terça-feira, 29 de dezembro de 2009

Feliz ano novo*





Wilame Prado

Enquanto anda pelas ruas de uma São Paulo agora totalmente irreconhecível – sem trânsito e transeuntes – Hélio olha para o desenho das calçadas e se recorda da infância – período em que percorria aqueles caminhos de cabeça baixa e pulando os riscos e as rachaduras do chão. Quando criança, pensava que isso traria sorte.

Tempos outros os de agora. Sorte? Que nada. Assim como as linhas puladas da calçada, ele se amargura rememorando as diversas etapas da vida saltitadas. O pior é que, além de seus saltos propositais e desmedidos, ainda havia, no galope existencial, buracos inescapáveis e profundos.

Não parece, mas Hélio tem apenas 36 anos. Quando diz a idade, brinca ressaltando que envelhecera dez anos ou mais no último mês. Pessoas próximas, que estão cada vez mais distantes com o passar dos dias, perguntam a ele porque, no passado, foi preciso viver daquele jeito, no limite, mais parecendo um embriagado tentando fazer o quatro numa corda bamba.

Mas tudo isso, neste momento, para Hélio, não importa. Está sozinho, numa cidade grande e deserta, objetivando apenas cumprir uma missão. E gosta da sensação de paz e serenidade que veio junto às chuvas caídas antes, durante e depois do Natal. Ao se molhar, sozinho, no meio da rua, tentou até sorrir.

Distrações à parte, tomando banho de chuva ou trancado num quarto de hotel, ele sentiu os dias daquela semana escorrer pelo ralo do tempo. Agora, já é 31 de dezembro, último dia do ano e data marcada para Hélio conquistar uma meta que traçou.

No pensamento, em vão, tenta recordar-se de uma cena clássica de um filme de bang-bang de Sérgio Leone, palpitante, sentindo o coração na boca, na mão e no peito, enquanto sobe as escadas de um prédio antigo e sem porteiro do centro de São Paulo.

Hélio encontra-se tenso igual a um caubói que, na avenida principal de um vilarejo do deserto, está com as mãos no gatilho, prestes a matar ou morrer. Toma um susto quando ouve as doze badaladas da imensa catedral que fica ali perto. Fogos de artifício pipocam e clareiam o horizonte visto da janela do quarto e último andar do singelo edifício.

Com a imensidão de luz, vê também uma barata subindo em sua perna. Chuta o ar na esperança de derrubá-la para, logo em seguida, esmagá-la, assim como pretende fazer com seu passado de inseto. Sem barata, e querendo só pensar no daqui para frente, bate, determinado, na porta do 402.

Um senhor quase calvo, com uma barba cinza por fazer e com uma certa tristeza no olhar, disfarçada de olheiras, logo se emociona ao ver o pequeno Helinho – agora grande e também triste, assim como o pai. Ao dar um abraço apertado em seu velho, Hélio ouve uma voz trepidante, anuviada pelo choro: “Por onde andou, meu filho?”. Para ele, mais leve e, agora, dez anos mais novo, a missão havia sido cumprida. “Feliz ano novo, pai”.


Crédito da imagem: http://confins.revues.org/docannexe/image/25/img-7-small480.jpg

sábado, 26 de dezembro de 2009

Os natais eram bem mais felizes

Wilame Prado


Numa hora daquelas, até o Bar do Vargas já estava fechado. As duas mesas de sinuca do Bar do João Bosco estavam ocupadas. Além disso, toda a cerveja gelada tinha sido vendida. Também. Não poderíamos esperar muita coisa dessa pequenina cidade do interior. Ainda mais sendo noite de 25 de dezembro.

Alguns carros passam pela avenida principal, e única, da cidade. Dentro do meu Escort, íamos eu, Pudim e Nego Ló, equilibrando nossos copos, em busca de um recanto afastado onde teríamos bebida gelada e mesa de sinuca desocupada. Áreas periféricas da cidade nos atraíam naquele dia, assim como formigas indo diretamente ao doce. E nada de bar aberto.

Chegamos a visitar o postão da rodovia. Nem bomba para abastecer o carro estava funcionando naquela pocilga cheia de crateras espalhadas pelo chão. A impressão era de que o pessoal da cidadezinha não precisaria mais ganhar dinheiro. “E daí que é Natal”, pensei.

O Bar do Coqueiro era nossa última esperança. Ficava na outra ponta da cidade, na saída que vai para o Sítio 50 Alqueires. A esperança é a última que morre. Morremos ali, no Bar do Coqueiro. Morri o Escort em frente.

Distraía-me sentindo o levedo daquela cerveja barata refrescar minha garganta enquanto assistia, de camarote, o Pudim dar uma surra no Nego Ló naquele tapete verde da sinuca que contrasta com o colorido das bolinhas enumeradas.

Um caubói alto e forte gesticulava e gritava num aparelho celular – última moda da pequena cidade. Um rapaz de olhos brilhantes e barbinha feita para o Natal tomava uma cerveja ainda mais barata que a nossa. Ele esmiuçava com a boca um canto baixinho, tentando seguir o compasso da música internacional e dance dos anos 80 que estava tocando no Microsystem do bar. Ele não sabia falar inglês, tampouco cantar.

A moça que cuidava do bar naquela noite de Natal não trabalhava ali normalmente. Aceitou cuidar da espelunca no período da noite por dez reais. O rapaz da barbinha perguntou a ela se sabia que dia era aquele. Ela disse “dia 25 ué”. E ele disse “mas o que significa?”. Ela retrucou “eu vou saber caramba”. O rapaz riu para a gente e ofereceu amendoim.

Pudim rebolava sua bunda gorda ao som da Sessão By Night enquanto me trucidava na sinuca. Nego Ló, que naquele dia não estava bebendo porque estava ingerindo remédios para controlar suas hemorróidas, esboçava um desejo de ir embora. Tomando devagar sua cerveja barata, o rapaz da barbinha parecia estar feliz porque provavelmente, quando fôssemos embora, namoraria a morena do Bar do Coqueiro.

Depois de cuspir no telefone celular, o caubói pegou seu capacete e foi embora. Alguns minutos, talvez mais de uma hora, escorreram do relógio enquanto nos divertíamos jogando sinuca, bebendo cerveja e dando altas risadas da mesa descaída do bar.

Chegara a hora de seguir em frente, com aquele Escort caindo aos pedaços. Duas notas de cinco reais, jogadas no balcão, pagaram toda nossa despesa. Antes de sair do boteco, dei uma olhadela para o rapaz da barba engraçada e também para a morena forte e de olhos claros. Os dois já flertavam e pareciam estar vivendo uma boa noite de Natal.

Já dentro do carro, com os dois amigos tranquilos da vida, percebi que o céu estava de um negrume só. Uma chuva fraca, mas persistente, insistiu em molhar todo o asfalto naquele feriado que cheira a consumo, briga de família e churrasco.

Despedi-me do Pudim e do Nego Ló já pensando que amanhã seria outro dia. Por força do hábito, desejamos um ao outro um feliz Natal, mesmo sabendo que todos os três ficaram quase o dia todo vendo a chuva cair nostálgicos e concluindo que os natais de antigamente eram bem mais felizes.

quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Notícias da prisão II*

Wilame Prado

Querida mãe: não repare e nem se preocupe com as gotas de sangue que mancharam esta folha branca de caderno. É que obriguei o Vinicius, o agente penitenciário aqui, o filho da mãe, a corrigir pelo menos mais uma carta antes de matá-lo. O canivete, aquele que a Carla conseguiu me entregar na visita, deixei bem escondidinho durante todo esse tempo, dentro do colchão. Nunca precisei usar. Agora, porém, ela espeta a garganta gorda do agente penitenciário. As gotas de sangue vêm daí. Mudando de assunto, como foi o churrasco, sem mim, hoje no almoço de Natal? A senhora deve ter ficado preocupada com minha falta, né? Mas vou explicar a história rapidinho, antes que o tumulto se instale aqui na gaiola. O fato é que, no dia 24 de dezembro, o Vinicius veio com um papo besta pro meu lado, dizendo que só deixaria eu te visitar caso eu ficasse com ele. Onde já se viu, mãe? O cara gosta de mim. Disse que me amava. E eu achando que era meu amigo, que estava me dando uma força neste momento difícil da minha vida. Filho da mãe. Me engordava com bolacha só pra me ver mais forte. Igual àquela história da bruxa que engorda as crianças com doces pra comê-las depois. Sacana. Quando ele veio com esse papo besta, quase que voei no pescoço dele. Ia esganá-lo ali mesmo, no pátio. Mas, como Deus é bom, me deu um sinal. Impediu que o demônio me estimulasse a praticar um ato não pensado. Vou explicar: bem na hora que estava armando um mata-leão pra cima do Vinicius, a bola de capotão dos caras que jogavam pelada veio em nossa direção com tudo, bateu em minha cabeça e me distraiu. Todo mundo riu. Fiquei fulo. O agente penitenciário já estava longe. Sabia do perigo que estava correndo. Aguardei o momento certo pra pegar a presa. Assim como um tigre na selva, que fica um tempão na moita, em posição de ataque, só esperando a hora H pra abocanhar seu almoço. Dei um tempo ao tempo. E foi exatamente nesta noite de Natal que consegui pegar o agentezinho sacana e bicha. Fiquei de papo pro ar na cela. Estava vazia. O pessoal foi tudo comemorar a merda do Natal. Quase nenhum funcionário estava trabalhando. Fiquei fazendo charminho pro Vinicius. Você conhece meu olhar matador, né mãe? A mulherada aí da cidade que o diga. Mas, enfim. O negócio é que agora estou com ele aqui do meu lado, todo mijado e cagado. Uma marica. Agora tem medo de morrer. Já me prometeu Deus e o mundo em troca da vida. Disse pra ele que, diferentemente do que ele disse uma vez, sou eu quem vai levá-lo pro céu. Ou pro inferno. Depende dos pecados desse puto. Vai saber o que já fez na vida, né mãe? Se eu matá-lo, pelo menos vou ser mais respeitado aqui na cadeia. O X-12 vai parar de me encher o saco, e talvez até vire meu brother. Confesso que estou tenso, mãe. Nunca matei. Por isso, fumo um cigarro antes do ato final. E pode esquecer a promessa que fiz pra senhora: nem a pau que vou parar de fumar em 2010. Ainda mais se eu matar um homem da lei. Vou sofrer igual cadela nas mãos dos outros agentes penitenciários. Apesar de que, pelo o que percebia, ninguém gostava muito do Vinicius. Um coitado. Bom. É isso mãe. Vou te poupar dos detalhes mais cabreiros. Agora, acho que vai demorar pra gente se ver. Quando trombar com a Josilaine, diga pra ela me fazer uma visitinha. Estou com saudade do cheiro de mulher. Já ia me esquecendo: o agente aqui, prestes a morrer, disse que forjou o teste de sangue. Disse que, na verdade, a porra do exame deu negativo. Deve ser mentira. Na hora da morte, a gente fica é muito louco, viu. Desculpe qualquer coisa aí, mãe. A vida é uma selva mesmo. Ainda mais dentro da prisão. Desejo um feliz Natal atrasado e uma ótima virada de ano. De seu filho querido, e agora fodido: Daniel.

