quarta-feira, 9 de julho de 2008

O policial e o jornalista*

Wilame Prado
Estava voltando de Mandaguari, cidade onde eu trabalho, quando um policial rodoviário, no meio do caminho, perto de Marialva, mandou que eu encostasse a motocicleta. Ouvi dizer que a lei estava realmente sendo aplicada nos últimos dias, por isso fiquei com medo de tomar uma multa. A começar pelo meu capacete, que tem os adesivos reflexivos, tem selo do Inmetro, mas está vencido há pelo menos três anos. Nunca entendi bem porque este equipamento de segurança tem validade; pelo menos o meu, parece ser imperecível. Por precaução, comprei um capacete novo no mesmo dia. Então me lembrei de que agora a moda é multar os motoristas cachaceiros. Não bebi em serviço, tampouco parei em uma daquelas barracas na estrada que vendem garrafões de vinhos caseiros. Mas, estão falando por aí que usar enxanguante bucal ou comer bombom de licor são suficientes para a lei achar que se está bêbado. Naquela tarde, apenas tomei café preto, mas desconfiei do creme bucal que utilizei para escovar os dentes. Pensei que talvez fosse minha mochila. O que tem de gente sendo pego transportando drogas em ônibus, em caminhão, em motocicleta, em calcinha, em sutiã ou em cueca não é brincadeira. Dia desses, na mesma rodovia, pegaram um motociclista com três quilos de crack dentro da mochila. Outro dia, encontraram uma tonelada de maconha junto com móveis em um caminhão de mudança. Pensei que talvez pudesse ser minha fisionomia insólita. Confesso que não é nada bonito usar óculos de grau entre a viseira do capacete e uma touca que só tem dois furos na região dos olhos. Mas devo lembrar que esse frio e a miopia não foram coisas que eu escolhi para minha vida. Simplesmente, aconteceram. De jeito algum ofereceria dinheiro para o churrasquinho de final de semana, caso fosse este o objetivo do guarda ter me parado. Digo isso me lembrando da época em que trabalhava em um açougue e que descobri o quanto certos policiais gostam de fazer churrascos patrocinados pelos amigos motoristas. Finalmente, depois do bombardeio de pensamentos que atingiram meu cérebro, o momento de desligar o humilde motor 125 cilindradas e de ouvir o que o enfardado policial tinha a me dizer chegou. Ele pergunta, com voz baixa, o que eu estava fazendo. Engasguei e não entendi ao certo o que queria dizer com isso. Gaguejei quando disse que trabalhava com o jornalismo. "Tenha uma boa viagem". Essa foi a resposta do policial. Quase perguntei se ele não iria averiguar meu capacete, pegar o bafômetro, vasculhar minha mochila ou, pelo menos, pedir os documentos da moto e minha carteira de habilitação. Conclui que era melhor ficar quieto, porém uma dúvida não saiu da minha cabeça: seria medo ou o policial confia em jornalistas? *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 8 de julho, na coluna Crônico.
Crédito da imagem: http://www.treinamentopolicial.com/UserFiles/Image/news/ESP_PRF/logop_prf_aguia.jpg