sexta-feira, 18 de julho de 2008

Por uma rotina mais amena*

Wilame Prado A vida não é tão difícil quanto parece e tentar controlar em demasia a rotina diária nem sempre é a melhor escolha. Aprendi isso com meu amigo Malwee. Ele é bem tranqüilo, tranqüilo até demais, e creio que, justamente por isso, tenha mais qualidade de vida do que eu. Resolvi desacelerar um pouco o relógio alucinante da correria do dia-a-dia quando, em uma manhã de sol, de um dia típico de semana, visitei a casa de Malwee. Nesta manhã, que se fosse outra manhã estaria eu a todo vapor correndo atrás de alguma tarefa, do tipo pagar o aluguel ou consertar a motocicleta, ou ainda dormindo acordado, assistimos a um curta-metragem de um diretor tcheco, de cujo nome não tenho ciência, muito menos certeza de que realmente sua nacionalidade seja essa. Durante oito minutos, com olhos vidrados na tela da tevê, eu e Malwee vimos um relógio que coordenava todo um sistema em que a relação social se baseava em diferenciações de pedras, que iam brotando do próprio relógio. Difícil entender, só assistindo. A nossa principal observação, depois de ter assistido ao curta, é que, na verdade, sempre quando assistimos ou lemos algo, tentamos criar representações e significados para a obra; enxergamos críticas à sociedade vendo o simples movimento de pedras se quebrando e se multiplicando. No mesmo dia, por coincidência, abri o livro "Glauber Rocha - Esse Vulcão", de João Carlos Teixeira Gomes, na página que tinha uma citação do diretor italiano Federico Fellini. Ele dizia ficar surpreso com o que as pessoas conseguem enxergar em seus filmes. De repente, deu fome. E, como se não bastasse a situação inédita de assistir a um curta-metragem em plena manhã, o almoço com Malwee também foi exclusivo. Isso porque, no jardim em frente à sua casa, ele planta alface de dois tipos: lisa e crespa. Além disso, lá também não tem fogão. Ele cozinhou um macarrão, sem molho mesmo, apenas com sal e água, com um fogo improvisado em meia latinha de cerveja cortada, embebida com álcool. Por incrível que pareça, ver aquele mato colhido se transformar em salada de alface fresquinha, acompanhado de um macarrão (com sabor única e exclusivamente de macarrão) e ainda de restos mortais de um frango de ontem, fez-me crer que não precisa muito mais do que isso para se fazer uma boa refeição. Depois disso, fui viver mais feliz, mais tranqüilo. Sei que tirar o pé do acelerador da corrida enlouquecida da rotina e deitar na rede do sossego muito provavelmente não vai me levar a pódio algum. Mas, dificilmente alguém vai conseguir me convencer de que a vida vivida tranqüila por Malwee, sem muitos relógios e sem agrotóxicos na verdura, não seja melhor, mais saudável. * Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 15 de julho, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://mercadonorte.com.br/images/alface.jpg