*Conto publicado resumidamente dia 22 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sábado, 19 de dezembro de 2009

Notícias da prisão*

Wilame Prado
Querida mãe: nesta carta, quero dar uma boa notícia para a senhora comemorar no Natal. Creio que vai se perguntar, ao término da leitura, como consegui escrever bem, sem muitos erros ou rasuras. É que o Vinicius, agente penitenciário, amigão meu aqui dentro, entende pra caramba de texto. Ele corrigiu o que eu escrevi, na maior gentileza. Este meu brother passou num concurso disputado pra cuidar de preso e ganha quase três mil reais por mês. Quando sair daqui, vou estudar, mãe, pra ganhar dinheiro, cuidar de preso e dar uma cesta básica todo mês pra senhora. Mas, já ia me esquecendo da boa nova, né? Então. A senhora se lembra quando veio aqui na gaiola e me encontrou todo doente, fraco, pálido igual à parede aí de casa, sem forças nem pra levantar, né? Naqueles tempos, estava com uma baita moleza mesmo, além de não estar bem comigo mesmo. Acho que estava com aquela doença da vó, a tal da depressão. Não quis te contar, mas é que, naquela época, entrei numa pira muito grande comigo mesmo. É que tem um cara filho da p. (o agente não deixou eu escrever palavrão) aqui no meu pavilhão, o X-12, que encasquetou dizendo que eu era baitola. Só porque sou polaco, de olho azul e magricela. O cara queria me fazer de mulherzinha de qualquer jeito. Um dia, X-12 mais seus trutas, o Cabecinha e o Marola, fizeram uma enrascada, não tendo como escapar da putaria. Dá arrepio só de lembrar da nojeira. Estou com muita vergonha de te contar isso. Não dá pra senhora ver, mas estou até chorando e minhas lágrimas caíram no papel da carta, fazendo com que tivesse que escrever outra, tudo de novo, porque a tinta azul da minha caneta Bic se desfez junto ao branco da folha. Virou um borrão só. Como enrolo, né mãe, pra contar a boa nova? O fato é que hoje, perto do Natal e do fim do ano, tomei coragem e resolvi fazer um exame de sangue, aconselhado pelo meu irmão aqui, o agente penitenciário. Juro que agora vou contar a boa notícia, meu presente de Natal para a senhora: meu exame deu negativo, mãe! Não peguei nada nesta cadeia nojenta, cheio de pessoas ruins. Tem gente boa aqui também, mas tem muito cara que já abandonou a vida e vive num inferno. E o inferno, para eles, é esta cadeia. Estou limpo, mãe! Isso me fez respirar melhor e aproveitar os banhos de sol como se fossem os últimos e os primeiros. Até voltei a frequentar o culto – pode contar pra vó e pras tias. Ainda não consegui largar o cigarro. Mas isso é uma das metas pra 2010. Ganhei, inclusive, uns quilinhos a mais. É que o Vinicius, quase todo dia, me descola um chocolate ou uma Passatempo recheada. O cara é gente fina. Com todo esse meu otimismo, parece que fiquei forte, mãe. Corajoso, sabe? Até parece que li aqueles livros de autoajuda, que tanto a Alice insiste para que a senhora leia. Por isso, resolvi que, de qualquer jeito, vou visitar a senhora neste Natal e Ano Novo. Estou limpo e forte! E o meu irmão aqui, o Vinicius, já está mexendo numas papeladas pra eu sair numa boa. E ele disse que, mesmo que não seja legalizado, vou conseguir sair de qualquer jeito no Natal, nem que for meio nas escuras, sabe? Ele tem moral aqui, mãe. Vai arrumando o quarto, encomenda ponta de costela, asinha de frango e linguiça toscana no açougue do Dutra, pegue emprestado a churrasqueira com o Zé e me aguarde pro churrasco. Ajeite também aquele colchão e aquela almofada, pois vou levar visita. Meu camarada, o Vinicius, perguntou se poderia passar o final de ano com a gente. Diz que faz questão de te conhecer. Mas pode ficar tranquila. O cara é gente fina. A senhora verá. Só achei meio esquisito no dia em que ele falou que me achava bonito. Mãe: homem pode dizer que acha outro homem bonito? Não mostrei esta parte da carta pra ele. Só mais uma coisa: para o festejo de final de ano, vê se não vai chamar aquela vadia da Carla e nem a trambiqueira da Josilaine, viu? Meu camarada aqui está dizendo que é perigoso a mulherada ficar sabendo que eu saí da cadeia. É que elas podem me dedurar para os caras que estou devendo, lá do Mutirão. Bom, é isso. Então, até daqui uns dias, mãe. O Vinicius, a pessoa que vem me salvando deste inferno com grades, manda um abraço. E por falar em inferno, lembrei do dia em que ele disse que me levaria para o céu. Esse cara é um brincalhão mesmo. De seu filho querido: Daniel.
*Crônica publicada resumidamente dia 15 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Sumiço*

Wilame Prado

Nos momentos finais da faculdade, ele começou a sumir. O grupo de colegas de sala nem notou esse início de retirada social. O processo de desaparecimento foi acompanhado de algumas atitudes até então inéditas tomadas por ele. A começar pelo abandono de alguns vícios. No Espetinho do Zé, comemorando a nota máxima tirada na banca final, doou a última cartela de Marlboro para o companheiro ao lado.


No apartamento dele, ao contrário do que acontecia com frequência nos últimos meses, a entrada de refrigerante estava irrevogavelmente proibida. Ao olhar a barriga, que tomava formas astronômicas de uma maneira vertiginosa, restou a ele apontar um bode expiatório. Para não passar no seco, virou um voraz consumidor de água com gás.

Assim como o contrato de trabalho, as aulas finalmente chegaram ao fim. Estava formado e desempregado. Que beleza! Com um canudo debaixo do braço, atestando que passou quatro anos da vida participando de um suspeito ciclo universitário, ele simplesmente preferiu não visitar o mercado de trabalho.

Encostou-se confortavelmente em uma poltrona velha de seu lar. Foi lá que conheceu o ócio não criativo. Foi lá que permaneceu intacto quando o telefone ou a campainha tocaram algumas vezes. Foi lá que, antes de tacar o notebook na parede, desligou-se de todas as redes sociais e banais que participara até então. Esboçou até um refrão: “Orkut: até mais ver/ Twitter: já vai tarde/ Email: não te quero mais/ Blogue: vai ver se estou na esquina”.

Sabia que não demoraria muito para que o nome dele caísse no limbo do esquecimento eterno, amém.Comprovou isso com a diminuição das ligações telefônicas de parentes e amigos. Passado algum tempo, quebrou também os telefones e deixou de pagar as contas para que os serviços fossem cortados.

Quando já não havia mais possibilidade alguma de conviver naquele lar -agora, imundo, escuro e sem mantimentos alimentares -, ele simplesmente o abandonou. Era madrugada. Era calor. Era ele e mais ninguém pelas ruas simpáticas de Maringá. Caminhou alguns quilômetros sem sentir, uma vez se quer, vontade de olhar para trás.

Errante, mas nem tanto, algo o levou até o terminal rodoviário. Talvez fosse a sede. Comprou uma garrafa de água com gás. Meio que inconsciente, viu-se comprando também um bilhete, só de ida. Meio que sem pensar, entrou em um ônibus e rumou para algum Norte. Meio que sem refletir, esboçou um tímido tchau quando o veículo passou ao lado da Catedral.

Agora, está sozinho e olhando pela janela a paisagem de cores formada pelo verde da soja, pelo branco do gado e pelo vermelho da terra. Tenta entender o motivo de seu sumiço. No sacolejar daquele ônibus, rodeado de pessoas feias e estranhas, admite para si a verdade: antecipou-se escolhendo ficar sozinho porque sabe que, mais cedo ou mais tarde, todos o abandonarão de uma maneira tênue, sufocante e extremamente triste.
Crônica publicada dia 8 de dezembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

quinta-feira, 3 de dezembro de 2009

Ouço Otto; penso em Alessandra*

Wilame Prado


Acho que todos nós, pelo menos em algum momento da vida, sentimos-nos nojentos, asquerosos, rejeitados e até odiados pelos outros – assim como insetos.

Fico pensando que o músico Otto viveu na pele a insignificância de um inseto ao abrir os jornais e ler notícias (ou fofocas) de que, na época, sua mulher, a atriz Alessandra Negrini, beijara o bonitinho do Bruno Gagliasso ou se encontrara com o bonitão do Fábio Assunção.

