sábado, 6 de dezembro de 2008

Santa Catarina, protegei seus filhos*

Wilame Prado Naquele domingo pouco abençoado, em que explodiu nos meios de comunicação as notícias sobre as enchentes por vários municípios de Santa Catarina, eu vi duas mães chorarem de desespero. Mas era um choro diferente daqueles de crianças mimadas ou de quando a pessoa sente alguma dor física. Era um choro interno, o choro surreal causado pela dor do coração. Mães com os braços atados, querendo ir voando imediatamente para o Estado vizinho do Paraná e trazer a prole debaixo das asas, querendo oferecer um bom jantar, banho quente e muito carinho para os filhos - ilhados num mar de lama, presos em casa, em alguma rua qualquer da cidade de Brusque, sem energia elétrica e sem muito a fazer senão sentir medo, tédio e saudade das mães. Naquele domingo mesmo, esses filhos foram resgatados pela Defesa Civil, de barco, e tiveram de abandonar a casa, financiada com muito suor. Mas, pelo menos, a querida Luna, uma cadela carinhosa, pôde também sair da vida aquática juntamente com seus donos. Depois de uma breve estadia em apartamento de amigos (nessas horas, quem mora em prédios agradecem até pelos pagamentos mensais do condomínio), com o sumiço vagaroso de toda aquela água marrom, voltaram para o aconchego do lar, intacto. Uma semana se passou e outro domingo (pé de cachimbo, o cachimbo é de ouro...) nasceu para todos. Os paranaenses puderam acordar com um dia radiante, daqueles típicos de se fazer um churrasco, assistir a penúltima rodada do Brasileirão e torcer para o São Paulo não levar o caneco. Mas os pobres filhos de Santa Catarina acordaram abatidos, com ressaca de mais uma madrugada chuvosa. Mesmo assim, contaram pelo telefone, ainda puderam dar uma volta pelas ruas e ver o estrago, o caos, o feio e o resto de ruas, avenidas e casas que, outrora, ainda podia ser chamado de cidade. O desejo das mães é para que os filhos esqueçam suas vidas em Santa Catarina e voltem ao Paraná, Estado abençoado, vacinado, até então, contra grandes desastres naturais e, por sinal, muito acolhedor – cerca de metade de todas as doações enviadas aos catarinenses foram feitas pelos pés vermelhos. Mas os filhos não podem voltar, infelizmente. Estão conquistando seus objetivos profissionais por lá e, assim como aquelas pessoas que insistem em ficar em suas casas, mesmo sabendo que correm o risco de morrer soterradas por um desabamento, não deixarão seus lares para recomeçar do zero em terras paranaenses. Portanto, mães sofredoras, apeguem-se ainda mais na fé cristã e rezem por Catarina de Alexandria (santa padroeira daquele Estado). O imbróglio entre ela e o São Pedro, que insiste em regar as terras catarinenses, já está deixando todo mundo louco. No Natal, com muita esperança, aguardaremos os barrigas-verdes para confraternizarmos e esquecermos um pouco as dificuldades da vida. *Crônica publicada dia 2 de fevereiro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: http://br.geocities.com/santacatarina2000santos/imagem/catarina33.jpg