quinta-feira, 29 de janeiro de 2009

Na colação de grau, emoções*

Wilame Prado Neste último sábado, assisti, pela primeira vez, a uma cerimônia de colação de grau. Presenciei um grande amigo recebendo o aclamado canudo e oficializando de vez sua posição como biólogo. Minha mulher, ao meu lado, na arquibancada da arena coberta do Parque de Exposições Francisco Feio Ribeiro, avistou meus olhos marejados e perguntou se estavam ardendo. Desconversei, pois não queria admitir que, na verdade, estava à flor da pele, cheio de emoção, fazendo força com todos os músculos da cara, inclusive com os dentes, para que as lágrimas não escorressem pelas minhas bochechas. Provavelmente, a emoção dos inúmeros estudantes que estavam se formando foi maior do que a minha naquele momento. Constatei isso depois, conversando com meu amigo formado e descobrindo que, tirando a sensação de dever cumprido e glória por ter finalizado o ensino superior, o fato de saber que muitos colegas de sala não mais farão parte de sua rotina diária e que alguns, inclusive, nunca mais nem serão vistos, é suficiente para se emocionar e refletir sobre os caminhos que a vida oferece. Acho que é mais ou menos isso que os formandos sentem quando finalizam seus longínquos cursos acadêmicos. Junto a essa saudade instantânea dos tempos da faculdade, que já começa quando o baile de formatura termina, para a maioria, o diploma em mãos é sinônimo de desespero e medo deste mercado de trabalho inchado, desleal e cheio de concorrência – quase sempre não praticada pela meritocracia e sim pelo famoso Q.I (Quem Indica). Ao meu redor, muitos passaram ou ainda estão passando por este momento difícil, inclusive meu amigo biólogo (quem souber de algo, ajude o rapaz; ele é um bom menino). Minha hora ainda não chegou, mesmo estando no meio acadêmico há praticamente seis anos. , antes que os leitores pensem que eu reprovei na faculdade, tenho a honra de, nesta humilde crônica, apresentar meu Currículo Acadêmico. Quando estava cursando o chamado “Terceirão” do ensino médio, recebi a notícia de que tinha passado no vestibular e que teria acesso livre ao maravilhoso curso de História da Universidade Estadual de Maringá. Só tinha um problema: quando fiz a prova, meu objetivo era treinar e conhecer o “bicho-papão” que é o vestibular e não adquirir uma licença para lecionar ou pesquisar os fatos históricos deste mundo. Minha mãe não admitia a idéia de eu, sem dinheiro e sem padrinhos, desperdiçar um curso bom e gratuito. Entrei na UEM sabendo que ainda faria o sonhado Jornalismo. Ao completar os dois primeiros anos do curso, descobri que o nosso presidente Lula e seus companheiros estavam oferecendo uma chance às pessoas de renda baixa, assim como eu, de ingressar nas faculdades privadas deste País por meio do Programa Universidade para Todos (ProUni). Hoje, estou no último ano de Jornalismo, no Centro Universitário de Maringá (Cesumar), e nunca precisei pagar um tostão por isso, a não ser em impostos, é claro. Pronto: acabo de responder por que estou há quase seis anos no meio acadêmico. Lembro-me da felicidade que senti em dizer ao meu pai que havia conquistado uma bolsa integral na faculdade para fazer o que sempre sonhei. E foi por isso que as lágrimas queriam porque queriam cair dos meus olhos teimosamente naquela colação de grau. Infelizmente, daqui a um ano mais ou menos, quando chegar a minha vez de receber o canudo, meu velho, que sempre acreditou em meu potencial, não vai participar da solenidade. Espero que, de lá de cima, pelo menos, esteja vendo e contando, cheio de orgulho, aos seus amigos que seu filho finalmente está se formando. Leganda da foto: Murilo Citelli Dutra, 23, biólogo *Crônica publicada, resumidamente, dia 27 de janeiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: Arquivo pessoal de Murilo Citelli Dutra