É. Deve ter doído mesmo. Mas, também, pudera. Olha com quem ele foi querer mexer! Alessandra Negrini é a mulher mais espetacular que já vi na telinha. A morena é linda, e parece saber exatamente o que fazer para deixar qualquer moço a seus pés.

Tentando (não conseguindo jamais) esquecer da Engraçadinha da Alessandra, falemos um pouco das mazelas dessa vida. Penso que os sofrimentos não são em vão, ainda bem. Corriqueira, a vida é. Verdade.

E muitos artistas só conseguem produzir coisas profundas quando estão tristes ou solitários. É assim que se consegue enxergar o amargo da rotina, do dia pós dia, da completa repetição de fatos e transformar tudo isso em beleza – seja na literatura, no cinema, nas artes plásticas, no teatro, enfim.

Otto, que parecia estar vivendo um pesadelo sem tamanho, finalmente acordou. Acordou sim, mas, provavelmente suado e ainda com a imagem de Alessandra (eu avisei que não conseguiria esquecer) ao seu lado, “bem junto/na cama/de um quarto de hotel” – trecho de uma das mais emocionantes canções de seu último CD, o maduro e bonito “Certa manhã acordei de sonhos intranquilos”.

O inseto arretado e pernambucano Otto acordou, sim. Comprovo isso em outro trecho da canção: “Nasceram flores num canto de um quarto escuro/Mas eu te juro, são flores de um longo inverno”. Para a alegria de quem já curtia suas músicas e não aguentava mais esperar o lançamento de um novo trabalho, finalmente as flores musicais de Otto renasceram.

O músico acordou, fez um gargarejo com folhas de romã e está com uma bela voz. E não pensem que seus sonhos intraquilos abalaram, por exemplo, seu sotaque marcante de nortista ou o gosto pelo brega. O poeta Otto saiu do casulo, minha gente. Está na praça de novo. E transformou todo seu sofrimento do passado num dos melhores discos nacionais do ano de 2009.

Muitos não curtem os trabalhos anteriores de Otto por achar experimentalistas demais. Eu era um deles. Pois eu digo que, agora, em “Certa manhã acordei de sonhos intraquilos”, já com 41 anos de idade, Otto acertou o alvo e soube trabalhar bem com suas possibilidades.

Fazia tempo que não chorava ouvindo música e prestando atenção na letra. Devo ter ouvido mais de cinquenta vezes as faixas “Crua” e “6 minutos” do CD. Nesse prazer de ouvir as canções de Otto, continuo chorando, emocionado, agradecido e, indubitavelmente, pensando em Alessandra Negrini.

*Crônica publicada dia 1 de dezembro na coluna Crônica, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: http://imagem.vilamulher.terra.com.br/interacao/original/80/alessandra-negrini-e-otto-mais-um-casal-desfeito-80-126.jpg

sábado, 28 de novembro de 2009

Pedra da "felicidade"

Reportagem interessante publicada em O Diário sobre a “Cracolândia maringaense”. Se quiserem ler, está aqui.
Abaixo, se quiserem ler também, meu comentário com relação à matéria.

Pedra da “felicidade”

Ótima proposta de cobertura jornalística e fotográfica de O Diário. Naquela praça, além do consumo desacanhado de drogas, ainda há o comércio sexual de senhoras já com algumas décadas de vida, à luz do dia. Enquanto isso, pessoas vão e vem, sobem em suas circulares para encarar mais um dia de cão, fazem viagens de até uma hora para municípios vizinhos, de pé, com pasta ou mochila nas costas, com guarda-chuva em mãos quando está chovendo, e provavelmente com uma marmita insossa, devidamente guardada na bolsinha, que será devorada na hora do almoço para o peão, ou a peoa, aguentar o restante da tarde. Na volta, é a mesma coisa. Só que, infelizmente, muitos nem retornam a seus lares para dar aquela deitada no sofá enquanto assiste um pedaço da novela. É que precisam ir à faculdade (é desperdício pagar o Fies e cabular aula) e buscar um diploma para, quem sabe um dia, não precisar mais ficar andando de circular ou a pé pelo centro de Maringá, onde pessoas passam o dia e a noite toda numa peregrinação constante em busca de mais uma pedra da "felicidade".

quarta-feira, 25 de novembro de 2009

Um fevereiro sem carnaval*

Wilame Prado

No meio de uma entrevista, vibração ritmada na mesa e luz piscando em compasso: era o celular dando sinal de vida e querendo chamar atenção. Nem sei como consegui terminar o árduo trabalho de questionar o entrevistado com perguntas que eu já sabia a resposta depois de ver na telinha externa do celular as três chamadas não atendidas do telefone da casa de meu avô.

Com câncer no rim incurável, já que seus 80 anos de idade e seus problemas cardíacos o impossibilitavam de fazer cirurgia, só restava esperar o dia fatal, o dia em que o velhinho cearense careca, cheio de prosa e piada, nos deixasse e fosse para um lugar além.

Escrever? Que nada. Retornar a ligação? Muito menos. Andei de um lado para o outro, tentando fazer mil e uma teorias de que o mais provável - uma morte anunciada – não fosse a única opção para terem me ligado, às 15h40 de uma quinta-feira chuvosa.

Como se fosse calmante, construía possibilidades imaginárias para tentar me convencer de que o motivo da ligação não fosse mais do que um simples convite para um almoço de domingo. Olhando a chuva que não queria parar, vendo pessoas absortas em seus afazeres proletários, a pressão do pensamento lógico não me deixava ter esperanças.

Por mais um segundo de abstração, lembrei de meu finado pai, primogênito desse meu avô que estava em estado terminal. As pessoas da família diziam que o câncer fora desenvolvido por causa da morte prematura do filho, que sofrera derrame com apenas 49 anos de idade. E eu, louco para desligar meu cérebro, não queria acreditar que, em menos de um ano, perdera pai e avô.

Já com um terço da garrafa de café no estômago, resolvo retornar a ligação. Quando ouço ao telefone a voz de minha tia que mora a quase um dia de viagem da casa de meu avô, as borboletas douradas da esperança morreram com a vertigem da emoção – o pior só podia ter acontecido para ela estar na casa do velhinho atendendo ao telefone, pensei.

Meu cérebro logo transformou a sensação de ouvir aquela voz em pernas bambas, batimentos cardíacos apressados e gelo no estômago. Ao ouvir o motivo da ligação, pela primeira vez na vida senti alívio em receber uma notícia calamitosa.

Pois, ao pensar insistentemente na morte de meu avô, ouvir ao telefone que ele havia sofrido um derrame e que estava em coma no hospital universitário foi como achar nota de R$ 50 no bolso da blusa, esquecida há anos no guarda-roupa.

Dois dias se passaram, e finalmente seria minha vez de visitar o velhinho cearense no hospital. O horário da visita estava marcado para as 15h45. Mas, infelizmente, a vontade de se encontrar com o filho em algum lugar mais tranquilo foi maior do que rever o neto e permanecer em um sombrio e gelado hospital branco, cheio de tubos de oxigênio espalhados pelo corpo. Aproximadamente às 11h da manhã de um fevereiro sem carnaval não muito distante, ele morreu.

*Crônica publicada dia 24 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Autoajuda só atrapalha*

Wilame Prado

Dizem que para criticar algum livro é preciso lê-lo primeiro. É verdade. Por isso, nunca critico Paulo Coelho. Simplesmente não perderei meu tempo lendo obra sobre alquimia dele. Também nunca li nada que está na prateleira dos chamados livros de autoajuda. Folheei alguns por curiosidade. Experiência boa para rir do quanto é obvio, clichê e de mau gosto o quê esses caras da autoajuda escrevem.
Mesmo com meu absoluto desdém pelos livros de autoajuda, sinto medo de ficar falando sobre isso. É que tem muita gente que gosta, assim como de Paulo Coelho, de praticar a chamada ideologia do pensamento positivo. Situação complicada é quando alguém te recomenda, ou então te presenteia, com livros dessa categoria. Nessas horas, a sinceridade é algo totalmente dispensável e difícil de ser praticada.
Um amigo meu afirma mais ou menos isso: “as pessoas otimistas não dormem de noite pensando que amanhã elas precisarão ganhar o mundo. O pessimista, já consolado com toda a desgraça que é sua vida, provavelmente terá uma noite de sono mais tranquila”. Concordo com ele. Durmo igual a uma pedra.
Não acredito na hipótese de que as pessoas que estão no fundo do poço são únicas e exclusivamente culpadas pela situação em que se encontram. O mundo também não ajuda. Posso ficar pensando positivamente minha vida inteira e nada conseguir. De nada vale eu ficar só ambicionando, por exemplo, um excelente emprego, numa excelente empresa. Também preciso agir. A começar: entrar num curso de inglês.
O parágrafo de cima soou como algo positivista. Poderia bem tê-lo apagado, mas o deixo ali em homenagem aos leitores que apreciam escritos de autoajuda. E já que é para ajudar de alguma forma, que tal começando pelos verdadeiros clássicos da literatura? Penso que quem consome bons livros são pessoas melhores.
Para o amor, poderia citar Gabriel García Márquez e obras como “O amor nos tempos do cólera”, “Do amor e outros demônios” e “Memória de minhas putas tristes”. Para entender que são nas coisas simples da vida que encontramos felicidade, ler “As margens da alegria”, conto do livro “Primeiras histórias”, de João Guimarães Rosa, é uma boa pedida. Você vai ficar fascinado de perceber o quanto o menino ficou alegre só porque viu um pavão no terreiro da casa dos tios.
São tantos os clássicos da literatura que fica difícil recomendar numa crônica só. É tanto livro que existe neste mundo, e que cada vez mais se encontra acessível (vide: www.estantevirtual.com.br), que ler autoajuda deveria ser considerado crime. Isso até me lembrou aquele filme do Truffaut, “Fahrenheit 451”, em que proibiam o pessoal de ler, queimando todos os livros que encontrassem nos lares.
Tive vontade de escrever sobre esta autoajuda que só atrapalha porque, finalmente, encontrei alguém que anunciou publicamente o seu profundo desafeto com o pensamento positivo. É a jornalista e escritora americana Barbara Ehrenreich, que acaba de publicar o livro "O lado ruim das coisas: como a promoção incansável do pensamento positivo prejudicou a América" (tradução livre).
Ehrenreich percebeu o quanto a autoajuda lhe prejudicou quando foi diagnosticada com um câncer de mama. Ela afirma, em entrevista na Istoé, que, caso seguisse a linha da autoajuda, teria de “lutar não somente para aguentar os tratamentos terríveis, mas também fazer um esforço enorme para pensar positivamente”.
Ainda na entrevista, disse constatar “que o excesso de positivismo atrapalha a economia, a política e a sociedade como um todo, porque faz com que as pessoas fiquem mais individualistas, egoístas e, em última instância, infelizes”.
Genial esse ponto de vista. Quando o livro for traduzido aqui no Brasil, darei um exemplar de presente para cada pessoa que já me indicou alguma obra de autoajuda, na vã ilusão de que acreditaria em fórmulas mágicas de “Como alcançar o primeiro milhão” ou então de “Como fazer amigos e influenciar pessoas”.
Crônica publicada dia 17 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

