domingo, 12 de outubro de 2008

Arrependimentos da infância*

Wilame Prado Eu quero voltar a ser criança! Chega de responsabilidades. Chega de trabalho. Vou pegar o relógio do tempo, atrasar alguns anos e jogar as pilhas no mato. Vou voltar à época em que comia sucrilhos de manhã assistindo pica-pau, Tom & Jerry, Ursinhos Carinhosos e Fantástico Mundo de Bob. Só que, dessa vez, tudo vai ser diferente. Vou fazer todas as lições de casa, prometo mãe. Não vou jogar bola no corredor e assim manchar as paredes. Nem vídeo-game a madrugada inteira para depois, no outro dia, colocar alho debaixo do braço, simular uma febre e assim não ir à aula. Eu prometo pai. De terça e quinta, darei o sangue na escolinha de futsal. Quem sabe, no próximo jogo, eu consiga vaga no time titular. De quarta e sexta, vou sorrindo para as aulas de natação, sem reclamar do cloro da água. Prometo a vocês. No colégio, vou tomar coragem e entregar aquela cartinha de amor, em que tanto me dediquei caçando palavras difíceis no dicionário, para a Gabriela, minha primeira namorada. Assim, acho que terei mais chances de não ser trocado por um moleque três anos mais velho do que eu. Sei como deve se sentir, professora Roseli. Um aluno igual a mim, que até tira notas e até faz umas redações legais, não deveria bagunçar no fundão da sala. Saiba que isso não se repetirá. Sentarei na primeira carteira e não vou desperdiçar folhas de caderno com bolinhas e aviõezinhos. Juliana, minha querida irmãzinha, pode ficar despreocupada. Nunca mais vou mexer nas suas coisas. Mas, só uma pergunta: quem é Alexandre que te mandou um cartão apaixonado? Poxa vó! Fico tanto tempo sem ver a senhora e quando chego em sua casa, só quero saber de tomar seu iogurte caseiro e brincar com os primos de balança caixão na lajota. Isso não está certo. Senta aqui do meu lado. Conta para mim como foi que você conheceu o vô. Ele sempre foi bravo assim? Aposto que se encantou pelos olhos verdes dele. Mãe, dessa vez, nem toquei na lata de leite condensado para fazer brigadeiro no microondas. Pode preparar seu bolo tranqüila. Mas, posso rapar a panela que a senhora utilizou para fazer a cobertura, pelo menos? Poxa mãe, o bolo é pra mim! Só porque é o Dia das Crianças! Não precisava. Até presente você comprou! É muita bondade sua! Obrigado! Mas, espera um pouco: o que eu vou fazer com um este monte de pilhas recarregáveis que você me deu? Está bem. Já sei. Vou botar pra funcionar o relógio do tempo de novo. Afinal, você tem razão, ninguém merece uma criança tão sem graça como eu. *Crônica narrada, em homenagem ao Dia das Crianças, dia 11 de outubro no RUC Revista, programa de rádio que vai ao ar todos os sábados, a partir das 11h
*Crédito da imagem: http://eupodiatamatando.com/wp-content/uploads/2008/05/bobbysworld.jpg