quarta-feira, 21 de janeiro de 2009

Jogador solito*

Wilame Prado Da janela do quinto andar vejo o menino batendo bola – a parede e ele. Colorida, vermelha, amarela e azul, a bola é daquelas de jogar vôlei – leve. Com chinelo de dedo, bermuda e camiseta regata, o menino se diverte no verão. Por um instante, penso que está sozinho, mas logo seu amigo, companheiro de bola, aparece para participar do jogo. Os dois brincam com a bola - os dois e a parede. Essa imagem me fez lembrar da época de menino e do quanto gostava de bater bola. Eu, as paredes e o portão de casa. Mas, diferentemente dos garotos que brincam juntos num condomínio de prédios qualquer de Maringá, eu não tinha amigos para bater bola. Mas tinha o uniforme completo do Santos Futebol Clube; tinha chuteira, mesmo que não jogasse no campo; tinha caneleira, mesmo que ninguém fosse acertar minha canela; e tinha a imaginação. Fazia tabelinha com as paredes e, egoísmo a parte, o autor do gol sempre era eu. Passava tardes a fio naquela atividade solitária. Imaginava-me como o, então craque do Santos, Giovanni, que usava tinta vermelha no cabelo. Simulava, inclusive, o extra-campo, quando atletas ficam na concentração ou se divertindo. Nas badaladas festas dos boleiros, meu uísque era um copo de guaraná. Adorava quando, em casa, éramos apenas eu, as paredes (jogadores do mesmo time), o portão (as traves do gol) e minha mãe, costurando freneticamente no quartinho ao lado. Quando tinha visita em casa, ou até mesmo pai ou irmã, não me sentia a vontade para bater bola sozinho – ficava acanhado. Muitos achavam que eu era louco, ou que precisava urgentemente de amigos. Meu pai, então, colocou-me em uma escolinha de futebol. Mas não era a mesma coisa. Não conseguia ser goleador e, ao contrário das paredes, os outros meninos não tocavam a bola para mim toda hora. Fui um mero jogador mediano, daqueles que só entram em jogo no segundo tempo. Ainda assim, desconfio de que houve verba disponibilizada por meu pai para que o técnico me colocasse na partida. Anos se passaram e só agora entendo quando as pessoas citam a solidão das capitais. Rodeado de milhões de pessoas na grande São Paulo, meus melhores amigos ainda assim continuavam sendo paredes e portão. Não apenas amigos, mas barreiras que, teoricamente, protegiam-me da violência e dos maus caminhos da rua. Não reclamo dos tempos de jogador solito. Foi bom para pensar, imaginar e dar valor aos verdadeiros, mas poucos, amigos – os únicos que não riem da minha cara quando confesso que, em meio a um jogo ilusório, acompanhado de ninguém a não ser paredes e portão, cheguei a me jogar no chão de casa para tentar cavar um pênalti, fazer um golaço e ajudar o glorioso alvinegro praiano a conquistar mais uma vitória suada no campeonato da solidão. *Crônica publicada dia 20 de janeiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.minhascamisas.com.br/wordpress/wp-content/uploads/2007/08/santos_1.jpg

sábado, 17 de janeiro de 2009

Ex-feliz*

Wilame Prado Mesmo com as flores do caminho que me ensinaste a ver Não creio que a vida possa ser um mar de rosas Eu me emocionei com comerciais de bancos na tevê Eu juro que chorei ao ver a criança beijar a mãe Eu acreditei que tudo iria dar certo nesse karma Porém, esqueci completamente que sou campeão em derrotas Eles dizem que devemos olhar para frente, sem desanimar O que ninguém consegue entender é quando há gana em fracassar Ela me fez descobrir o que é ser feliz! Mas o que adianta, se agora acabou? Só me resta escrever, ler, beber e amar Amar sem pensar no amanhã Amar sem medida Amar pelo simples fato de amar Façam como eu: acostumem-se com o fracasso e a derrota Agradeçam pelo mínimo que te foi destinado Não pense que chorar é ruim; purifica a alma Se desprenda das coisas materiais, afinal, traz felicidade Aqui jaz a felicidade de um homem apaixonado Fico na memória póstuma de todos que amaram utopicamente, como eu Agonizei, humilhei, sucumbi Eu e minha solidão Por favor, deixem-me sozinho *Escrito em 25/04/2005

