terça-feira, 24 de março de 2009

Literatura mágica*

Wilame Prado Os anos passaram rápidos demais. Distraído, quase que ao mesmo tempo em que observava uma folha seca no outono cair da árvore e flutuar, quando fui notar já estava prestando vestibular, entrando numa faculdade, saindo pela porta dos fundos da casa da mãe, mudando de cidade e estreando no mundo rebelde das repúblicas universitárias da zona 07 de Maringá. Acompanhado apenas de um mini-system, de um aparelho de dvd e dos aparatos para se fazer um bom tereré com a erva Campanário, a vida foi passando, aliás, flutuando, assim como aquela folha seca ou então como uma sacolinha plástica de supermercado, com aqueles escritos sempre em vermelho e azul, jogada na rua por alguém sem consciência ambiental, que, provavelmente, acabara de comprar uma lata de coca e um chips Fandangos para fazer aquele almoço rápido e sincero. Entre um cachorro-quente simples e outro no HM, entre uma canção e outra do Raul Seixas no bar Don Juan (que não existe mais), entre uma caminhada e outra da universidade até a Biblioteca Municipal onde estagiava, entre um livro e outro do Gabriel García Márquez (lidos freneticamente por todos os lugares em que a leitura se fazia possível), os anos se passaram de uma maneira estrondosamente ligeira, sem pausa para o segundo tempo, sem pitstop, sem fechamento para balanço. Atualmente, continuo buscando um canudo universitário para poder ficar em cela especial, caso alguém queira me prender por difamação ou desacato. Tirando isso e a preferência pela erva Campanário de tereré, quase tudo se modificou em minha vida, principalmente o modo como os dias, os meses e os anos têm se passado. Lembrei-me disto ao perceber que, incrivelmente, amanhã (18 de março), fará somente um ano que me tornei cronista deste jornal. Durante este tempo, a vida passou com uma calmaria sem tamanho, quase com serenidade, muito bem obrigado, que nem parece ter sido somente um ano e sim uma vida inteira. As semanas, agora, são divididas entre uma crônica e outra, que quase sempre escrevo nas manhãs dominicais, acompanhado de uma caneca de café, ouvindo o silêncio das ruas maringaenses e olhando para o céu mais azul do mundo pela janela de um quarto que chamo de escritório. Tem gente que sonha conquistar o mundo. Eu sempre sonhei em ter um escritório, uma máquina de escrever (computador), muitos romances em uma estante de livros e uma coleção razoável de bons filmes para os momentos em que a preguiça de ler me obrigar apenas a apreciar a sétima arte. É claro que, no meio desse conto de fadas da indústria cultural, vem a vida real, com muito trabalho, estudo, dores de cabeça e contas a pagar espalhadas pela mesa. Porém, caro leitores, o que seria de mim, ou de nós, não fosse a mágica da literatura, o escape do mundo bruto e ensandecido, com pais que engravidam as filhas, com pais que convidam as filhas para dar um passeio suicida de avião, com pais que arremessam as filhas pela janela do apartamento ou com pais que, sob efeito do crack, deixam seus filhos recém-nascidos voltarem para onde nunca deviam ter saído? *Crônica publicada dia 17 de março na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://farm1.static.flickr.com/157/411286893_f53e945cd8_o.jpg

Um comentário:

Fabio Chiorino disse...

ótima crônica. A calmaria é bem-vinda
Ah, e a vida seria bem pior se não existisse Amor nos Tempos do Cólera e Cem Anos de Solidão.