domingo, 22 de junho de 2008

Sou apenas um menino*

Wilame Prado
A morte está premeditada, infelizmente. A biópsia nem foi feita, mas o médico já dá o seu laudo: é maligno. O velhinho, agora, dez quilos mais magro, tem um sorriso sereno e uma fé inacreditável. Há dois anos, meu avô materno não resistiu a um infarto e morreu em uma tarde quente de novembro. Há alguns meses, um derrame voraz levou também meu pai, no dia internacional do trabalho, nada mais justo para um homem que nunca deixou de trabalhar. E agora seu pai, meu avô paterno, talvez não agüentando a dor de ver um filho tão novo em um caixão, desenvolveu um câncer no rim. Meus heróis estão morrendo; os líderes estão deixando os peões à deriva; não sei se tenho peito para encarar os dragões da solidão. Todos morrem, eu sei, mas como poderei viver sem meus pais, sem os homens que sempre me direcionaram? Qual é o melhor caminho a seguir, quem vai me ensinar a direção, quem vai dar as pistas? Eu quero encher de orgulho esses homens que tanto me auxiliaram para que eu fosse também um homem, mas eles estão morrendo e eu estou perdendo a inspirarão para ser motivo de orgulho. Todos me deixam e se esquecem que eu, na verdade, sou apenas um menino.

*Carta para o Além, escrita no dia 17 de setembro de 2007. Foi quando descobri que o meu avô José Elias estava com câncer. Menos mal, o velhinho se foi no dia 16 de fevereiro deste ano e não chegou a sofrer por demais as chagas de um câncer maligno. Nesta quarta-feira, meu pai, Wilame Elias Neto, se estivesse vivo, completaria 51 anos. Nem sei ao certo porque publiquei este texto. Talvez seja uma forma de amenizar, mesmo que isso seja impossível, a saudade que sinto de todos que viajaram, sem passagem de volta, para muito distante.

Crédito da imagem: http://amadeo.blog.com/repository/224190/708295.jpg