Conto e link para este blog no Portal Literal

Antigamente, acessava o Portal Literal (www.portalliteral.com.br) para participar dos concursos de contos mensais organizados pelo site, na esperança de ganhar o primeiro lugar e, assim, esbaldar-me com o vale-compra de R$ 100 na Livraria Cultura. Nunca ganhei. Conclusão: parei de acessar o site. Dia desses, no Haja Saco, vi o link do portal e resolvi entrar novamente, só para (como diz meu amigo Brunão) descontrair o ambiente. Eis que me deparo com um portal totalmente reformulado, organizado e com muito mais interação do público leitor. Não achei concurso algum de conto. Mas, agora qualquer um pode tentar publicar no site e, caso haja votação suficiente (20 votos), seu escrito fica na página principal do Portal Literal por algum tempo. Hoje, o conto da Charlene e um link para o blog A Poltrona estão aparecendo na página de abre do site. Confira aqui.

Às 2h56, um mar de abstração *

Wilame Prado Estou dentro do mar. Olho para a areia da praia e vejo aquela multidão de pessoas mostrando as imperfeições do corpo e um consumismo, como sempre atuante, por meio da relação de troca entre dinheiro e sorvete, milho-verde, queijo assado e, claro, cerveja. Tento entender, em vão, o processo que levou tantas pessoas a se reunirem num mesmo lugar. Por não haver banheiros na praia, acho que muitos devem descarregar seus líquidos no mar, estreitando a relação entre os banhistas - inúmeros estranhos em perfeita comunhão dentro daquela piscina gigantesca. Procuro esquecer a urina alheia e olho para o horizonte distante, que no mar fica mais perto do que nunca, e avisto a famosa Ilhabela. Mas, para meu desconforto, muito próximo de nós – fraternos banhistas – uma lancha leva uma boia gigante, em formato de banana, onde algumas pessoas trajadas de colete laranja estão trepadas. Com medo de atropelamento aquático, todo mundo tem de ficar de costas para a areia, os biquínis e os guardassois com patrocínios de bebidas, olhos grudados nas manobras radicais do piloto da lancha. Este infortúnio marítimo me rouba as sensações causadas pela reflexão, que, outrora, me fizera praticamente flutuar em águas de pensamentos distantes. Neste mar de abstração, imaginara Pedro Álvares Cabral chegando a um litoral habitado por índios e achando sensacional a mistura entre clima tropical e águas cristalinas, e confabulara o caos que seria, caso, algum dia, um louco governante resolvesse privatizar as praias brasileiras, proporcionando fortuna aos empresários que adquirissem um pedaço de areia e mar. Seriam diversos parques aquáticos naturais privados. Cobrariam passagem com a desculpa de manter a praia limpa ("é proibido urinar no mar" diria uma placa) e segura (guardas de trânsito aquáticos ficariam espalhados pelo mar), assim como fazem em nossos asfaltos. Saio do mar fugido da lancha e dos pensamentos apocalípticos e vou direto para a casa da praia. Faltando quatro minutos para as três, assim como os queridos parentes e amigos, devoro churrasco com a fome e o desejo de gaúchos. A noite entra em cena no espetáculo do céu e só assim percebo que, pela primeira vez na vida, estou almoçando no horário do jantar. Passam-se algumas horas, percebidas pelo saco de lixo cheio de latinhas de cerveja, e não pelo relógio da cozinha, que insiste em nos dar a mesma hora – sempre 2h56. Um leve vento frio arrepiador de braço anuncia a madrugada. E, já que o tempo parou na praia, alguém sugere que é hora de comer bolo de fubá e tomar aquele cafezinho preto. Depois de alguns ovos quebrados no chão e de muito amido de milho para substituir a falta de farinha de trigo, as boleiras anunciam o horário em que o café da "tarde-madrugada" vai estar pronto: "quatro pras três". *Crônica publicada dia 13 de janeiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://sulanorte.blogs.sapo.pt/arquivo/AbstratoAzul.jpg

