quarta-feira, 20 de agosto de 2008

Sonho consumista*

Wilame Prado Sonhei, certa noite, que pegava um peixe grande, amarelo-limão, muito bonito. Desesperado, não sabia tirar o peixe do anzol, o que me causou frustração e certa aflição de ter que acordar daquele sonho sem os louros de uma possível vitória, a do homem contra o animal. Fui lembrar que tinha sonhado só no final daquele dia e me chateei, ainda mais, pois pensei que pudesse ter jogado no bicho. Dizem que quando se sonha com animais, a jogatina é boa. Mas, além de não saber tirar o anzol, não tenho a mínima idéia de como participar deste jogo ilegal e muito menos se o peixe é um bicho que pode ser apostado. Depois descobri, aliviado, que o peixe não fazia parte do seleto grupo de 25 animais que compõe o jogo. Então, na outra noite, o sonho não foi com bicho, nem com números, foi com gente. Chico Buarque me concedia, gentilmente, uma carona em seu táxi amarelo para não sei onde. Ainda bem que sonhos não são tão explicáveis, pois não conseguiria dizer o porquê dele estar dirigindo um táxi e ainda amarelo. Só sei que aproveitei a deixa para conversar sobre mulheres com o Chico. Meu roteiro de perguntas era baseado em letras de músicas, por ordem de curiosidade. Só me esqueci de perguntar a ele sobre a canção "Outros sonhos", gravada em seu último cd, "Carioca". Fiquei intrigado com o trecho que diz assim: "...maconha só se comprava na tabacaria, drogas na drogaria". Em outra parte, ele diz: "...de mão em mão o ladrão, relógios distribuía. E a polícia já não batia". Participar de um show de Chico, ainda é um sonho grandiosamente distante para mim, mas pelo menos pude receber alguns toques para entender melhor o universo feminino, complicado que só. Na mesma semana, sonhei também com o filme "O Poderoso Chefão". É que, recentemente, foi lançado um novo box chamado The Coppola Restoration. Sendo eu um completo aficionado por filmes clássicos, quase cai da cadeira quando vi em um site uma promoção do box, com entrega grátis em menos de uma semana. Fiz em três vezes no cartão da patroa e ainda ganhei um baralho personalizado do filme, que já está sendo visado por amigos meus, colecionadores de produtos com a marca "The Godfather". Adiantei a eles que, por menos de R$ 50, o baralho não sai de minhas mãos. O peixe, que ainda não sei pescar, fica para uma próxima. O jogo, que ainda não sei jogar, substituo por uma "fezinha" na loteria federal. O Chico, que ainda não ouvi cantar ao vivo, por enquanto vou lendo seus livros e ouvindo suas músicas em mp3. Mas o sonho alcançável, mesmo sendo consumista e ilusório, como o de adquirir um produto da indústria cultural, faço questão de realizar. Pelo menos assim, distraio-me assistindo a saga da Família Corleone enquanto o sono, e os demais sonhos, não vêm. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 19 de agosto, na coluna Crônico Crédito da imagem: Lojas americanas