quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Quero ser pipoqueiro*

Wilame Prado Uns querem ser médicos, outros advogados. Os aventureiros almejam a profissão que tem como função apagar o fogo ou pegar o ladrão. Já os influenciados pelo meio caótico, viram bandidos, mesmo às vezes não querendo. A garotada desde que nasce ganha uma bola, uniforme dos times de pais, avós e tios e são praticamente manipulados a gostarem de futebol e quererem ser jogadores quando crescerem, afinal, é o que o brasileiro faz de melhor. Alguns filmes fazem com que a violência seja vista como algo bom e, esmurrar ou dar uma voadora em outra pessoa tornam-se atos heróicos. Para não esquecer das mulheres que, quando são pequenas e ingênuas, vangloriam o ato de cozinhar, passar, lavar, cuidar de bebês e outras tarefas. Elas devem lembrar dessa época e se acharem loucas, pois hoje tudo isso é um pesadelo para elas, que tanto desejam um espaço no mundo profissional e repudiam serem “do lar”. O senso comum foi descrito acima e, completando o raciocínio, percebemos ao longo dos anos que passam e nos deixam mais próximos de sermos adultos trabalhadores que diversos empecilhos acabam travando nossos sonhos rosas de criança: dinheiro, orgulho, status, pais manipuladores, sociedade cretina, incapacidades físicas, psíquicas e cognitivas. Posso exemplificar com a minha própria historia. O primeiro sonho foi ser boleiro. Depois, astro de rock. Com a percepção de que o mundo é materialista e fútil, quis ser dentista porque todos o respeitava e o meu tinha um carrão! E, por final, jornalista e escritor, por razões sentimentais e quixoteanas. Mas o que me levou realmente a escrever sobre tal assunto é um tanto quanto estranho. Isso porque, um dia destes, voltando para casa, olhei ao meu redor nas ruas e percebi que a sociedade é composta por diversos trabalhadores que nunca sonharam fazer o que fazem, mas fazem porque não há mais nada a fazer e ainda agradecem por não se enquadrarem no elevado número de pessoas que não fazem nada por ninguém dar a elas o que fazer. E, analisando as profissões que me aceravam naquele momento, me deparei com o “tio que vende pipoca e doces em frente ao colégio, mais conhecido como pipoqueiro, doceiro, baleiro ou simplesmente tio”. Senti um inveja saudável de todo aquele status que o pipoqueiro tinha para com as crianças gulosas e com gana por paçocas ou pipocas. Pela primeira vez na vida sonhei em ser um pipoqueiro. Alguns podem achar que estou desmerecendo a profissão, outros estão me chamando de irônico. Não importa, tentarei me justificar. A nostalgia tomou conta de mim quando olhei para o senhor dedicado a mexer a pipoca. O agradável cheiro de manteiga, bacon e pipoca na panela ajudaram também. Quando eu era criança, todas as moedinhas que sobravam dos trocos de papai iam para o pipoqueiro. A vida é tão doce quando somos crianças! Confesso que adorava ir as aulas, pois lá eu tinha colegas, as primeiras paqueras, os desafios da vida de criança e o pipoqueiro. Quem é que nunca comprou uma pipoca, um amendoim ou um doce de um pipoqueiro? E em todos os eventos, sejam eles esportivos ou artísticos, o nosso trabalhador fazedor de cheiros e gostos deliciosos está lá. Até Arnaldo Jabor, e isso ele conta em algumas crônicas, foi influenciado pelo pipoqueiro safado, o Bené! Que eu saiba, não há sindicatos nem união entre os pipoqueiros. Não há homenagens no colégio e, para ser sincero, desconheço o “dia do pipoqueiro”. Mesmo assim, ainda sonho um dia em ser um pipoqueiro. Talvez quando me aposentar e ficar entediado em casa tentando escrever um romance e não conseguir. Comprarei um carrinho, doces, milho de pipoca e me fixarei em um colégio no qual ainda não haja um companheiro de trabalho por lá. Espero que esse colégio seja onde meus possíveis netos estarão estudando para que eu dê pipoca a eles e aos amiguinhos deles. Meu único medo é de que esse mundo cruel e destruidor de valores acabe corrompendo também meus netos, fazendo com que eles tenham vergonha de dizer que o avô deles é um pipoqueiro. *Crônica publicada resumidamente dia 28 de outubro na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná Crédito da imagem: www.jcvicttor.com.br