quinta-feira, 8 de janeiro de 2009

Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida*

Wilame Prado
Foi numa sexta-feira. Não tinha ido trabalhar naquele dia, por isso estava exercendo o ócio no quintal de casa. A sombra era amena e o sol enamorando as nuvens possibilitava uma iluminação tenra no espaço da minha visão. A cadeira de área verde, que passara por duas gerações da família, agora fazia com que as minhas nádegas ficassem extremamente confortáveis. Falando em conforto, a minha mente estava na mesma situação, afinal de contas, a leitura estava aprazível e as vacas magras daquele mês tinham comido muita ração e estavam saciadas. Por um vício de olhar, direcionei a visão para o céu e me deparei com uma senhora, que mais tarde vim a descobrir que se chamava Charlene Flanders, decolando de maneira sublime com o seu guarda-chuva roxo aberto. Em um momento de empolgação e curiosidade, corri atrás dela, como se estivesse correndo atrás da pipa que bóia no ar e que atrai a todos os moleques do bairro, que seguem a lei da rua, a qual legitima como dono quem primeiro tocar nela e disser: “tá na mão”. Diferentemente dos moleques, eu não toquei na senhora, mas corri alguns infinitos metros, que não acabavam nunca, até chegar à outra rua, quando vi os sapatinhos encostarem-se ao chão e andarem em direção à avenida, normalmente, como se nada tivesse acontecido. Não resisti e tive que abordá-la e perguntar como fazia para voar no guarda-chuva, coisa que só se vê em filmes ou se lê em livros. A conversa foi difícil, pois ela fingiu não saber do que eu estava falando, sugerindo ainda que eu procurasse um psiquiatra. Ameaçou chamar a polícia se eu continuasse a persegui-la. Não acreditei que eu já estava louco, então a convidei para tomar um café expresso com um delicioso pão de queijo na cafeteria, logo ali na avenida. Na verdade, isso foi uma tática, pois quem é que resiste a um café, numa sexta-feira afável como aquela? Ainda mais sendo uma pessoa tão elegante e de modos europeizados, como os daquela senhora. A conversa se prolongou do café para minha casa, da minha casa para a dela, da casa dela para um banco da praça, do banco para outra cafeteria, dessa outra para uma viagem que fizemos a Buenos Aires. Ficamos sem voz de tanto conversar. E essa conversa inicial durou exatamente quatro meses, duas semanas, quatorze horas e trinta e dois minutos, quando ela me informou que estava cansada e enjoada de conversar comigo e que por isso partiria naquela noite, do mesmo modo em que eu a vi pela primeira vez, voando em seu guarda-chuva roxo. Devo explicar que a senhora Charlene Flanders não tem nada de senhora e sim de senhorita, pois não é casada. E quando ela solta os cabelos e coloca um belo vestido com suas jóias de ouro, torna-se a mulher mais adorável e linda desse mundo. Eu me apaixonei e larguei tudo para acompanhá-la. Depois de conhecer o que é o amor com a senhorita Charlene Flanders, sei que a brisa da manhã me faz sentir um frio gostoso por entender que frio maior é aquele que sentimos quando não temos ninguém para nos aquecer. É a pessoa que eu sempre sonhei em ter como parceira para a vida – ela conhece uma essência, vista só em pequenos gestos, que a própria vida nos demonstra muito sutilmente a ponto de você levar uma vida inteira para achar e por isso ter de ser diferente da massa e ainda ser considerado chato, louco e estranho. E esses adjetivos impostos eram comuns entre Charlene e eu. Mas agora ela quer ir embora e eu não sei para onde ir. Eu queria ter um guarda-chuva roxo igual ao dela, mas não encontro para vender em nenhuma loja. Além do que, Charlene Flanders já me disse que falta muita vida e muita estrada a ser seguida para um dia eu encontrar o meu guarda-chuva, que não precisa ser roxo e nem precisa ser guarda-chuva, apenas precisa me levar para o caminho certo. O mesmo caminho que ela vem procurando sua vida inteira e que agora deve voltar a perseguir. As desculpas foram muitas, ao me abandonar. A senhorita Charlene Flanders disse que se enganara achando que tinha encontrado o caminho certo, descansando de seus vôos em meus braços quentes e confortáveis. Percebeu que a estrada nunca acaba e que fora um erro deixar-se levar pelo sentimento e não pela razão. Eu, como sou acostumado às sombras e à solidão, tentei entendê-la e não a culpei por nada. Quem correu atrás da pipa tinha sido eu. Após poucas lágrimas dela e nenhuma minha, Charlene Flanders se foi. Para sempre! Logo depois da partida, aí sim, chorei. E o choro durou alguns anos, aliás, hoje ainda choro de vez em quando. Mas, não é só pela querida Charlene Flanders, não é só pela solidão e o frio que atinge até a minha espinha quando lembro que ninguém me ama. É porque tenho medo de nunca encontrar um guarda-chuva. Tenho medo de, na verdade, ser o mais do mesmo, ser a representação do igual e nunca ter descoberto a essência. Eu sei que o caminho é árduo e para isso temos de nos abstrair praticamente da vida vivida. Mas, depois que se opta em caminhar, sair do trajeto não vale a pena. Desistir é pior. Por isso, decidi seguir a minha estrela até encontrar a senhorita Charlene Flanders para que termine de me ensinar a sentir a sutileza da vida. Comprei um carro bom e tenho bastante dinheiro, agora que vendi minha casa. Estou viajando e seguindo a estrada por onde ela vai. Por favor, quem vir a senhorita Charlene Flanders voando com o seu guarda-chuva roxo, me avisem. Eu preciso conversar, e, quem sabe, até tomar mais uma xícara de café com ela. *Conto segundo colocado no IV Concurso Nacional de Contos de Cordeiro-RJ - Troféu Machado de Assis
Crédito da imagem: http://i2.photobucket.com/albums/y40/menina-nuvem/ceu_1024x768.jpg

