terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Tristeza de Papai Noel*

Wilame Prado Não recebia décimo terceiro e nem tirava férias. Fazia bicos em construções mexendo cimento, quebrando pedra e martelando parede. No final de ano, ficava difícil para ele ver tanta gente gastando e consumindo enquanto que sua mulher e filhos arregalavam olhos e sentiam desejos de ir às compras. Resolveu, então, fazer mais um bico. Aproveitou a silhueta circular de sua barriga e foi pedir emprego em um shopping da cidade. Conseguiu vaga e não largou tão cedo. Já ia para seu quarto Natal como velhinho de barbas brancas. Só tinha um porém. Aquele ano fora turbulento para ele, principalmente depois que descobriu sua chaga - a diabetes. Nervoso ficou quando viu feridas nas pernas. O álcool fora sua válvula de escape. Perder a família não estava em seus planos, mas admitia estar insuportável. Não se despediu dos filhos no dia em que saíram de casa juntos com a mãe para a casa de sua ex-sogra; preferiu o bar. Emagreceu abruptamente e quase não conseguiu o cargo de Papai Noel daquele ano. A almofada na barriga o salvou. Papai Noel costuma ser um cara legal. Ele também foi. Mas, especificamente neste fim de ano, simplesmente não conseguia sorrir falsamente para crianças egoístas e consumistas que o visitavam.Lembrava dos filhos e se corroia só de pensar que passaria um Natal sem a família. Na véspera, pôs tudo a perder de vez. Em um momento de fúria, depois que uma menina chorou em seu colo dizendo que ele estava fedendo, agrediu o pai dela, que questionou seus vícios e hábitos higiênicos. Estava realmente bêbado. Foi mandado embora. Na noite de Natal, não conseguiu esquecer os pedidos que crianças e jovens haviam feito a ele: videogame, notebook, celular, mp4, mp5. Lembrou-se do dia em que rejeitou um carrinho de fricção como presente de Natal para o filho. Com um sorriso amarelo, quase que de desespero, também se lembrou que o mesmo filho ficara satisfeito e feliz ao ver que o pai tinha improvisado um singelo carrinho com tampinhas de garrafas, caixa de massa de tomate e uns pregos. Sobreviveu ao Natal tristonho. Ano novo, vida nova, ocupação nova. Voltou a fazer bicos, dessa vez catando papelão e latinhas pelas lixeiras de prédios e casas. Pensou, sabiamente, que, com todo esse consumismo do Natal, com certeza lixos e sobras é que não iriam faltar. Mesmo com todas as decepções que sofreu no fim do ano passado, não perdeu o espírito natalino e manteve como parte de seu vestuário a toquinha vermelha com a bolota branca de algodão na ponta. Hoje, em suas andanças sem rumo pelas ruas, às vezes, de sobressalto, pega-se confabulando que, em vez de estar em uma carrocinha cheia de papelão e chicoteando uma mula velha, está guiando renas em seu trenó, lotado de presentes para os filhos. *Crônica publicada no dia 22 de dezembro de 2008 na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná