sábado, 14 de junho de 2008

O gato comunitário*

Wilame Prado
Ela queria um bicho de estimação para fazer companhia em minha ausência. E eu só queria que ela não ficasse se sentindo tão sozinha enquanto eu não estivesse no apartamento. Optamos, então, por um bicho de estimação. Não foi fácil achar, mas finalmente um gato chegou em nossas vidas. Um amigo nosso, que mora no andar de baixo, sabia o quanto queríamos um gato. Curiosamente, na sexta-feira à noite, na escola de inglês onde esse nosso vizinho, o Edson, trabalha, uma criatura felina, branca igual coelho e com um olho verde e outro azul foi abandonada. Horas depois, este gato viria a se chamar Chico Buarque. Não foi fácil capturar o animal, disse Edson que, enquanto corria freneticamente atrás dele, tentava se comunicar pelo celular para confirmar se realmente estaríamos interessados pelo bicho. Enquanto isso, assistíamos à palestra do escritor Laurentino Gomes, autor de "1808", no teatro Luzamor. Sabemos o quanto é chato ficar entrando e saindo, sentando e levantando, no meio de uma platéia, enquanto tem alguém conhecido com um microfone na mão discorrendo sobre assuntos mil. Mas, não teve jeito. Naquele momento, negociar um bicho de estimação era muito mais importante para nós. A primeira mensagem nos informou sobre o abandono do animal na escola. A segunda mensagem dizia que o gato era lindo. Já comemorando vitória, nos decepcionamos com a terceira mensagem, que anunciou a fuga do bicho. No final, depois de molhar a camisa de suor e de rolar no chão da rua para resgatar o felino, Edson triunfou e finalmente conseguiu pegar o gato. Ainda no final da noite daquela sexta-feira, já no apartamento, provamos que Chico Buarque realmente é bonito e descobrimos que somos alérgicos a gatos. No sábado de manhã, espirrando e com coceiras, estávamos decididos a abandonar o pobre felino em algum lugar seguro, onde pessoas que não têm alergia iriam alimentá-lo e acariciá-lo. Olhando para aqueles olhos multicoloridos, parecidos com os olhos do gato pidão do filme "Shrek", não tivemos coragem de deixá-lo. Edson, com o consentimento da Sheila, sua mulher, teve a brilhante idéia de repartir a guarda do gato para que, assim, devagar, nos acostumemos com pêlos, espirros e a presença de um felino no apartamento. Portanto, nosso gato é comunitário. Fica um pouco em cada apartamento, enche de alegria dois lares e pode desfrutar do carinho de quatro pessoas. Se, um dia, o nosso Chico resolver imitar a gata da canção adaptada pelo verdadeiro Chico Buarque e sair pelas ruas cantando "Nós gatos já nascemos pobres, porém, já nascemos livres. Senhor, senhora, senhorio, felino não reconhecerás...", vai ser tristeza em dobro. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 10 de junho, na coluna Crônico Crédito da imagem: Edson Beiser