quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Maltrapilhos sobre duas rodas*

Wilame Prado Dura mesmo é a vida de motociclista, ou melhor, de motoqueiro, como a sociedade gosta de apelidar o trabalhador que se arrisca diariamente no trânsito maluco de Maringá ou de qualquer outra cidade sobre duas rodas, em busca do ganha-pão dele e de sua família. A palavra motoqueiro soa pejorativa e me faz lembrar outra palavra: “maloqueiro”, que significa, segundo o dicionário Michaelis, “indivíduo maltrapilho ou sem educação”. Cheguei onde justamente queria chegar, nessas duas palavras: "maltrapilho" e "sem educação". Devo dizer que, antes de qualquer tentativa alucinada de associar os significados de maloqueiro com motoqueiro, por também pilotar minha humilde 125 cilindradas todos os dias até o município de Mandaguari, enquadro-me na posição de motociclista, motoqueiro, maloqueiro ou sei lá o quê. Explicarei melhor, antes que os motoboys venham de grupo tirar satisfações comigo, pensando que estou eu, logo eu, desmerecendo a classe. Pois bem. O fato é que considero correto chamar um motoqueiro de maltrapilho (“que, ou aquele que anda mal vestido ou esfarrapado”, segundo o querido Michaelis) porque nunca vi um deles em sua moto, no sol quente do meio dia, de camisa por dentro da calça, passadinha, e ainda com um lindo penteado feito com gel de cabelo. Foi bom falar em cabelo. Tudo bem que é seguro, mas o tal do capacete impede qualquer motoqueiro de chegar em algum lugar com o cabelo, no mínimo, apresentável. É por isso que vivo pedindo para a cabeleleira passar a 3 e me deixar careca. Agora, pense na roupa de um pobre motoqueiro quando está calor. No mínimo, encharcada, pois, não sei se alguém se lembra, mas diferentemente do carro, as motos não têm teto. Justamente pela ausência de teto, o motoqueiro fica sempre naquele impasse: “coloco uma blusa para não torrar o braço e parte do pescoço ou vou de camisa para sentir menos calor?” É duro, não? É que vocês ainda não viram nada. Pior mesmo é no frio, caro leitor que ainda não teve o desprazer de ser um motoqueiro. Para resumir (e até porque o espaço do jornal está acabando e ainda tenho de falar sobre o outro significado da palavra maloqueiro), no frio é preciso vestir duas calças, duas meias, uma camisa, duas blusas, um blusão, uma toca de roubar banco, luvas e, se duvidar, forrar o corpo com plástico ou jornal para tentar cortar o vento gelado. Analise a situação deste ser humano, rodeado por tecidos, ao chegar em algum local e tendo de fazer algo parecido com um strip-tease do terror. Prometi não me alongar, porém, tinha me esquecido do pior momento para os motoqueiros, que é quando chove. Não tem roupa adequada para chuva que agüenta. É molhadeira na certa no local em que o motoqueiro chegar. Depois de tudo isso, ainda tem como dizer que, nós, motoqueiros, não somos uns maltrapilhos? Creio que motoqueiro algum tenha tanta vaidade a ponto de se frustrar ao ser chamado de maltrapilho. Porém, e finalmente parto para o segundo significado da palavra maloqueiro, ser chamado de “sem educação” ofende a classe. Não serei cretino dizendo que não existe motoqueiro doido, sem juízo, que não tem medo de matar ou morrer. Mas, é de se revoltar, por exemplo, o que, também, muitos motoristas de caminhões e de carros fazem com as motocicletas, que são menores e mais frágeis. Chego a conclusão de que para estar no inferno basta estar vivo. Ou seja, em todo lugar, não apenas no trânsito, penso que devam existir pessoas ruins e boas. Fiquemos, então, todos alertas, atravessando a rua, dirigindo moto ou carro importado, tomando um picolé dentro do shopping, caminhando no Parque do Ingá ou até mesmo rezando num banco de uma igreja qualquer. Os "sem educação" estão em toda a parte e podem arruinar sua vida.
*Crônica publicada resumidamente dia 10 de fevereiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: arquivo pessoal

2 comentários:

Fabio Chiorino disse...

eu jamais conseguiria fazer da moto o meu meio de locomoção. Fico sempre com a impressão que qualquer movimento ou resvalo me levaria ao chão. Talvez seja falta de habilidade minha, mas talvez também seja a estatística de SP que sinaliza um motoqueiro morto por dia no trânsito. Há de se ter coragem.

Espora de Galo disse...

Que isso cara, o Radiohead é bacana. Mentira, eu não gosto. Mas o blog lá eu já conheço, é bom mesmo, tem muita coisa legal. E essa crônica aí sobre motoqueiros marcou minha semana! Abraço!