sábado, 17 de janeiro de 2009

Às 2h56, um mar de abstração *

Wilame Prado Estou dentro do mar. Olho para a areia da praia e vejo aquela multidão de pessoas mostrando as imperfeições do corpo e um consumismo, como sempre atuante, por meio da relação de troca entre dinheiro e sorvete, milho-verde, queijo assado e, claro, cerveja. Tento entender, em vão, o processo que levou tantas pessoas a se reunirem num mesmo lugar. Por não haver banheiros na praia, acho que muitos devem descarregar seus líquidos no mar, estreitando a relação entre os banhistas - inúmeros estranhos em perfeita comunhão dentro daquela piscina gigantesca. Procuro esquecer a urina alheia e olho para o horizonte distante, que no mar fica mais perto do que nunca, e avisto a famosa Ilhabela. Mas, para meu desconforto, muito próximo de nós – fraternos banhistas – uma lancha leva uma boia gigante, em formato de banana, onde algumas pessoas trajadas de colete laranja estão trepadas. Com medo de atropelamento aquático, todo mundo tem de ficar de costas para a areia, os biquínis e os guardassois com patrocínios de bebidas, olhos grudados nas manobras radicais do piloto da lancha. Este infortúnio marítimo me rouba as sensações causadas pela reflexão, que, outrora, me fizera praticamente flutuar em águas de pensamentos distantes. Neste mar de abstração, imaginara Pedro Álvares Cabral chegando a um litoral habitado por índios e achando sensacional a mistura entre clima tropical e águas cristalinas, e confabulara o caos que seria, caso, algum dia, um louco governante resolvesse privatizar as praias brasileiras, proporcionando fortuna aos empresários que adquirissem um pedaço de areia e mar. Seriam diversos parques aquáticos naturais privados. Cobrariam passagem com a desculpa de manter a praia limpa ("é proibido urinar no mar" diria uma placa) e segura (guardas de trânsito aquáticos ficariam espalhados pelo mar), assim como fazem em nossos asfaltos. Saio do mar fugido da lancha e dos pensamentos apocalípticos e vou direto para a casa da praia. Faltando quatro minutos para as três, assim como os queridos parentes e amigos, devoro churrasco com a fome e o desejo de gaúchos. A noite entra em cena no espetáculo do céu e só assim percebo que, pela primeira vez na vida, estou almoçando no horário do jantar. Passam-se algumas horas, percebidas pelo saco de lixo cheio de latinhas de cerveja, e não pelo relógio da cozinha, que insiste em nos dar a mesma hora – sempre 2h56. Um leve vento frio arrepiador de braço anuncia a madrugada. E, já que o tempo parou na praia, alguém sugere que é hora de comer bolo de fubá e tomar aquele cafezinho preto. Depois de alguns ovos quebrados no chão e de muito amido de milho para substituir a falta de farinha de trigo, as boleiras anunciam o horário em que o café da "tarde-madrugada" vai estar pronto: "quatro pras três". *Crônica publicada dia 13 de janeiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://sulanorte.blogs.sapo.pt/arquivo/AbstratoAzul.jpg

Um comentário:

Fabio Chiorino disse...

belo texto. Há algo na multidão quase impossível de se entender. Algo de masoquista, pois nunca reunir tanta gente num pequeno espaço se parece com uma boa ideia para a humanidade.