segunda-feira, 16 de novembro de 2009

Câncer de pele


Adoro desenhar. Uma pena é não saber (ou não ter o dom, como um visitante do blog me alertou) II.

quarta-feira, 11 de novembro de 2009

Plantando saudades*

Wilame Prado
Foram poucos, tio Mário, mas marcantes, os momentos em que passamos juntos, lá na roça, terra arrendada, onde o senhor, o padrinho Zé Preto e o primo Carlinhos cultivavam as oleaginosas valiosas – pelo menos naquela época em que a saca de soja era bem paga. Hoje em dia, compensa mais se abandar para os lados da cana-de-açúcar ou então construir granjeiro e plantar pomar para adubar os pés de laranja com o esterco dos frangos.
Digo isso para te manter bem informado, embora acredite que aí dos céus, das plantações divinas, das fazendas longínquas sagradas, o senhor deva estar acompanhando as dificuldades que têm os homens que labutam na roça diariamente. Não bastassem os ladrões de galinha e de gado, nos dias de hoje, tio, até gangue especializada em roubos de tratores já tem.
É por essas e outras que sinto saudade daqueles tempos. O senhor, aí de cima, deve se lembrar do dia em que fomos passar veneno na soja. Eu, moleque de tudo, vindo de São Paulo, capital, tendo nojo de pisar na terra, aprendi a respeitar a vida vivida pelo homem do campo naquele dia, que se iniciara às cinco da manhã, tomando café preto e forte e vendo a Carminha, sua irmã e minha tia, fritando ovos para nossa boia.
Recordo-me que, no mais tardar, às dez e meia da manhã já estávamos devorando aquele arroz com feijão, ovo e batata frita, como se fôssemos reis. Reis com suas boias-frias! Os reis da roça, daquele mundão verde, em perfeita harmonia com o azul do horizonte!
Senti fome logo cedo. Senti frio em cima do trator. Senti náuseas com o cheiro do agrotóxico. Mesmo com essas dificuldades, estar perto do senhor, tio Mário, sem dúvida, era a melhor das sensações. As recordações daquele e de outros momentos vividos ao seu lado, volta e meia, latejam em minha mente. Essas lembranças insistem em me jogar na cara que não mais poderei viver tudo aquilo novamente com o senhor.
Não somos mais reis, tio Mário. A seca acabou com nossa lavoura mágica. E, hoje em dia, homens como o senhor, que nasceram na roça, que brincaram de guerrinha de mamona na infância, que passaram a adolescência catando algodão, que ergueram as mãos para o céu quando a tão esperada chuva prenunciava e que trabalharam dignamente até o último dia em vida, quase não há. Mesmo assim, a gente tenta sorrir ao ver um príncipe Arthur, seu filho, dando um pouco mais de verde para o sertão que é nossas vidas com a tua ausência. Por isso, penso que, mesmo com todas as intempéries que nos acometem nessa estrada rural da vida, tudo valeu à pena, pode ter certeza.
Os homens da roça, os legítimos, os desbravadores, os que cutucavam onça com vara curta, os que almoçavam, jantavam, dormiam e acordavam cedo, devem estar, numa hora dessas, reunidos com o senhor na roça dos céus. E todos, sem exceção, plantaram de tudo aqui na roça da Terra, principalmente saudades.
Crônica publicada dia 10 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná


quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Depressão*


Adoro desenhar. Uma pena é não saber.*

quinta-feira, 29 de outubro de 2009

Diálogos docentes*

Wilame Prado
Professor 1: Eles mataram aquele menino. Mataram! Uma morte moral. O rapaz perdeu até o jeito de andar. Pergunto pra você: pra quê tudo isso? Agora, o Pedro está pensando em se transferir de colégio. Parece que até conversou com o doutor Márcio pra tentar um atestado de quinze dias. Assim, não vai precisar voltar nunca mais ao colégio e nem encarar o terror dos corredores na hora do recreio.
Professor 2: Estou sabendo. O pai dele, o Juruna lá do Banco do Brasil, parece que já está vendo umas papeladas pra se transferir pra cidade grande. Confessou ontem pra nós, lá no clube, no carteado, que morar em cidade pequena é ruim por causa disso. Todo mundo conhece todo mundo, e fala de todo mundo.
Prof. 1: Fico pensando: se eu fosse diretor de colégio, sei lá, expulsava o Murilo e o Caio. Esse papo de suspensão de uma semana, os moleques até gostam. Tiram férias antecipadas, jogam videogame a tarde toda, tomam aquela porcaria de tereré e, não duvido muito, já estão mirabolando pra sacanear mais alguém com aquelas músicas.
Prof. 2: Eu gosto do Pedro, mas não me aguentei, cara, vou confessar. Eu ri pra caramba do vídeo que os moleques botaram no You Tube. No início, a gente pensa que vai ser uma música séria – eles tocam muito violão, hein? Mas depois, quando o Caio começa a cantar... pelo amor de Deus! É muita sacanagem pra uma pessoa só.
Prof. 1: E se acha que eu não mostrei o vídeo pra todo mundo lá em casa não, é? Aqueles moleques tinham que trabalhar no CQC.
Prof. 2: Se viu? O Caio, depois que “compôs” a canção da desgraça do Pedro, começou a namorar a Bia, aquela gostosa do terceirão. Como pode, um piá do primeiro ano conseguir tal façanha? As meninas do terceirão só querem saber de professor ou dos caras que fazem cursinho pré-vestibular à noite.
Prof. 1: Está com inveja, é? Toma cuidado viu. Ouvi dizer que a Marli está dedurando professor que olha aluninha com más intenções...
Prof. 2: A Bia já tem 18, e eu não estou nem aí com a paçoca, meu amigo. Pelo menos, alguma coisa de bom a gente tem que ter nessa profissão. Devia ter feito Direito e não História, viu.
Prof. 1: Relaxa, cara. Se você conseguir dar aula no cursinho, aí fechou. Grana boa por mês. O duro é que tem que saber contar piada né?
Prof. 2: É embaçado. Vou pedir pro Caio e pro Murilo fazerem algumas canções sacaneando o Einstein, o Pitágoras e o Platão (risos).
Prof. 1: (risos) Não tem jeito. Os piás são carismáticos mesmo. A gente dá bronca, coitado do Pedro e do Juruna e tal, mas os moleques animam aquele primeiro ano.
Prof. 2: É verdade. Mas ainda estou de cara com a Bia. Ô menina bonita, viu.
Prof. 1: De lembrar dela, me deu fome. Vamos de bandejão no refeitório ou P.F. na padaria?
Prof. 2: P.F é melhor né!
*Crônica publicada dia 27 de outubro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

terça-feira, 27 de outubro de 2009

Agora sim 50 mil

Agora sim 50 mil. É isso. Seria a hora de parar com o blog?
Enquanto reflito sobre isso, leiam a crônica "Diálogos docentes" na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná.

Quase 50 mil visitas


Contagem regressiva para o visitante de número 50 mil. Segundo contador suspeito, instalado ao lado aí, desde o dia 8 de março de 2008, faltam 20 visitas para o feito.

Nesses quase 600 dias de contador, dividido pelo número de visitas, a média diária de personas que entram neste blog é de 83,333333333...

Enquanto isso, leia “As dez vozes do escuro”, no Portal Literal.

Um abraço e muitíssimo obrigado aos leitores que já se acomodaram, pegaram tuas latinhas e relaxaram suas nádegas nesta Poltrona.




sexta-feira, 23 de outubro de 2009

"De camisola", agora no Cronópios




Ela está em cima de uma cadeira, vestindo surrada camisola cor de pele - outrora devia ser branca. Faz horas que está arrumando o guarda-roupa; tira trecos, põe trecos, enfia roupa, passa pano, tira trecos novamente, passa pano de novo. A visão da janela do meu quarto, quinto andar, é privilegiada, pois a janela dela é a do terceiro andar do bloco ao lado. Continua arrumando, horas passam, eu continuo olhando hipnoticamente, e ela arrumando. Faço de tudo para justificar minha presença na janela. Fumo um cigarro devagarzinho, boa sensação, várias canecas de tereré, olhar hipnótico, arrumação constante. Às vezes, dá-se a impressão que ela me vê, mas analisando fisicamente e geograficamente, não é possível em seu campo de visão enxergar-me, não sem se abaixar. Mesmo assim, tenho certeza que ela me provoca; levanta de leve a camisola, mas não chego a ver nada indecente. Admito, ela não é tão bonita assim, mas como é provocante ver uma moça arrumando seu guarda-roupa com uma camisola curta! Só pode ser provocação...