quarta-feira, 7 de janeiro de 2009

Virada boa*

Wilame Prado Para mim, as viradas de ano, com raras exceções, quase sempre foram dotadas de significados rasos, tentativas fracassadas de emoção, irritações por causa do banho levado de espumantes baratos e pela impaciência com o desnecessário estourar de fogos. Por isso, nesta virada, resolvi fazer diferente: tentei pelo menos simular que tinha entrado no espírito de otimismo e renovação tão comum em final de dezembro e início de janeiro. O jeito, então, foi ir à distante praia de Massaguaçu, em Caraguatatuba, no litoral norte paulista, onde eu e minha mulher conseguimos um lugar para ficar, junto de alguns parentes e amigos desses meus parentes (mais tarde viraram nossos amigos também) – os donos da casa. Mas, antes disso, entre o Natal e o Ano Novo, passamos uns dias aprazíveis com o meu “amigo-irmão”, Vinicius Lino, e sua namorada na grande São Paulo, inaugurando com chave-de-ouro a nossa programação veraneia. Chegara a hora de descer a serra e finalmente queimar a carcaça no sol escaldante refletido nas areias claras da praia. Na ida, em meio ao trânsito caótico, quis refletir sobre a peça que estava pregando em mim mesmo, tentando me enganar que a virada e os dias que a antecedem e a sucedem são dotados de uma energia positiva e renovadora. Mas, de repente, no meio do diálogo filosofal, no rádio começou a tocar uma canção gostosa, sem malícias e nostálgica, que dizia simplesmente que a vida era boa e que o sapo caíra na lagoa, em meio ao caminho de uma pessoa para o sertão. Não sou admirador do chamado sertanejo universitário que muita gente vem fazendo pelo Brasil afora, mas, depois de ouvir a música “Vida Boa”, passei a respeitar bem mais a dupla Victor & Léo. Então, esqueci de vez o papo que batia comigo mesmo sobre a simbologia dessas datas e refleti, olhando nos olhos e no sorriso maroto da Laís, minha sobrinha e tesouro, que realmente a vida era boa e que poderia ter uma virada das melhores, sem simulações ou mentiras internas. Afinal, o único sentido para toda a magia do fim de ano se resume simplesmente ao fato de que estar ao lado de pessoas queridas e especiais já é o bastante para acreditar que o recém-nascido 2009 pode ser ainda melhor do que o 2008 velho de guerra. Semana que vem, prometo aos leitores que darei mais detalhes sobre uma praia fantasiosa, em que barcos e bananas flutuantes dividem espaço com pedestres aquáticos, e sobre um relógio que se aposentou faltando quatro minutos para as três, assassinando assim a rotina e fazendo com que as pessoas da casa almoçassem de noite e preparassem bolo de fubá e café preto de madrugada. *Crônica publicada dia 6 de janeiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.nuaideia.com/images2/onda-dourada-(1).jpg

