sábado, 22 de novembro de 2008

Sobre amor e piano*

Wilame Prado Dinheiro era o que precisava para conseguir por em prática um sonho que contaminava seus pensamentos diariamente, antes de dormir, desfocado no trabalho ou fumando cigarros. Em lágrimas, vendeu a humilde moto 125 cilindradas e ajuntou um pouco de dinheiro optando em comer prato feito à R$ 3,50 em vez de almoçar em restaurantes que cobram por quilo. Ainda vendeu o velho violão Eagle preto, de cordas de aço, e conseguiu outro punhado de reais. Tinha, agora, certo ordenado na poupança. Tinha também lembranças de momentos bons – vento na cara, velocidade, mão dela em sua cintura, mentiras para ele mesmo de que estava pilotando uma Harley, ovo frito e bisteca de sexta-feira, canções românticas mal cantadas e tocadas, dedicadas a ela. Nostálgico, quase se arrependeu do que fez, mas o amor e a vontade de surpreender o impulsionava. Digitou no Google “Piano”, em aspas para apurar melhor a pesquisa. Sem norte, acabou pagando fortuna em um Fritz Dobbert, castanho escuro, usado, sujo e quebrado, de uma velha professora de piano (igual àquelas que sempre têm nos filmes) que queria se desfazer do instrumento musical (móvel da sala) para comprar passagem de ida sem volta rumo à Europa, em casas de tias-avós. Acabou ganhando, de brinde, um tapete mofado para que o instrumento não riscasse o chão. O segundo e maior desafio, que também custaria dinheiro, era o de aprender a tocar piano. Tarefa árdua para alguém que “malemá” tirava um Raul Seixas no violão e tinha dificuldades atenuantes para conseguir tocar qualquer canção de Chico Buarque. Teve de voltar ao prato feito por mais algum tempo para conseguir pagar as duas aulas semanais, de uma hora cada, com uma outra senhora que parecia a dos filmes. O terceiro e último desafio, que, lógico, também custaria dinheiro, era o de viajar a praia, nem que fosse um final de semana, para finalmente realizar seu sonho, cultivado há anos. Dessa vez, teve de fazer empréstimo e matou saudade do velho e bom boleto bancário. Enquanto isso, conseguiu a façanha de esconder da amada, não só sua falta de talento, como também o próprio piano. Amoitou-o em república de amigos meio loucos, meio beberrões, que nem se importavam quando, em madrugadas a fio, ele insistia em tentar tirar, irritantemente, um “Dó-Ré-Mi-Fá Fá-Fá Dó-Ré Dó-Ré Ré-Ré”. Com cerveja em mãos, os amigos sempre pensavam que estava tocando a música da propaganda do Danoninho. Em um agitado sábado de fim de ano, em uma praia movimentada, crianças tiravam sarro e velhos se assustavam ao vê-lo deitando um velho tapete mofado nos grãos de areia fofa, a alguns metros de distância de sua amada, que tomava sol, distraída, com casal de amigos. A multidão começou a se formar quando um sujeito encostou uma camionete à beira da praia e, com ajuda de alguns salva-vidas, descarregou o velho piano Fritz Dobbert sobre o tapete. Suado, não apenas pelo nervosismo, mas também pelo sol de meio-dia escaldante, começou, desajeitado e errante, a tocar uma canção de amor - a mesma que fez trilha sonora para o primeiro beijo do casal, na cantina da universidade. Continuou errando, mas nem se importava mais, pois logo viu que ela reconhecera a música e, correndo, aproximou-se do piano, empurrando gente, enxugando lágrimas. Ao final, pediu-a em casamento e, ao ver tamanho sorriso de criança em seu rosto, chorou de alegria e de alívio por finalmente ter conseguido realizar seu sonho. Ao som de palmas da multidão, beijaram-se. *Crônica publicada dia 18 de novembro na coluna Crônico, do jornal O Diário do Norte do Paraná
Crédito da imagem: http://www.vendobrazil.com.br/sys/thumbs/TIPO_CLASSIFICADO-BLOB_IMAGEM_3-122-500-350.jpg