sexta-feira, 15 de agosto de 2008

Entre viajar e amar*

Wilame Prado

Novamente, uma viagem vai nos separar por alguns dias. O intervalo de tempo em que não nos veremos, não nos tocaremos, não nos perguntaremos "como vai, tudo bem?", parece pequeno. Vinte e quatro horas vezes três dias resultam em apenas 72 horas. Mas o que pode acontecer durante esta eternidade? Um corte no braço, uma dor de barriga, uma tristeza passageira, uma choradeira pela saudade de nossos pais - nessas horas, sempre estamos um do lado do outro para enxugar as lágrimas alheias. Pode acontecer tudo ou, simplesmente, nada. Talvez esta palavra, "nada", quase sem significado e tradução, represente o vazio que nos cerca quando estamos longe um do outro. Mas o fato é que a estrada continua, a vida é um constante aprendizado e, teoricamente, estarei em busca do aperfeiçoamento profissional e pessoal, em busca de minha formação. Porém, algo mais intrínseco, e até meio irracional, nos faz pensar que nenhum conhecimento, nenhuma lição, nenhum aprendizado, pode ser maior do que a sublime sensação de ficarmos juntos, de vermos com os próprios olhos que, sim, estamos bem e sorrindo, embora as contas estejam por pagar sobre a mesa, embora a louça esteja por lavar na pia, embora as alianças ainda não tenham sido trocadas de mãos. Sim, estamos felizes, contando, um para o outro, as peripécias ocorridas em nossas rotinas diárias. Seguir viagem. Eu preciso disso, preciso mudar o foco, enxergar por outros prismas. Pois, a cada viagem, percebo o quanto a vida nos ensina, o quanto é importante nos deslocarmos da mesmice, o quanto uma simples conversa com o guardador de malas de um hotel pode nos ensinar até mais do que os cursos e treinamentos com profissionais da área motivacional. Gosto de sair da rotina; gosto de raspar a cabeça sem mais nem menos; gosto de mudar os caminhos que me levam ao lar. Mas quero dizer também que ficar longe de você não é tarefa das mais fáceis. É como perder a proteção, é como não usar capacete em alta velocidade, é como velejar em alto mar, sentindo saudades do porto seguro. Sinto muito em ter de ficar os 4.320 minutos desses três dias longe de ti. Eu sei, são muitos. Mas, quem sabe se olharmos por outro ângulo (sempre existe um lado positivo), todo esse tempo seja pouco para quem quer, e vai, ficar juntos para a vida toda, esperando a velhice, aguardando o momento em que a vida será calmaria, em que enjoaremos de tanto olharmos para as nossas rugas. E, em última instância, caso a dor pela distância seja muita, tiro a pilha dos relógios, quebro as ampulhetas, paro o tempo e te levo a um lugar onde os sinais de celulares não nos alcançam, para, assim, ficarmos juntos por todo o fim, para a eternidade do tempo infinito, abraçados.

*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 12 de agosto, na coluna Crônico

Crédito da imagem: Olhares - Fotografia On Line