terça-feira, 2 de setembro de 2008

Disputa de olhares*

Wilame Prado
Eu não consigo entender porque aquele garoto olha tanto para mim. E de uma maneira descarada, sem escrúpulos, deixando claro a todos da sala de espera do dentista que, a qualquer momento, poderei ser queimada por chamas de um olhar em brasas ferventes. Embora nunca tenha dificuldades em arranjar paqueras, não me considero bonita, apenas sei me vestir e me perfumar. O ditado que diz que gente rica não fica feia é correto, afinal, por trás dessa minha maquiagem, desse meu perfume importado, da roupa de grife e cheia de decotes, há apenas uma mocinha magra, com marcas de expressão, causadas por anos de cursinhos pré-vestibulares. E medo, muito medo. O que será que tanto atraiu o rapaz, que não pára de me olhar? Será o decote, mostrando a saliência dos meus peitos de silicone? Ou será o corte baixo de minha calça jeans, que deixa a mostra meus delicados e raros pelos desoxigenados, contrastado com o meu bronze artificial? Só pode ser algo relacionado a sexo, pois os homens só pensam nisso, mesmo quando dizem ‘eu te amo’. O rapaz até que não é de se jogar fora. Tem um rostinho de bebê, não é musculoso, mas tem boa postura. E não pode ser pobre porque estamos no dentista mais caro da cidade. O problema é que estou me sentindo mal com essa obsessão do seu olhar. Parece que tem algo de errado comigo, do tipo papel higiênico grudado no bico do escarpam ou aquelas malditas rodelas de suor que insistem em aparecer na região das axilas. Já sei! Vou ao banheiro e faço uma vistoria geral, só assim ficarei aliviada e poderei observar se o seu olhar vai me acompanhar quando eu levantar e andar. Como sou burra! É claro que ele vai olhar - os homens averiguam todos os requisitos que uma mulher tem e está faltando ele ver minha bunda. Confesso não gostar dela porque acho que falta um pouco de sincronia entre as duas nádegas. Sou profundamente complexada por isso e há dois anos faço terapia. É melhor não levantar. E se ele vier conversar comigo? Se eu ficar encabulada, vai dar impressão de que eu não sou acostumada a receber esses tipos de cantadas baratas. Mas se eu agir de maneira natural, ele pode achar que sou fácil e que adorei o fato de ele ter vindo conversar comigo. Um chopinho mais tarde na praça de alimentação do shopping cairia bem para tentar esquecer o crápula do Edu, meu ex-namorado, que só me procura para falar do som novo que colocou no carro ou dos centímetros que seu braço cresceu. Como é tolo. Está demorando tanto para eu ser atendida, mas bem que ele podia ir primeiro para não me ver de pé. Qualquer coisa, pergunto para a secretária o seu nome e o que ele faz, só para matar a curiosidade. Nossa! A perua que entrou no consultório chamou atenção de todos com a sua extravagância. Acho que colocou mais gramas de silicone no peito do que eu. Não sei para quê passar tanto perfume só para ir ao dentista. E, em plena luz do dia, com esse lápis no olho. Será que devo informá-la de que aqui não é balada? Que descarada. Está comendo com os olhos o garoto que estava olhando para mim. Só falta dar para ele de uma vez, aqui mesmo, no meio do consultório. Perua. E ele já nem olha mais para mim, cachorro. Fiquei às traças e agora parece que os dois riem da minha cara por telepatia. Eu sempre digo para as minhas amigas que homem é tudo igual, só pensa em bunda mesmo! Tenho que conversar com meu cirurgião plástico. Com meu psicanalista também. Ai que saudade do Edu. * Grande parte desta crônica foi publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, dia 2 de setembro, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://imagem.vilamulher.com.br/temp/maquiagem-trabalho-050508.jpg