiorino disse...

a vida muitas vezes é uma piada sem graça. A homenagem é válida, mesmo que a tristeza não se dilua jamais

Murilo Benites disse...

Realmente. A morte não tem graça nenhuma.
No entanto, a vida segue. Com um brilho a menos no olhar, mas segue.
Força sempre!

Nanda Lima disse...

Olá, Wilame...

adorei o texto.

Comemorar gols pela eternidade é legal, mas acho que não pela eternidade no céu, mas um pouco a cada existência.

Bjs

JOSÉ ROBERTO BALESTRA disse...

Will, quanta sensibilidade no que escreveu aí, meu amigo. Lindo, leve e humanamente profundo. Consegui alcançar seus sentimentos.

Sabe que ainda hoje á tarde, arrumando as coisas em meu escritório (afinal, uma hora a gente tem de arrumar, não?), bateu-me também essa idéia da Partida Definitiva?...

Sinceramente, tal qual você, ultimamente também tenho convivido com grandes perdas (os últimos foram meus queridos amigos Billy & Bob, com quem apareço numa fotografia na home de meu blog), todavia, não porque eu seja espiritualista (...quem sabe até por isso, não sei.), mas apesar dos planos todos de vida que ainda tenho pela frente, se o “boleto do meu vencimento" chegar, não tenho nenhuma dúvida, o encararei com tranqüilidade.

Apenas gostaria (se é que se pode pedir alguma coisa nessas horas...) que o “boleto” não viesse com a aflição de dores físicas. Mas se eu for contrariado até nisso, então não me adiantará nada os esperneios, não acha?

Will, havia muitos anos eu vinha me preparando espiritualmente pras perdas que eu “sabia” estavam próximas (mamãe [78] em 2006, papai [90] em 2007, meu Tio [89] em 2008. Todo dia eu os visitava (moravam perto de minha casa) até três ou mais vezes por dia. Por isso recebi a Partida de cada um deles com serenidade e resignação, e nenhuma lágrima verti nos seus sepultamentos; meu coração estava adrede preparado, creio. É claro que sinto a falta física de cada um deles, mas também percebo que eles todos ainda “estão” comigo...

Olha, é preciso que tenhamos em mente que na vida ora temos, ora somos tidos; seu amigo Espeto, suas tias, seu tio, seus avôs e especialmente seu “velho” Willame, assim como meus pais, meu tio Alcides e até mesmo Billy & Bob, nos foram dados para que os tivéssemos tão-só pelo breve de um tempo.

E agora que não mais estão por aqui, deixemo-los na Caminhada ao lado do Grande Vaqueiro d’Universo. Não devemos chorar-lhes as Partidas, porquanto, assim como quando estavam conosco neste Plano, Lá agora se entristecerão se nos vir chorar...

Pense nisso! ... e boa pra frente, que em breve seus filhos lhe exigirão um sorriso novo, único, só pra eles...

Abraços, e ótima semana pra você e para os seus, sobretudo para a minha novel colega de ofício, Dra. Denise!