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

As dez vozes do escuro*




“A parede no escuro”, de Altair Martins, diferencia-se pela variedade da linguagem e dos pontos de vista de seus dez narradores; livro é ganhador do Prêmio São Paulo de Literatura e finalista do Jabuti


Por Wilame Prado
Dependendo do modo como uma pessoa se expõe em sua linguagem, e atentando-se aos assuntos que, volta e meia, compõem o enredo de sua fala, consegue-se conhecê-la melhor.

É por meio da oralidade, representada nas palavras proferidas pelas pessoas, que os personagens do livro “A parede no escuro”, de Altair Martins, vão se revelando e se caracterizando. O romance foi vencedor do Prêmio São Paulo de Literatura, na categoria “Melhor Livro de Estreia do Ano”.

São mais de dez narradores no livro. Em muitas páginas, o leitor encontrará um mesmo fato descrito por mais de um narrador. Isso enriquece a cena imaginada e estimula um raciocínio lógico de que a verdade nunca é absoluta e que é dependente do ponto de vista de cada um.

O exercício narrativo proposto por Martins é arriscado no campo da literatura. O autor gaúcho, para produzir o romance, nadou em águas turvas da criatividade, que poderiam muito bem tê-lo arrastado à superficialidade. Mas isso não aconteceu.

O resultado final, além de todos os prêmios conquistados, inclusive sendo um dos finalistas ao Prêmio Jabuti de melhor romance, foi uma obra genial, que exala originalidade (pelo menos quando comparado a escritores brasileiros) e riqueza estética literária. Uma prosa quase poética.

O difícil é imaginar como o autor de “A parede no escuro” conseguiu a proeza de criar tantos narradores, cada qual com suas especificidades, e os consequentes discursos relatados no livro. Em entrevista ao jornal literário “Rascunho”, Martins revela um pouco de sua labuta para tal feito.

“Escrever, para mim, é antes de tudo escutar. E colher. Meu laboratório é meu dia-a-dia: estou sempre coletando sucata. Por isso, para a elaboração de tantos narradores diferentes, adotei envelopes com seus nomes, dentro dos quais fui depositando frases e estruturas sintáticas que me pareciam convir com cada um deles”, revela o escritor.

Nesse exercício atento de observação e coleta de dados, Martins incorporou nos personagens características de pessoas conhecidas, como sua mãe, seu padrasto, professores colegas de trabalho e até alunos.

“Onira tem a sintaxe de minha mãe; Adorno, de meu padrasto; colhi o Coivara de vários professores de cursinho com os quais convivi, e ele tem um pouco da minha linguagem também. Já o Emanuel nasceu da sintaxe de textos dos alunos, algo como uma escrita aos pedaços, com referentes anafóricos desnecessários, com frases viúvas”, explica, na entrevista, a gênese dos personagens do livro.

Em meio a constantes relatos dos narradores, ora representando diálogos, ora representando seus pensamentos, o ponto de partida da trama é o atropelamento e morte do padeiro Adorno. A partir deste fato, o leitor conviverá principalmente com os dramas psicológicos de Emanuel, filho de Fojo, vizinho de Adorno, e supostamente o autor do crime, e de Maria do Céu, filha do padeiro.

Embora Martins negue ter se inspirado em “Crime e Castigo”, de Fiódor Dostoiévski, cabe uma comparação entre Raskólnikov e Emanuel, ambos totalmente abalados psicologicamente em razão da culpa que pesa na consciência e com a insana necessidade de desabafar o crime.

Os diálogos entre os professores Emanuel e Coivara acabam levando ao leitor um cenário contundente, mas infelizmente desastroso, da situação atual do ensino brasileiro. É nas palavras de Coivara (que sofre o peso do preconceito dos alunos por não ter um dos braços) que as críticas mais ácidas do sistema são feitas.

Emanuel, enquanto ouve os discursos inflamados do professor de História, encontra-se preocupado com o atropelamento praticado, com a relação amarga entre ele e seu pai e também com a ordem dos copos na mesa e a limpeza do chão abarrotado de giz esmagado – um dos personagens principais do livro parece sofrer de transtorno obsessivo compulsivo (TOC).

Esse é só um dos tantos episódios que merecem destaque em “A parede no escuro”. Outro exemplo de maestria linguística e capacidade de conseguir transformar acontecimentos em literatura é a descrição dos pensamentos e sentimentos de Maria do Céu, ao saber da morte do pai.

Recém saída de casa, e ainda colecionando as palavras amargas da última briga com Adorno, o processo digestivo de aceitação da morte se dá aos poucos, com riqueza de detalhes e com surtos de sordidez, raiva, desprezo e, por fim, aceitação.

Das primeiras páginas até o fim do livro, a parede da casa de Adorno, o padeiro atropelado, configura-se quase como um outro personagem, representando a figura onipresente necessária para que o leitor entenda os dramas vividos pelo padeiro, por sua mulher, Onira, e por Maria do Céu, antes e depois do
atropelamento.

Em determinado momento do livro, dias depois da morte de Adorno, Onira pensa alto: “E tem vez que eu penso que tu não partiu ainda, e eu dou uma cochilada e me acordo assustada, porque parece que eu tenho que levar uma toalha seca ou esquentar um leite ou arrumar uma outra coisa da casa. Me dá uma tremura nos nervos por causa que parece que tu pega e te esconde atrás de cada parede.”

No escuro, a parede da casa torna-se testemunho de alguns episódios cruciais na vida de Adorno e de sua filha. Graças a um desses fatos marcantes ocorridos na vida de Maria do Céu, ela consegue uma redenção justificada pelo que pensa ter cometido: a morte do pai.

Nesse ponto, ela se parece muito com Emanuel, que vive suportando um peso de simplesmente não sentir nada pelo pai, ao fato de estar, num bar, tomando um porre homérico e criando coragem para desabafar ao amigo Coivara o crime cometido, enquanto o velho Fojo, numa cama de hospital, parece viver os últimos momentos de sua vida. Emanuel também acredita que matou seu pai.

Todos os personagens de Martins vivem se culpando ou reclamando de algo. Sua literatura não vem com enfeites ou prioriza histórias límpidas e maquiadas de pessoas quase irreais, tão comuns na literatura.

Em “A parede no escuro”, o escritor gaúcho, ao dar voz a pessoas simples, tão bem caracterizadas por seus discursos verossimilhantes, enraizadas nas tradições gauchescas de determinada cidadezinha interiorana e sem muitas ambições para o futuro, consegue traduzir a vida como ela é, por mais cretina que possa parecer.
 Métodos literários

Em sete anos de trabalho solitário escrevendo seu primeiro romance, Martins prova que metodologias e cientificidade também podem ser aplicadas à literatura. “A parede no escuro”, com o título “Desamparo”, foi o texto de sua tese de mestrado. Hoje, dando prosseguimento à sua vida corrida de professor e pai de família, Martins busca seu doutorado também em literatura.

A demora para escrever o livro é justificada pela dificuldade de se criar diferentes discursos narrativos, sem com isso perder a qualidade. Seu projeto literário, o de mexer com a estrutura habitual do romance (quase sempre com apenas um narrador e com os comuns travessões em diálogos) é ousado e perturbador. Mas ele não se importa; gosta de correr riscos.

Ainda em entrevista a “Rascunho”, Martins alfineta os escritores secos e conservadores da linguagem: “Leio securas publicadas aqui e ali, sobretudo de jovens como eu, e penso sempre que faltou a coragem de se arriscar ao erro. Sempre pequei pelo excesso, pela ousadia, e nunca pela covardia. Prefiro uma frase rica em meio a um ramalhete de coisas tortas do que qualquer coisa com cheiro de plástico”, diz.
 Contos do professor de contos

Embora “A parede no escuro” seja seu primeiro romance, Altair Martins, hoje com 34 anos, iniciou sua carreira literária com apenas 24. Na ocasião, lançou a antologia de contos “Como se moesse ferro” e, logo em seguida, o bem visto pela crítica e finalista do Prêmio Jabuti “Se choverem pássaros”, também de contos.

Martins não apenas faz, como ensina a fazer contos. É responsável pela cadeira de Conto no Curso de Formação de Escritores da Unisinos, em São Leopoldo.

Em entrevista ao jornal “Rascunho”, revela estar trabalhando num próximo livro de contos chamado, segundo o autor, provisoriamente de “Enquanto água”. “São textos sobre sensações fluidas, afogamentos, mergulhos, derretimentos. São reflexões sobre a fluidez como a vida desliza hoje, sem que possamos reter qualquer coisa”, diz.


