segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

O futuro já começou*

Antônio Roberto de Paula** Depois dos beijos e abraços, do tilintar das taças e dos copos brindando no Ano-Novo, das bebidas destiladas amargas e adocicadas, das fermentadas, das sem álcool, começa tudo de novo. Depois dos cumprimentos, das lágrimas de variados sentimentos, dos votos de saúde, paz e dinheiro no bolso, das mesas com comidas diversas, dos fogos de artifício, das garrafas quebradas no asfalto, dos ossos partidos no trânsito, das dores localizadas que podem se tornar eternas, começa tudo de novo. Depois das alegrias comportadas, incontidas, das folgas prolongadas, dos passeios sem horário de volta, das madrugadas em claro, das manhãs preguiçosas, começa tudo de novo. Vem 2009, nossas histórias vão continuar a ser contadas. Até que vem outro dezembro e reaparece a paisagem feita de luz, fé e esperança. Depois dos textos, reportagens, canções, cartões natalinos e de virada de ano. Depois das luzes nas fachadas, dos presentes, das viagens e dos encontros. Depois que o espírito cristão invadiu os corações, foi embora, mas tem retorno previsto, começa tudo de novo. Impossível pôr abaixo a cronologia das sensações que nos obriga a ser felizes em dezembro com alto teor de esperança em janeiro. A gente segue a corrente, sendo empurrado ou de braços dados com a mídia, a religião e o comércio. Ou isto tudo nada mais é do que um grande mercado. E a gente embarca na propaganda. O criativo Wilame Prado, que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente; apenas pelos seus escritos neste caderno de O Diário, pelo seu blog e por alguns e-mails trocados, pôs a faca entre os dentes na última terça-feira de 2008. Na sua providencial intrepidez, no compreensível e necessário incômodo diante da mesmice reinante nos séculos e séculos cada vez que um ano termina e outro começa, desancou a melosa e torturante canção: “Hoje, é um novo dia, de um novo tempo que começou. Nesses novos dias, as alegrias serão de todos...” Wilame reagiu diante da antiga vinheta global, que nos coloca no mesmo patamar de felicidade, como se a distribuição das alegrias fosse farta e equânime a cada mudança de folhinha. Ele fechou sua crônica e seu 2008 olhando com escárnio para as falácias que surgem nesta época, abrindo outras portas bem mais interessantes. Depois das festas e do sossego no sofá, começa tudo de novo. Mas um trecho daquela musiquinha tem uma verdade absoluta, que rompe calendários: “O futuro já começou.” Antes de dezembro, depois de janeiro ou em qualquer data. O futuro está na hora que a gente decidir. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná no dia 4 de janeiro **Antônio Roberto de Paula escreve crônicas aos domingos para O Diário, é jornalista, poeta e membro da Academia Maringaense de Letras; faço esta publicação como forma de agradecimento pela honra de ter citado meu nome em sua crônica dominical

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