terça-feira, 4 de novembro de 2008

Vestida de cetim*

Wilame Prado Estava sem nada para fazer. E já que era de graça, foi ao show no parque de exposições, naquele domingo. O show estava bom, até que começou uma confusão sem tamanho. Ouviu disparos ocos, várias pessoas se arrastando ao chão para não ser atingidas, e ele, estático. Um suor frio escorreu de sua costeleta quando viu, bem ao seu lado, um rapaz, desconhecido, sangrando e estirado no chão. Foi embora do parque com aquela sensação estranha, que mescla o alívio e o medo. A partir daquele momento, tinha a certeza de que para morrer basta estar vivo. Olhou para cima e quase fez uma oração, mas desistiu ao ver a negritude de um céu que prenunciava chuva, e das fortes. Pela madrugada, já em seu apartamento, não conseguia dormir, só pensando na morte que passou ao seu lado. Lembrou da canção “Canto para Minha Morte”, de Raul Seixas e Paulo Coelho, e cantou o refrão, na sacada: “Vou te encontrar vestida de cetim, pois em qualquer lugar esperas só por mim. E no teu beijo, provar o gosto estranho, que eu quero e não desejo, mas tenho que encontrar. Vem, mas demore a chegar. Eu te detesto e amo morte, morte, morte, que, talvez, seja o segredo desta vida.” Ainda na sacada, foi acender o último cigarro do maço. O vento gelado apagou o também último palito da caixa de fósforo. Foi buscar o isqueiro na cozinha quando, já na sala, ouviu um estrondo enorme. Parecia um avião caindo, mas não era. A sacada, que a poucos segundos estava sendo habitada por ele, agora, transformara-se em monte de concreto no chão, juntamente com outras quatorze sacadas do prédio, que caíram em efeito dominó. Lá fora, sem cigarro e sem sacada, olhou mais uma vez para o céu, negro que só. Seria o fim dos tempos? Bom. Pelo menos, seria o fim de uma possível noite de sono. Já no outro dia, com sono, mas com a cabeça no lugar, lembrou-se de que milagrosamente havia conseguido escapar da morte por duas vezes. Estaria ela, a morte, vestida de cetim, procurando-o? Resolveu, então, agradecer a Deus e se benzer. Como prova de sua gratidão, queria doar dinheiro para a igreja de seu bairro. Aproveitou a hora de seu almoço para ir a um banco retirar a grana, ali no centro. Na fila, distraído, pensando o que seria dele sem uma sacada para fumar, quando deu por si, estava no meio de um tiroteio, que acabou ferindo funcionários do banco, bem próximos a ele. Antes de ir a outro banco pegar uma quantia de dinheiro, agora, maior para doação, sentou-se num banco de uma praça. Não conseguia entender o seu karma. Não sabia se era sortudo por ainda não estar morto, ou azarado, por sempre estar nos lugares errados, nas horas erradas. Doou o dinheiro à igreja ainda naquele dia. Não dormiu naquela noite também. No domingo e na segunda-feira, fora personagem de três tragédias em Maringá. Na terça-feira, ficou, meio que inconscientemente, esperando mais alguma tragédia. Em sua mesa, quando o telefone tocou, pulou e gritou de susto. Realmente estava abalado. Mas nada aconteceu. Finalmente, conseguiu dormir, pois acreditou que, ao doar o dinheiro, estava sendo protegido por uma força divina. Mas, na quarta-feira, pela tarde, com aqueles ventos de até 70 km por hora, de arrancar árvores e cabelos, voltou a sentir medo da morte. Estaria ela, a morte, vindo buscá-lo em forma de desastres naturais? Ao sair do trabalho, vocês podem até imaginar, assim como ele, que, com certeza, uma árvore cairia justamente em cima de seu carro. Quando ele olhou para seu Uno Mile (mais da concessionária do que dele porque ainda faltavam 29 prestações do financiamento) intacto, lindinho, estacionado, sem um arranhão, ajoelhou, no meio da rua, para agradecer. Levantou as mãos aos céus, no meio da chuva mesmo, molhando-se inteiro, e proclamou sua liberdade, pois a morte, pensava, não estava mais em sua cola. Foi embora todo feliz. Comeu no Mc´Donalds com a namorada. Telefonou à mãe para contar os fatos insólitos da semana. Dormiu como um anjo. Acordou como um bebê. Foi trabalhar. Estacionou o carro na mesma vaga do dia anterior, para dar sorte. Atravessou a rua. Escorregou em um galho de árvore ainda não recolhido da tempestade de ontem. Bateu a cabeça no meio fio. Beijou a morte, vestida de cetim. *Crônica narrada no programa radiofônico RUC Revista no dia 1 de novembro e, resumidamente, publicada na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 4 de novembro
Crédito da imagem: http://umaestrelanoceu.files.wordpress.com/2008/07/a-morte.jpg