Serviço
Título: A parede no escuro
Autor: Altair Martins
 Editora: Record
 Número de páginas: 256
 Preço: R$ 37,9
Fragmento de “A parede no escuro”
 Um pouco de qualquer coisa, filha, meu pai já respondia quando eu perguntava o que ele misturava dentro do pão. Naquele tempo o pão falava. Tinha farinha, pai? e o pão respondia que tinha. Tinha açúcar? e açúcar, pitada de nada, tinha. Tinha ovo? e o pão respondia que tinha ovo, sim. E farinha? Farinha eu já tinha perguntado?, mas farinha tinha, e muita. Tinha leite e tinha disso e daquilo mais um pouco? E íamos, o pai e eu, colocando todas as coisas dentro dos pães que, o forno apitando, iam saindo do mesmo tamanho, embora cada vez o miolo ampliasse mais sua complexidade de segredos. Se era verão, eu sentava no segundo degrau de madeira. A escada levava a casa à padaria, e eu ficava ali, na transição entre o pai e o padeiro, olhando para o pão que fumegava no prato de louça. Então eu esticava o vestido de algodão até os joelhos e improvisava uma mesa entre as pernas. E olhava para o pão como quem olhasse o escaravelho dourado. Se o virava, era com um respeito às pessoas de idade, e o fazia para ver as marcas da fôrma, verificar o vinco doído da ferida na casca. Só então, com um cuidado-menina, eu o partia. De dentro vinham fumaças de cheiro. O segredo era branco. E olhava o pai que nunca se cansava de trabalhar — meu padeiro tinha muita força nos pães o pai já tinha feito, todos todos. E voltava o meu olho a cavoucar o miolo branco do pão me perguntando O que mais ele põe aqui dentro? E enfim já era eu passando margarina de derreter a vontade. E uma pitada de açúcar como aprendi com meu pai, ou com meu padeiro, pode ser. E o comia sem resposta, barulhos bons do romper-se da casca, satisfação de dentes que vencem tudo, dedo molhado para colher o melhor dos farelos. Quantos pães eu já havia comido, todos todos, até os seis anos, e depois até os sete, e depois e depois?
Sentada no colo dele, eu acompanhava o café. Se fazia frio, as mãos quentes de meu pai me esquentavam as pernas e o peito. Não quero mais, pai, estou cheia de pão. E meu pai vinha fazer aquilo que me iluminava: ele beijava o pedaço de pão antes de atirá-lo aos cachorros. Um pecado, demais, jogar pão fora. Pão não-beijado atraía os ratos.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

Pastel de queijo para todos*

Wilame Prado


Lendo uma matéria sobre Sharon Kleinbaum, rabina da Congregação Beth Simchat Torah, a mais famosa sinagoga de gays, lésbicas e simpatizantes (GLS) nos Estados Unidos, quedei-me a imaginar sobre nosso mundo segmentado e preconceituoso.

Por que há uma sinagoga só para GLS? Ou, então, por que há uma revista direcionada a pessoas que nasceram com a cor negra? Por que existem boates específicas a um público homossexual? São tantas as perguntas sobre este tema espinhoso.

Com certeza, muitos leitores já devem estar maquinando respostas ácidas ao pobre cronista. Mas antes de apertar na tecla “enviar” de seu e-mail, com as soluções para meus pontos de interrogação, leitor amigo, devo dizer que, ao indagar essas segmentações existentes na sociedade, não estou querendo culpar ninguém.

Seja o negro, que não se vê retratado nas publicações de brancos, seja o gay, que não se sente à vontade num barzinho onde a maioria se diz heterossexual.

Quero mesmo é, ao jogar perguntas ao vento sobre o assunto, estimular uma reflexão. Sim, refletimos, pois. Pare para pensar: o preconceito ainda está tão enraizado que muitos não veem problema algum nessas manifestações segmentadas. Para desanuviar melhor, exemplifico com a Parada Gay – evento que reúne muita gente, em diversos lugares do mundo.

Os gays, em si, adoram. Os simpatizantes e pessoas esclarecidas, que já quebraram suas amarras preconceituosas, também amam de paixão. Parabenizo o pessoal da organização e os inúmeros participantes da parada, mas, no auge de minha sinceridade, devo confessar que não gosto muito do evento. É que, mais uma vez, vejo ali uma forma de segregação, feita pelos próprios segregados.

Sabe o que eu queria mesmo? Uma Parada Humana. Queria que gays, negros, brancos, índios, rosas, amarelos, paraguaios, japoneses, italianos e até norte-americanos (por que não?) participassem juntos de uma passeata em busca da paz e pelo fim do preconceito.

Queria ir a uma igreja ou a um templo ou a uma pizzaria ou a uma boate sabendo que ali não há distinção de público. Todos, absolutamente todos, pagando é claro, têm direito de comer um pastel de queijo num mesmo lugar!

Não há dúvidas de que essas manifestações segmentadas são formas que os grupos que sofrem preconceitos têm de se organizarem, unirem forças e não morrerem, cada qual isolado em seu canto, com suas angústias e vontade de gritar.

Por isso, enquanto alguns cabeçudos não conseguirem enxergar todas as pessoas em pé de igualdade, continuarão existindo sinagogas de GLS, revista Raça e Parada Gay.

Mesmo assim, ainda acredito que, um dia, não precisaremos mais disso. Assim como não precisamos mais amarrar o braço das crianças canhotas, obrigando-as a escrever com a mão destra. Os canhotos já não são considerados filhos do diabo. Ufa.
 *Crônica publicada dia 20 de outubro na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná, e também no site Maringay.

sexta-feira, 9 de outubro de 2009

Sinhazinhas e burguesinhas*

Wilame Prado

Convenço-me, cada dia mais, que a essência em si dos homens e do mundo nunca muda, e sim apenas os personagens e as terminologias para tais manifestações comportamentais.

Olha como escrevi bonito! Terminologias, manifestações etc. Fruto de um trabalho de conclusão de curso alucinante, que me obrigou a dialogar com esse vocabulário mais bonitinho durante quase o ano todo.

Mas, voltando ao raciocínio sobre a essência da vida, quero explicar a mesmice do mundo fazendo uma singela comparação entre duas canções da nossa rica Música Popular Brasileira. São 24 anos separando a música “Sinhazinha (despertar)”, de Chico Buarque, e “Burguesinha”, de Seu Jorge. Ambas retratam a rotina de uma garota de posses.

Na música de Chico, interpretada por Zezé Mota no disco “Para viver um grande amor” (1983), a sinhazinha tem de buscar sempre mais conhecimentos e mostrar-se culta aos pretendentes namorados. “Tem cabeça pra tratar/ Tem que ler caderno B/ Hora no homeopata/ Fita no vídeo-clube” diz um trecho da letra.

A sinhazinha do século 21, apelidada de “Burguesinha” por Seu Jorge, representa também uma garota que precisa se sobressair de alguma maneira na sociedade, investindo em algo que possa torná-la especial.

Nos tempos modernos, porém, já não é preciso ser culta ou pelo menos fingir ter um certo grau de intelectualismo para conquistar os machos. Acompanhe a rotina de uma burguesinha, no trecho da música, e entenderá o que quero dizer: “Vai no cabeleireiro/ No esteticista/ Malha o dia inteiro/ Pinta de artista”.

O interessante é que, diferentemente da sinhazinha anos 80 de Chico Buarque, a burguesinha anos 2000 de Seu Jorge não está interessada em conquistar ninguém, e talvez nem pense em casamento. Quer curtir a vida, aproveitar sua grana na casa de praia e jamais esquentar a cabeça com nada. Afinal, pode sacar dinheiro e andar com o motorista em seu carro esportivo.

É ou não é o retrato vivo de nossa sociedade individualista e consumista, caro leitor? Em meio aos repetidos cantares de “burguesinha, burguesinha, burguesinha”, Seu Jorge demonstra na canção – que faz parte do CD “América Brasil” (2007) – a vontade de ter, e não de ser, das fêmeas endinheiradas: “Só no filé/ Tem o que quer/ Do croissant/ Suquinho de maçã”.

As garotas já não querem mais entrar de cabeça nas águas profundas de um relacionamento amoroso sério. Elas já não sofrem iguais às sinhazinhas das antigas, que entravam no ciclo vicioso: “Namorado pra casar/ Casamento pra sofrer/ A cabeça pra dançar/ E a vontade de morrer/ Disco novo pra rodar/ Vinho branco pra esquecer”.

De qualquer forma, ainda sou muito mais uma sinhazinha que lê o caderno B do que uma burguesinha que fica com sua tribo na balada até de madrugada.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Revista piauí comemora três anos*




Por Wilame Prado

Uma das únicas revistas brasileiras em atividade que dedica seu espaço para grandes reportagens, textos ficcionais, jornalismo narrativo e humor inteligente, a piauí completa três anos de vida em outubro.

Porém, mesmo com uma legião fiel de assinantes e custando R$ 9,50 o exemplar, o criador da revista, João Moreira Salles, afirma que ainda não conseguiu obter lucro com a publicação.

Para comemorar o aniversário, Salles vem percorrendo algumas universidades brasileiras e proferindo palestras para comentar sobre a revista piauí, jornalismo, cinema e cultura de uma maneira geral.

No último dia 28 de setembro, os participantes do Set Universitário, na Famecos (Faculdade dos Meios de Comunicação Social) da PUCRS, puderam assistir à palestra comemorativa. E para alegria dos internautas, a explanação de Salles foi transmitida, ao vivo, no site da faculdade e recebeu cobertura jornalística pelo twitter.

Pela internet, a reportagem do Megafone conferiu a palestra e chegou a enviar algumas perguntas ao criador da revista. Sobre essa questão de a revista estar no vermelho, Salles não demonstrou preocupação. Segundo ele, o retorno financeiro para revistas costuma demorar mais tempo do que os três anos pelo qual a piauí vem sendo veiculada.

“A revista leva tempo para conseguir o equilíbrio. Leva tempo para conseguir convencer o mercado publicitário que compensa anunciar na piauí”, diz.

Em determinado momento da palestra, as perguntas foram abertas ao público presente. E, assim como na maioria dos eventos em que Salles participa, a maior curiosidade do público diz respeito ao nome da revista. Por que piauí? Segundo o criador, simplesmente porque gosta da palavra, gosta das vogais e do som que elas remetem. “A vogal é macia, redonda, sai com jeito da boca.”

Quando comparada aos outros meios de comunicação existentes no Brasil, a piauí impressiona pela sua liberdade editorial. Na revista, quase não há editorias e, não raro, satiriza a vida pública de celebridades.

O alvo preferido das últimas edições da publicação é o empresário Roberto Justus, que se arriscou no caminho tortuoso da música, lançando um CD, e, claro, políticos de todas as espécies.