terça-feira, 6 de janeiro de 2009

Descoberta do ano*

Wilame Prado Um amigo me liga para combinar algo. Digo a ele que tudo bem, mas, antes de qualquer compromisso, obrigo-me a dizer a boa nova, a revelação, a descoberta do ano. Conto a ele que, finalmente, descobri o valor de um meio de comunicação chamado televisão. É isso mesmo, caros leitores. Eu, que já critiquei nem uma, nem duas, mas várias vezes determinados programas televisivos, finalmente descobri bons canais e excelentes programas na tevê. No canal Futura, por exemplo, assisti a uma reportagem sobre Chico Mendes (grande defensor e representante dos humildes seringueiros), que morreu há 20 anos assassinado em sua própria casa, no município de Xapuri. Esse homem já deu muito trabalho aos grandes fazendeiros gananciosos do Acre. Na reportagem, o grande escritor Zuenir Ventura diz que Mendes foi um herói, pois, com sua morte, grande parte do que idealizava e queria para o Acre está acontecendo atualmente. Além do canal Futura, virei fã de carteirinha dos canais TV Brasil, TV Senado, NBR – a TV do Governo Federal e, obviamente, do canal Cultura, conhecido meu desde quando era criança, época em que assistia ao programa infantil “Rá-tim-bum”. Navegando com o controle em mãos por esses canais, assisti a um programa de entrevistas com especialistas em direitos humanos e segurança pública, conheci um pouco da história de cada um dos integrantes da Sinfônica de Heliopólis (uma das maiores favelas do mundo, localizada em São Paulo) e muito mais. Adquirir conhecimento por meio da tevê é fácil, pois a informação vem pronta, restando ao receptor filtrar, apurar e tirar suas conclusões. Além do que, é bom ficar antenado na televisão quando a programação não está recheada de entretenimento barato e mal feito e de novelas e jornais tendenciosos, que gritam para os telespectadores: "estou te manipulando, trouxa". Foi uma pena ter descoberto essa jóia rara em meio ao mar de merda que é a grade de programação dos principais canais da tevê aberta deste País - os únicos disponíveis no apartamento onde moro. Leitores mais informados irão me dizer que tudo o que eu vi naqueles canais sintonizados graças à parabólica da minha mãe é pouco se comparado aos zilhões de canais da tevê a cabo. Mas isso é para uma outra descoberta, para uma outra crônica, para um próximo ano. Talvez para 2009, quem sabe, quando tentarei assinar um pacote de canais. Pois, ficar ouvindo que "hoje, é um novo dia, de um novo tempo, que começou; nesses novos dias, as alegrias serão de todos, é só querer; todos os nossos sonhos, serão verdade; o futuro, já começou; blábláblá", sem chances. *Crônica publicada dia 30 de dezembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.campusred.net/telos/admin/imagenrevista/Niimura4_ilustra.jpg

