terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

O futuro escorre pela mangueira*

Wilame Prado Dia desses (mentira, pois faz quase um ano), estive em Borrazópolis, cidade interiorana de menos de 10 mil habitantes, que tem calçadão, cachorro-quente e um milhão de ônibus escolares amarelos para levar e trazer a molecada do sítio. O município tem esse nome estranho porque, segundo um borrazopolitano, o fundador e desbravador da floresta fechada da época tinha o sobrenome Borraz. Depois, fazendo aquela pesquisa sem-vergonha no Wikipédia, descobri que o pioneiro se chamava Francisco José Borraz. Mas isso tudo que eu escrevi até agora não importa. Pois bem, vamos ao que realmente importa: depois de realizar meu trabalho, estava indo embora quando, de repente, bem em frente ao calçadão da cidade, meus olhos fotografaram uma cena de quebrar taças, de deixar ovo cair no chão, de fazer querer socar paredes brancas e duras: o desperdício cruel de água. Para melhor limpar sua calçada cheia de folhinhas de árvores, que, em minha opinião e também do saudoso e brilhante professor de História José Henrique Rollo Gonçalves, não são sujeira, a senhora deixava esguichar, a rolé, a tão preciosa água de uma mangueira. Não bastasse o desperdício de água, muito comum na maioria dos lares, a senhora borrazopolitana gastadeira teve o despautério de repassar como herança a falta de conscientização a uma menina, talvez sua filha, talvez sua neta, talvez uma ajudante, que, com outra mangueira, distribuía gotas e mais gotas, infinitas gotas, sobre a calçada, como que se aquele momento fosse o de desafogar o estresse vendo a água, tão clara-transparente, tão cheirosa-cheiro-de-nada, tão saborosa-sabor-matar-a-sede, ir embora por entre os esgotos, misturando-se com a gentalha de bichos asquerosos, com a podridão de coliformes fecais, mijos e merdas. Reconstituam a cena em seus cérebros, caros leitores. Duas mulheres, em plena manhã de sexta-feira, com aquele clima ameno dos meses de maio, nem tão frio, nem tão quente, armadas com a malvada mangueira, tentando empurrar, com a força mínima do jato de água, as pobres folhinhas, condenadas e intituladas injustamente de sujeira. Deu vontade de sair do carro, cortar as duas mangueiras, desligar o registro da água e ainda jogar, como se fosse confete, as pobres folhinhas bem no tapete da sala. A água, limpinha, não merecia esse descaso. E nós, coitado de nós, ficamos com medo de fazer filhos, pois a possibilidade de eles sofrerem com falta de água é muito grande. Confesso eu que tenho medo também de não poder, em minha velhice, ter aquele copo com água para conservar a dentadura, enquanto durmo um sono fabricado com calmantes, sonhando com uma vida mais aquosa, mais líquida, sem sede. *Crônica publicada dia 17 de fevereiro na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná, e postada neste blog, só que um pouco diferente, mais simples, com menos retoques e com alguns erros, no dia 18 de fevereiro de 2008

3 comentários:

Fábio Castaldelli disse...

ótima sacada, ótima crônica.

E não é que dia desses vi a mesma cena aqui com um vizinho. disse pra ele meio q brincando: acho q até vc conseguir tirar essa folha do chão água vai acabar heim... Não deu outra. foi um dia antes de Maringá ficar sem água... hehe. até pareceu praga minha.

abraço cara! ah! tava precisando do velho braga depois marcamos direitinho.

té mais

Isabella Araújo disse...

Muito bem Wilame.
Espero que um dia essas pessoas tenham oportunidade de ler o seu texto, para sentirem vergonha de desperdiçar água.

Fabio Chiorino disse...

cara, aqui em SP isso tb é hábito comum. Eu sempre que vejo uma senhora com cara de vendedora da Yakult lavando a calçada eu solto um "olha o nível", lembrando aquela propaganda que a Sabesp lançou uma época.

ótima crônica. E fique tranquilo. Você tem a escrita, não precisará, na velhice, de calmantes para dormir