Sarney chegou a ser comparado, numa edição recente, ao Gregor Samsa, personagem principal da obra “A Metamorfose”, de Kafka, que se transforma num bicho asqueroso, da noite para o dia.

Sobre a criação de pauta e possíveis adequações ao jornalismo praticado no país, Salles deixa claro sua intenção: “a gente não vai trazer para revista procedimentos da imprensa autoritária. A gente não vai ter editoria.”

Para ler na íntegra as reportagens publicadas na piauí é preciso dedicar mais do que meia horinha do seu dia. Com fonte pequena, e quase sem ilustrações, os textos da revista são bem embasados, apurados e dedicados a um público que, segundo o criador, sabe processar informação.

Não era para menos. Isso porque, de acordo com Salles, repórteres da revista já chegaram a publicar reportagens que demoraram mais de um ano para serem finalizadas. “No mínimo, as reportagens têm apuração de dois meses. Muitas vezes, o texto vai e volta”, explica.

Para quem está cansado das mesmas notícias, abordadas quase sempre da mesma maneira pelas revistas brasileiras, Salles argumenta sobre o que considera como um dos diferenciais da piauí: "a leitura da piauí não é utilitária. É muito mais ligada à formação do espírito. Parece bobo falar assim, mas é”.



quarta-feira, 30 de setembro de 2009

A ilha somos nós*


Wilame Prado
Minha casa e eu. Estamos sós. Paredes e móveis. E não adianta olhar pela janela o movimento da avenida. Lá fora são eles, e não participamos deste movimento inerte rumo a lugar nenhum.

Somos sós nós dois. Casa e eu. O barulho da geladeira até conforta. E não pense, vizinho, que o som ligado às alturas é uma expressão de felicidade e reunião. É simplesmente uma artimanha para ludibriar o grito mais alto de todos – o do silêncio.

Perceba que até na cadência do samba há melancolia. “Vai passar”, canta Chico. Mas quando tudo passar, o eterno retorno nos levará à frieza da solidão. Frieza percebida nos azulejos e paredes brancas.

E não adianta abandonar a casa e fumar um cigarro na calçada, depois de um cafezinho tomado na padaria, olhando as pessoas apressadas indo e vindo na avenida Herval. Ninguém vai te olhar porque não é viável perder tempo.

O mundo é competitivo. Todos querem dinheiro. Tempo é dinheiro. E olhar para o fumante solitário é perder tempo, e talvez saúde, e, consequentemente, dinheiro. Para não respirar a fumaça alheia, passam longe, pensando em alguma forma de ganhar mais dinheiro.

Então, casa, somos sós nós dois mesmo. Almoçar sentado no sofá ouvindo a televisão e seus comparsas mentirem é outra tática de calar a boca do silêncio. Nada vai acontecer, fiquemos tranquilos. Nada mesmo. O resumo da ópera da vida: comer, dormir, eliminar resíduos do corpo e, finalmente, sentir-se só.

Cada um é cada um. Peço perdão aos socialistas, mas devo dizer que será difícil reunir o pessoal por uma causa nobre. Todos estão sós, prenderam-se. E não pense que a companhia etílica dos bares trará conforto permanente. É tudo passageiro. A filosofia embriagada não tem embasamento suficiente para calar o silêncio posterior à reunião entre bêbados.

É quando, no meio de um banho quente, inerte em pensamentos fúteis, a única forma de confortar a inquietude mental é imaginar que, daqui para frente, tudo será diferente. Mas nunca é. Não adianta. Os carros vão continuar lotando as ruas. E a corrupção no Senado continuará reinando.

Alternativas não há. É o fim, mas só do começo, pois, depois de uma confortável noite de sono, talvez sonhando com as coisas que nunca terá, é hora de acordar. É hora da luta, rapaz! Ou encara, ou pede para sair.

Não tem jeito. Em algum momento de sua vidinha mais ou menos, verá que tudo aquilo que foi vivido não passava de uma peça teatral mal ensaiada. A vida não permite ensaios? A vida não passa de um ensaio daquilo que gostaríamos de atuar. Na vida, não há peça perfeita. Mas bem que queríamos.

Estamos sozinhos. Carinho, palavras e gestos de pessoas que dizem te amar são grãos de areias em meio à velocidade do vento. E o que sobrará é simplesmente você, e talvez a casa. Inerte em seus pensamentos, dentro de casa. Finalmente entendendo que ninguém nunca conseguirá tapar a boca do silêncio ou atar as mãos da solidão.

Um dia, em algum momento, num segundo, perceberá, acordará e sentirá o peso de tudo e de todos. E verá a insignificância tua para com o mundo. Não precisa ir a uma ilha deserta para tentar entender isso tudo, basta ficar em casa. É o momento de admitir: a ilha somos nós.

*Crônica publicada dia 29 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná.

segunda-feira, 28 de setembro de 2009

Sábado morto


Foto tirada da janela do escritório, por volta das 19h, sábado morto, 26/09, TCC até altas horas.


Crédito: Wilame Prado

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Pesadelo verde*

Wilame Prado

Cor bonita é o verde. Em nossa bandeira, alguns dizem que representa o verde das matas. Se isso fosse realmente verdade, parte da bandeira deveria ser tostada, assim como acontece com muitas árvores no Brasil. Mas hoje não quero falar de árvores, mesmo sabendo que ontem, 21 de setembro, comemoramos o Dia da Árvore – uma das datas mais hipócritas de nosso calendário. Quero mesmo é falar do verde, essa linda cor, a cor da esperança.

Digito “verde” no Google buscando informações para esta crônica, que ficaria muito bonita caso fosse publicada na cor verde. E obtenho algumas informações inúteis para mim, um leigo no que diz respeito ao disco cromático: “O verde é uma cor-luz primária e uma cor-pigmento secundária”.

Descubro também diversos tons da cor verde. Tem o verde marciano, o lunar, o menta, o exército, o musgo (também conhecido como cor de bosta) e até o fantasma. Particularmente, gostei bastante do verde esmeralda, inspirado na pedra esmeralda, que, vejam só, significa “pedra verde” no indiano antigo, segundo alguns sites suspeitos.

Cultura inútil à parte, e querendo poupar as dificuldades que um amigo meu daltônico terá para enxergar os verdes desta crônica, esqueçamos as cores e falemos agora do que realmente importa: futebol – o nosso circo de cada quarta-feira e domingo, a nossa alienação via canais da televisão, a nossa desculpa para tomarmos aquela gelada. Sim, meus caros, o futebol.

Devo confessar: ultimamente, assistir aos jogos do meu time, o Santos Futebol Clube, é mais chato do que acompanhar na íntegra as 500 milhas de Indianápolis. No jogo entre Santos e qualquer time, simplesmente nada acontece.

Neste último domingo, fui ao bar do Jair, aqui perto de casa, ver mais uma apresentação pífia do Peixe diante do fraquíssimo Botafogo. O resultado, zero a zero, traduziu bem o que este jogo representou.

Mesmo com a pasmaceira do confronto entre os alvinegros, pude, porém, me divertir, e muito, direcionando meu olhar à outra televisão do bar. O jogo entre Corinthians e Goiás era transmitido. Num Pacaembu lotado, o verdadeiro Verdão provou que tem fôlego para ganhar o Campeonato Brasileiro e fazer justiça ao bom futebol que vem praticando nos últimos anos.

A cada gol do Goiás, que, com seu manto esmeraldino, inspirou-me a escrever esta crônica, não conseguia conter os dedos ávidos, digitando mensagens no celular para um amigo corintiano. Como uma foto, um simples nome valeu mais do que mil palavras: “Ronaldo”, leu o pobre corintiano em seu celular pelo menos umas quatro vezes.

Depois de Obina versão 3.0 e da goleada comandada por Iarley, Fernandão & cia, não tenho dúvidas de que os pesadelos sonhados pelos corintianos acontecem em tons de verde. Verde esmeralda, verde-limão ou até verde musgo. Não importa. Verde é realmente uma cor bonita.
* Crônica publicada dia 22 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

sexta-feira, 18 de setembro de 2009

Vt sobre Rockingá - não riem, eu fui o repórter!

No Espora de Galo, blog do grande amigo Thiago Soares, videocast sobre o Rockingá. Como vocês perceberão no VT, televisão absolutamente não é minha praia.

quinta-feira, 17 de setembro de 2009

Poderia ser pior*

Wilame Prado
Para o rapaz que não consegue ver beleza em nada e acaba gerando discórdia por onde passa com sua arrogância, digo: a vida poderia ser pior. Para a moça balzaquiana que não aguenta mais esperar seu príncipe encantado chegar de cavalo ou carro branco, afirmo: a vida poderia ser pior.

Ao senhor que só na velhice percebeu o quanto desperdiçou as oportunidades que lhe surgiram quando jovem, reafirmo: a vida poderia ser pior. E para a senhora, que derrama diariamente lamúrias a quem quiser e não quiser ouvir sobre eternas dores do corpo e da alma e o quanto acha tudo uma injustiça, saliento: a vida poderia ser pior.

Quero contar a história do João. Sua vida, talvez, não poderia ser pior do que já é. Para ele, nada é legal. Tudo é triste, muito triste. Um dia de sol é triste. Um dia de chuva é triste. Os carros passando, é triste. Mulheres e velhos caminhando pelo parque, é triste. Acordar ou dormir é triste. E, triste, João vai sendo praticamente carregado pela vida.

Sabe-se que João gosta de beber cachaça e cerveja. Mas o álcool não lhe representa alegria alguma. Somente uma maneira de tirar da tomada a máquina chamada corpo. De bar em bar, em suas procissões etílicas pelas ruas de Maringá, ele vai, todas as noites, encontrar seu desligamento corporal.

