quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida*

Wilame Prado
Foi numa sexta-feira. Não tinha ido trabalhar naquele dia, por isso estava exercendo o ócio no quintal de casa. A sombra era amena e o sol enamorando as nuvens possibilitava uma iluminação tenra no espaço da minha visão. A cadeira de área verde, que passara por duas gerações da família, agora fazia com que as minhas nádegas ficassem extremamente confortáveis. Falando em conforto, a minha mente estava na mesma situação, afinal de contas, a leitura estava aprazível e as vacas magras daquele mês tinham comido muita ração e estavam saciadas. Por um vício de olhar, direcionei a visão para o céu e me deparei com uma senhora, que mais tarde vim a descobrir que se chamava Charlene Flanders, decolando de maneira sublime com o seu guarda-chuva roxo aberto. Em um momento de empolgação e curiosidade, corri atrás dela, como se estivesse correndo atrás da pipa que bóia no ar e que atrai a todos os moleques do bairro, que seguem a lei da rua, a qual legitima como dono quem primeiro tocar nela e disser: “tá na mão”. Diferentemente dos moleques, eu não toquei na senhora, mas corri alguns infinitos metros, que não acabavam nunca, até chegar à outra rua, quando vi os sapatinhos encostarem-se ao chão e andarem em direção à avenida, normalmente, como se nada tivesse acontecido. Não resisti e tive que abordá-la e perguntar como fazia para voar no guarda-chuva, coisa que só se vê em filmes ou se lê em livros. A conversa foi difícil, pois ela fingiu não saber do que eu estava falando, sugerindo ainda que eu procurasse um psiquiatra. Ameaçou chamar a polícia se eu continuasse a persegui-la. Não acreditei que eu já estava louco, então a convidei para tomar um café expresso com um delicioso pão de queijo na cafeteria, logo ali na avenida. Na verdade, isso foi uma tática, pois quem é que resiste a um café, numa sexta-feira afável como aquela? Ainda mais sendo uma pessoa tão elegante e de modos europeizados, como os daquela senhora. A conversa se prolongou do café para minha casa, da minha casa para a dela, da casa dela para um banco da praça, do banco para outra cafeteria, dessa outra para uma viagem que fizemos a Buenos Aires. Ficamos sem voz de tanto conversar. E essa conversa inicial durou exatamente quatro meses, duas semanas, quatorze horas e trinta e dois minutos, quando ela me informou que estava cansada e enjoada de conversar comigo e que por isso partiria naquela noite, do mesmo modo em que eu a vi pela primeira vez, voando em seu guarda-chuva roxo. Devo explicar que a senhora Charlene Flanders não tem nada de senhora e sim de senhorita, pois não é casada. E quando ela solta os cabelos e coloca um belo vestido com suas jóias de ouro, torna-se a mulher mais adorável e linda desse mundo. Eu me apaixonei e larguei tudo para acompanhá-la. Depois de conhecer o que é o amor com a senhorita Charlene Flanders, sei que a brisa da manhã me faz sentir um frio gostoso por entender que frio maior é aquele que sentimos quando não temos ninguém para nos aquecer. É a pessoa que eu sempre sonhei em ter como parceira para a vida – ela conhece uma essência, vista só em pequenos gestos, que a própria vida nos demonstra muito sutilmente a ponto de você levar uma vida inteira para achar e por isso ter de ser diferente da massa e ainda ser considerado chato, louco e estranho. E esses adjetivos impostos eram comuns entre Charlene e eu. Mas agora ela quer ir embora e eu não sei para onde ir. Eu queria ter um guarda-chuva roxo igual ao dela, mas não encontro para vender em nenhuma loja. Além do que, Charlene Flanders já me disse que falta muita vida e muita estrada a ser seguida para um dia eu encontrar o meu guarda-chuva, que não precisa ser roxo e nem precisa ser guarda-chuva, apenas precisa me levar para o caminho certo. O mesmo caminho que ela vem procurando sua vida inteira e que agora deve voltar a perseguir. As desculpas foram muitas, ao me abandonar. A senhorita Charlene Flanders disse que se enganara achando que tinha encontrado o caminho certo, descansando de seus vôos em meus braços quentes e confortáveis. Percebeu que a estrada nunca acaba e que fora um erro deixar-se levar pelo sentimento e não pela razão. Eu, como sou acostumado às sombras e à solidão, tentei entendê-la e não a culpei por nada. Quem correu atrás da pipa tinha sido eu. Após poucas lágrimas dela e nenhuma minha, Charlene Flanders se foi. Para sempre! Logo depois da partida, aí sim, chorei. E o choro durou alguns anos, aliás, hoje ainda choro de vez em quando. Mas, não é só pela querida Charlene Flanders, não é só pela solidão e o frio que atinge até a minha espinha quando lembro que ninguém me ama. É porque tenho medo de nunca encontrar um guarda-chuva. Tenho medo de, na verdade, ser o mais do mesmo, ser a representação do igual e nunca ter descoberto a essência. Eu sei que o caminho é árduo e para isso temos de nos abstrair praticamente da vida vivida. Mas, depois que se opta em caminhar, sair do trajeto não vale a pena. Desistir é pior. Por isso, decidi seguir a minha estrela até encontrar a senhorita Charlene Flanders para que termine de me ensinar a sentir a sutileza da vida. Comprei um carro bom e tenho bastante dinheiro, agora que vendi minha casa. Estou viajando e seguindo a estrada por onde ela vai. Por favor, quem vir a senhorita Charlene Flanders voando com o seu guarda-chuva roxo, me avisem. Eu preciso conversar, e, quem sabe, até tomar mais uma xícara de café com ela. *Conto segundo colocado no IV Concurso Nacional de Contos de Cordeiro-RJ - Troféu Machado de Assis
Crédito da imagem: http://i2.photobucket.com/albums/y40/menina-nuvem/ceu_1024x768.jpg

7 comentários:

Danielle Corrêa disse...

Queria saber se o prêmio do primeiro lugar foi um guarda-chuva roxo.

belino disse...

caramba!

to meio sem palavras.

que texto bonito. bonito não, vivo. mais que isso: intenso.

belos detalhes. bom achar esse espaço.

abs e parabéns
ps.: sorte na busca do caminho e, quando a saudade apertar, olhe para o céu! =)

Renata Mastromauro disse...

O meu favorito!!!
Saudades, amigo!
Beijos

Marta Bellini disse...

Lindo conto. Bacana mesmo!
Grata pela informação sobre a Revista Piaui. Vou procura-la.

abraços

Marta Bellini

Fabio Chiorino disse...

excelente. Não à toa levou a segunda colocação. Charlene Flanders é a Marry Poppins de Maringá

Leticia disse...

Nossa que conto lindo!!! Parabéns pelas palavras bem colocadas e cheias de significados. Que Deus abençoe esse seu dom =D

Tatha Fernandes disse...

Incrível como as palavras podem fazer tanto significado para pessoas incomuns.