quarta-feira, 27 de agosto de 2008

A arte de lavar louças*

Wilame Prado

Lavar louças é, também, um tipo de arte. Enquanto ouço o programa Garagem, dos caros Thiago Soares, Alexandre Gaioto, Lizandra Gomes e César Miguel (não conheço, mas deve ser gente boa), vou passando, suavemente, a bucha amarela e verde (lembrei da atuação brasileira na Olimpíada) em talheres, pratos e copos. Existem diferentes técnicas para lavar louças - eu prefiro ensaboar grande parte da louça suja, até que se esgote o espaço mínimo da pia torta do ap, para depois lavar de uma vez. Assim, tenho a impressão de que estou gastando menos água. Lavar louça, essa é a minha principal função doméstica aqui em nosso lar, meu e da patroa, a Denise. Bem que gostaria de ser um marido melhor, mas forças maiores me impendem de realizar troços do tipo passar pano no chão, varrer, passar roupa e lavar banheiros. São trabalhos muito maçantes, estressantes e demorados. Lavar louça é diferente. É a arte de ensaboar, lavar, enxugar e guardar enquanto um rádio ligado te distrai e mescla seus pensamentos intermitentes com músicas de bandas independentes.

Pô, bem que eu queria ter tido uma banda, mas minha voz não ajudou e a dedicação no violão foi miúda. Tivesse eu uma banda, o nome seria Por Escrito (isso eu inventei agora), que tocaria um rock meio indie. Eu e meus parceiros musicais nos vestiríamos da mesma maneira que pessoas que não têm banda; nossas tatuagens seriam iguais as de pessoas que não têm banda; nossos cabelos seriam cortados de acordo com a necessidade e conforto; mas o nosso som seria solamente nosso, receberia críticas de invejosos e de pessoas que realmente entendem de música e elogios banais de amigos que não têm coragem de criticar; mesmo assim, seríamos felizes e tocaríamos de graça, apenas para beber de graça nossas Antarcticas de garrafa, no Tribo´s Bar, no Pub Fiction Bar (nem sei se é assim) e também no elogiado A Base. Cada garoto da banda teria sua garota, que acompanharia a Por Escrito para onde quer que fosse. Um da nossa banda teria poses de galã e conseguiria a façanha de ficar com uma menina por show, meio que por religião. Assim, seríamos felizes e torceríamos para o pessoal do Garagem nos convidar a participar de um programa deles.

Tentaríamos, em vão, gravar cd, mas nos contentaríamos com comentários de adeptos de nosso som no myspace. Mas, em pouco tempo, a banda, que só estava por escrito, terminaria, como que num passe de mágica. Igual aos escritos de lápis no caderno, que são apagados pela borracha, a "Por Escrito" desapareceria. Desmancharíamos a banda sim, mas não porque um comeu a mulher do outro e nem porque um passou a curtir sons diferentes, migrando para uma banda "concorrente". Embora estivéssemos quase acreditando que, sim, sabemos finalmente tocar nossos instrumentos musicais, por outro lado, a roda viva da vida seria cruel e nos obrigaria a comprar diplomas por meio de notas e trabalhos acadêmicos. Ficaríamos vinte anos sem nos ver. Apenas um da banda resistiria a tudo e a todos e, hoje, com 40 e poucos anos, tocaria Chico Buarque em barzinhos, e ainda curtiria tomar Antarctica.

Eles se emocionariam quando do reencontro num bar sujo em Curitiba; fariam mil planos para voltarem com a banda Por Escrito, prometeriam largar filho e mulher para botar o pé na estrada com uma moto Harley Davidson, criticariam o mundo e estariam sujeitos a consumir um pouco menos produtos industriais. Mas, infelizmente, tudo ficaria no discurso, nem escrito ficaria. Eles se despediriam, trocariam número de celulares, tentariam, em vão, um novo encontro, e, finalmente, nunca mais se veriam.

A roda viva da vida ataria os braços dos amigos da banda. E, assim, um continuaria vivendo em bares de noite, tocando mpb, e dormindo de dia, e o outro trabalhando feito louco em uma porca redação de um jornal comprado por políticos para proporcionar conforto à mulher e filhos. Vira e mexe, ficariam pensando onde foram parar os demais integrantes da banda.

Saudade, mas muito medo de pensar demais e rasgar as velas dos barcos de vez.

O programa de rádio chegou ao fim, juntamente com a louça suja, que agora se transformou em limpa no escorredor. E, assim como aquela água suja, contendo restolhos de alimentos, vai-se pelos encanamentos da pia, as viagens de pensamentos longínquos, por um instante, fogem da mente. Mas não tardará para outra louça suja se acumular e fazer com que eu pratique novamente a arte de imaginar futuros ilusórios, ou não.

*Crônica na íntegra. Parte dela, publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 26 de agosto, na coluna Crônico.