É quando João sente estar entre o céu e o inferno. Talvez num purgatório imaginário, onde ninguém e coisa alguma representam mais do que nada (uma palavra difícil de traduzir). É quando tudo e todos, inclusive ele próprio, significam menos do que a merda do cachorro empastada no sapato de um pedófilo.

Um dia, João, já chumbado de pinga com mel e limão e rabo de galo, foi parar num bar frequentado por jovens burgueses de Maringá, perto da Catedral. Pediu uma cerveja porque estava com fome. Pinga é bebida; cerveja é comida, para João.

Dormiu sentado na cadeira amarela do bar e encostou a cabeça, de leve, na mesa. Por lá, ficou alguns eternos minutos. Vez ou outra, deixava a cabeça deslizar um pouco para trás, o suficiente para o esguicho de vômito sair de sua boca e ir diretamente ao chão, sem fazer sujeira na mesa.

Nem notou, o João, que virara, naquele dia, atração circense para os jovenzinhos aspirantes a alcoólatras que se encontravam no bar. Levantou-se no intuito de seguir em frente. Mas, antes de continuar a via sacra rumo ao barraco, sentiu a necessidade de mijar. Na pista de skate ao lado do bar, na frente de todo mundo, descarregou seu líquido amarelo.

Depois desse episódio, quase nada mudou na vida de João. Triste, continuava vivendo por viver. No outro dia, porém, sentiu um enorme vazio entre a língua e o céu da boca. É que no descarrego intestinal (também conhecido por gorfo) praticado no bar, foi-se embora a dentadura junto com toda aquela nojeira líquida visguenta.

João é triste. João é triste, e agora sem dentes. Poderia ser pior?
Crônica publicada dia 15 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná

Crédito da imagem: http://1.bp.blogspot.com/_P_IACpd7f9g/SRIr4j06MII/AAAAAAAAAUo/ZILUHfF41IM/s400/20080801040941-triste.jpg

sexta-feira, 11 de setembro de 2009

Crônicas também no RUC Revista

Olá, caros leitores. Venho por meio deste humilde post relembrá-los que, todos os sábados, a partir das 11h, tem RUC Revista, na Rádio Universitária Cesumar (94,3 fm). No meio do programa, mais para o final, lá pelas 11h45, narro minhas crônicas.

Portanto, se está com preguiça de ler as crônicas ou contos em A Poltrona ou na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná, limpe bem os ouvidos, sintonize na 94,3 fm e se delicie com minha enrouquecida e apaixonante voz! No meio da madrugada, em meio àquela insônia, naquela briga injusta com o travesseiro, lembrarás de minha voz crônica e se confortará em meio ao lamaçal de lembranças arredias. Depois não diga que eu não avisei.

Um dia, quando a preguiça fugir de meu corpo, vou providenciar um arquivo de áudio com as crônicas no blog também. Até lá, "...Wilame Prado, para o RUC Revista".

Bom final de semana!

terça-feira, 8 de setembro de 2009

Uniformes políticos*

Wilame Prado Por causa do metamórfico processo de Sarney no Senado e de mais algumas rinhas e arranhões, muitos governantes deste Brasil brasileiro estão mudando de uniforme, vestindo outras camisas, trocando de bandeira, de sexo e de Deus. Ela gosta de árvores. Nada mais justo, então, que Marina Silva troque o uniforme vermelho do PT pelo manto verde sagrado do PV. O tucano enrustido, católico e conservador Flávio Arns rasgou, brabo, seu andrajo uniforme rubro e assumiu de vez que seu coração é amarelo e azul – as cores do PSDB. “Que cor de uniforme melhor vai combinar com Mercadante e seu garboso bigode saliente?”, é a pergunta que não quer calar. Será que o vice de Lula em 2004 vai derramar um balde de tinta amarela em sua camisa mais que vermelha cor de sangue? Heloísa Helena, esbanjando conhecimentos da última moda, disse que o amarelo e o vermelho do PSOL são cores complementares e que serão bastante utilizadas na eleição de 2010. O engraçado é que ela própria só usa aquela blusa branca e larga, já amarelecida pelo tempo e pela poeira do chão de estrada da politicagem tet-a-tet. “Mudemos o uniforme; e já!”, são os gritos que ecoam cada vez mais altos nas paredes da sede do PT e que chegam gritantes e irritantes aos ouvidos de Berzoini, Lulinha e Dilminha. Na tentativa vã de desviar os urros da mudança e também para descontrair o ambiente, o nobre senador Eduardo Suplicy canta ora um rap paulistano ora uns refrões envelhecidos de Bob Dylan. *Texto enviado, e não premiado, para o Concurso Literário da revista piauí do mês de setembro. A revista escolhe uma frase de algum livro ou autor célebre, e lança aos leitores o desafio de encaixá-la num texto fictício. Quer participar do concurso deste mês? Então encaixe a frase "Não posso. Não posso pensar na cena que visualizei e que é real", de Clarice Lispector.

quarta-feira, 2 de setembro de 2009

"O sincero pão com mortadela", agora no Cronópios

Quer ler ou reler "O sincero pão com mortadela", conto vencedor do concurso "Conte um conto e ganhe 500 contos"? É só visitar o Cronópios! Comentário no Café Literário do Cronópios - Outro conto bem bacana do Wilame Prado. Linguagem simples e direta, gostoso mesmo de ler. (postado por Talles Machado Horta em 2/9/2009).

terça-feira, 1 de setembro de 2009

Vou-me embora pra Maringá*

Wilame Prado
No distante ano de 1992, Telê Santana concedia gentilmente entrevista ao batalhão de jornalistas renomados de um dos melhores programas da televisão brasileira, o Roda Viva. Consegui assistir parte daquela entrevista porque a TV Cultura, em comemoração aos seus 40 anos, vem retransmitindo alguns dos muitos momentos marcantes que ocorreram na emissora. Na entrevista, ele disse que, embora lesse tudo quanto é jornal que lhe chegasse em mãos, e inteirinho, diferentemente dos jogadores que só liam a página de Esportes, estava chateado por só haver notícias ruins. Um astuto jornalista disse ao mestre Telê: “notícia ruim vende”. Mas, veja só. Não só de notícias ruins sobrevive este jornal que vos escrevo. Na edição nobre deste diário, a dominical, que custa mais que o dobro do jornal vendido no meio da semana, percebo em destaque, na capa, uma belíssima fotografia de Maringá vista de cima, com o seguinte título: “Plano Maringá 2030 prevê cidade-modelo”. Eis uma boa notícia, num domingão bonito e quente. Notícia esta que alegra aos jovens que querem continuar morando em Maringá, enche de esperança os adultos que já não veem outra escapatória para suas vidas a não ser envelhecer na Cidade Canção e também deixa os velhinhos ainda mais serenos e orgulhosos por morar numa cidade tão bonita. O leitor atento vai dizer que não leu notícia boa nenhuma, pois tudo não passa de um plano para coisas que acontecerão daqui muitos anos. Tem toda razão leitor sabichão, mas a boa notícia mesmo, a meu ver, é que tem gente fazendo planos, traçando metas e cultivando sonhos para nossa nobre Maringá. E planejar, como dizem as pessoas sábias, é uma ótima maneira de se chegar onde realmente se quer. Li atentamente a reportagem do jornalista Edson Pereira Filho, no caderno Zoom. E pude conhecer um pouco mais deste plano para 2030. Achei o projeto coordenado pelo Conselho de Desenvolvimento Econômico de Maringá (Codem) ousado, é verdade. De qualquer forma, fiz o cálculo e, estando vivo até lá, terei 44/45 anos de idade. Caso o plano obtenha sucesso, nós, maringaenses, moraremos numa cidade com no máximo 500 mil habitantes; poderemos andar de trem às cidades da região metropolitana; teremos serviços de saúde, educação e segurança otimizados; e nunca mais precisaremos dar moedas a flanelinhas porque a Guarda Municipal se encarregará de garantir a segurança em ruas e estacionamentos. Diferentemente de hoje, quando sofremos de azia quando nos lembramos do valor pago no aluguel da casa ou do apartamento, em 2030 ficaremos satisfeitos com os preços praticados no mercado imobiliário porque a especulação financeira será restringida, a favor do bem coletivo. E ainda poderemos, caso brote em nós um sentimento bucólico, morar no sítio e imitar nossos avós na lida com plantas e animais. Isso porque, o homem do campo maringaense terá praticamente todas as comodidades que a tecnologia oferece em setores de comunicação ou de transporte, por exemplo. Até com nossas humildes motocicletas 125 cilindradas ou então com nossas magrelas poderemos circular tranquilamente pelas ruas de Maringá. Sistemas de ciclovias e de rolamento de partida dos semáforos para motocicletas também estão previstos no plano para 2030. Espero poder ser feliz daqui a 21 anos. Em 2030, com quase 50 anos, quero sim uma vida confortável. Chega de saudade, como escreveu Tom e Vinicius. Quero estar longe da tristeza, da pobreza e da miséria. Que nunca falte o leite das crianças, o doce das mulheres e a cerveja dos homens. E que o plano para uma Maringá quase perfeita não fique apenas no papel. Vou esperar essas duas décadas e, mesmo se os ventos do destino me levarem para outro lugar, esforçarei-me para voltar à cidade-modelo. Pois, em Maringá terá de tudo; será outra civilização; teremos telefones automáticos e alcalóides à vontade; e também prostitutas bonitas pra gente namorar. E quando estiver muito triste, querendo, ao ver a noite chegar, até me matar, ficarei tranquilo, pois, em Maringá serei amigo do rei, terei a mulher que quero, na cama em que escolher. Manuel Bandeira foi embora pra Pasárgada. E eu vou-me embora pra Maringá, em 2030. *Crônica publicada resumidamente dia 1 de setembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://images.quebarato.com.br/photos/big/7/8/160A78_3.jpg