sábado, 29 de novembro de 2008

Malvada e correta consciência*

Wilame Prado Quem deve, tem vontade de correr, sem parar, sem nem olhar para trás. Tem desejo de se esconder, eternamente, embaixo de uma coberta, bem grossa. Mas não estou falando sobre dever uma pinguinha no bar, ou alguns pães na padaria. Não é dever uma grana para o colega, assim como eu devo R$ 200 para o Vinícius (um dia eu pago). A dívida que estou falando é muito além de qualquer aspecto material, não envolve dinheiro e nem troca de favores. Estou me referindo à dívida que se tem para com a consciência – uma malvada, porém quase sempre muito correta. Acho que a conheci, a malvada, muito pequeno, talvez quando me toquei de que fazer necessidades fisiológicas na calça era incorreto. Desde então, ela, a consciência, a que não mede as palavras, a que diz sem medo a verdade para o seu eu, vem atuando ativamente, fazendo com que, muitas vezes, eu não tenha coragem de fazer algo. O arrependimento (irmão da consciência) pode, a qualquer momento, chutar as bolas da dignidade. Um dia, eu pratiquei um roubo. Devia ter uns onze anos, morava em São Paulo (capital) e estava, gradualmente, sob influência de amizades suspeitas, prestes a me tornar um moleque travesso, do tipo que gosta de caçar briga com a turma da rua de baixo, que fuma escondido em casarão abandonado e que taca camisinha cheia de urina no carro do delegado vizinho. Chega de detalhes e voltemos ao maldito roubo. Era uma noite quente de verão. Devia estar quase na hora de começar a novela das oito, mas eu e um monte de amigos ainda estávamos na rua, de pés sujos e fazendo alguma traquinagem. De repente, e isso era normal naquela época, faltou energia elétrica em todo o bairro. Então, no auge da minha insanidade, pensei que, naquele breu, se pegasse uns picolés no freezer da Kibon, na padaria da esquina, o dono português e bigodudo não perceberia. Realmente, o português não percebeu. Mas o cearense, que estava no balcão, sim. Saí correndo feito louco para casa, com medo de apanhar. O magricela e testudo do balcão gritava "devolve o sorvete moleque", mas já era tarde. A vergonha de assumir o crime não me permitiu voltar atrás. Na correria sem fim, meus calcanhares encardidos batiam em minhas nádegas. Por fim, e para não ficar com a prova do crime em mãos, joguei os picolés para as únicas duas meninas que brincavam com a gente na rua. Cheguei em casa branco. Minha mãe estava na calçada, conversando com a vizinha, já que, sem energia elétrica, era impossível de assistir a novela. O calor era insuportável e ainda não tinha tomado banho. Mesmo assim, suado e sujo, fui buscar abrigo debaixo das cobertas. Que sufoco. Como a padaria ficava na rua de casa, o funcionário me reconheceu. Então, ainda na mesma semana, em pleno almoço, na frente de toda a família, minha mãe me obrigou a pedir desculpas e a pagar o valor dos picolés surrupiados na noite escura. Ao entregar a grana ao cearense na padaria, a vergonha (irmã da consciência e do arrependimento) veio vestida de vermelho nas maçãs do rosto. Naquele dia, ao roubar os picolés, não liguei para as advertências da consciência. Só que tinha me esquecido de um detalhe: ela, a malvada, nunca morre e, depois do ato consumado, vem bruta e pesada. Tivesse lido "Crime e Castigo" antes disso, teria consciência (no sentido de conhecimento) do quanto a consciência (no sentido de moralidade) pesou na vida de Rodion Românovitch Raskólnikov. *Crônica publicada dia 25 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://palavraguda.files.wordpress.com/2007/09/dostoievski.jpg