segunda-feira, 5 de janeiro de 2009

Aniversário do blog daqui 3 dias e minha ausência explicada

Poucas pessoas sabem, mas, na quinta-feira desta semana, dia 8/01, este humilde blog completa seu primeiro ano de vida. Por isso, e por não ter condições financeiras, tampouco convidados para fazer uma festa comemorando o aniversário 1, postarei, na data festiva, um conto meu chamado "Charlene Flanders, que voava em seu guarda-chuva roxo, mudou minha vida", vice- campeão no IV Concurso de Contos de Cordeiro-RJ. Se conseguir uma máquina fotográfica até lá, postarei também uma foto do diploma singelo, amassado e humilde, junto com a medalha de R$ 1,99 de Honra ao Mérito que ganhei - únicos prêmios recebidos pela "conquista". Aproveitando este post, peço desculpas aos leitores que vieram se sentar nesta Poltrona nos últimos dias de 2008 e nos primeiros de 2009. É que fui viajar para São Paulo visitar minha irmã, sobrinha, cunhado, tios, amigo-irmão e a Exposição do José Saramago na Faria Lima. Tenho certeza de que perdi muitos leitores por não ter atualizado o blog. Ainda não consegui ser um blogueiro profissional e, sinceramente, confesso a vocês que é um saco ficar postanto no blog; gostaria de poder pagar um estagiário só para fazer isso. Como isto não é possível, vou ao trancos e barrancos, até um dia furar com a tesoura toda a poltrona, fazê-la em pedacinhos e comprar um móvel novo, talvez menos virtual. Um abraço. Desejo a todos um ótimo ano de 2009.

O futuro já começou*

Antônio Roberto de Paula** Depois dos beijos e abraços, do tilintar das taças e dos copos brindando no Ano-Novo, das bebidas destiladas amargas e adocicadas, das fermentadas, das sem álcool, começa tudo de novo. Depois dos cumprimentos, das lágrimas de variados sentimentos, dos votos de saúde, paz e dinheiro no bolso, das mesas com comidas diversas, dos fogos de artifício, das garrafas quebradas no asfalto, dos ossos partidos no trânsito, das dores localizadas que podem se tornar eternas, começa tudo de novo. Depois das alegrias comportadas, incontidas, das folgas prolongadas, dos passeios sem horário de volta, das madrugadas em claro, das manhãs preguiçosas, começa tudo de novo. Vem 2009, nossas histórias vão continuar a ser contadas. Até que vem outro dezembro e reaparece a paisagem feita de luz, fé e esperança. Depois dos textos, reportagens, canções, cartões natalinos e de virada de ano. Depois das luzes nas fachadas, dos presentes, das viagens e dos encontros. Depois que o espírito cristão invadiu os corações, foi embora, mas tem retorno previsto, começa tudo de novo. Impossível pôr abaixo a cronologia das sensações que nos obriga a ser felizes em dezembro com alto teor de esperança em janeiro. A gente segue a corrente, sendo empurrado ou de braços dados com a mídia, a religião e o comércio. Ou isto tudo nada mais é do que um grande mercado. E a gente embarca na propaganda. O criativo Wilame Prado, que eu ainda não tive o prazer de conhecer pessoalmente; apenas pelos seus escritos neste caderno de O Diário, pelo seu blog e por alguns e-mails trocados, pôs a faca entre os dentes na última terça-feira de 2008. Na sua providencial intrepidez, no compreensível e necessário incômodo diante da mesmice reinante nos séculos e séculos cada vez que um ano termina e outro começa, desancou a melosa e torturante canção: “Hoje, é um novo dia, de um novo tempo que começou. Nesses novos dias, as alegrias serão de todos...” Wilame reagiu diante da antiga vinheta global, que nos coloca no mesmo patamar de felicidade, como se a distribuição das alegrias fosse farta e equânime a cada mudança de folhinha. Ele fechou sua crônica e seu 2008 olhando com escárnio para as falácias que surgem nesta época, abrindo outras portas bem mais interessantes. Depois das festas e do sossego no sofá, começa tudo de novo. Mas um trecho daquela musiquinha tem uma verdade absoluta, que rompe calendários: “O futuro já começou.” Antes de dezembro, depois de janeiro ou em qualquer data. O futuro está na hora que a gente decidir. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná no dia 4 de janeiro **Antônio Roberto de Paula escreve crônicas aos domingos para O Diário, é jornalista, poeta e membro da Academia Maringaense de Letras; faço esta publicação como forma de agradecimento pela honra de ter citado meu nome em sua crônica dominical