terça-feira, 3 de junho de 2008

Apagão iluminado*

Wilame Prado Assim como deixar de assistir aos pênaltis de uma final de Copa do Mundo entre Brasil e Argentina, muitos maringaenses quase morreram de desgosto, no sábado, ao se depararem com uma queda de energia justamente no momento em que a protagonista fazia o desfecho do último capítulo da novela das oito. Em contrapartida, o apagão fez com que verdadeiras relações humanas voltassem a reinar em salas de estar de Maringá. Vou explicar melhor, citando o meu caso. Estava eu em um churrasco com uma dúzia de amigos, em uma nobre sala grande, onde uma tevê, também grande, exibia em alto e bom som o último capítulo da novela. Quando a energia elétrica resolveu tirar folga, principalmente as meninas chiaram bastante e não acreditaram em tamanho azar. Enquanto isso, o pessoal fazia ligações para mães, tias e avós, perguntando se Maria Paula realmente tinha se vingado do Ferraço. O desespero foi ainda maior quando descobriram que também faltou energia nas casas dos parentes consultados via celular. O jeito foi conversar, comer e beber à luz de faroletes. Parecia um processo cirúrgico: para cortar a carne, era preciso que alguém focasse a luz do farolete na ação. A reunião ficou engraçada e as pessoas reaprenderam a conversar sossegadas, sem medo de tomarem um "cala a boca que eu quero ouvir a novela". Com a sessão de piadas, todos se descontraíram a ponto de nem notarem mais a ausência de luz. Por sorte, ou azar, a energia elétrica voltou. E junto dela uma atração televisiva que também compete deslealmente com as relações humanas: uma partida de futebol. Neste caso, o quadro se inverte e são as mulheres que reclamam dos homens, vidrados na tevê. No fim das contas, seja novela ou futebol, quem sempre sai perdendo somos nós - seres humanos que têm por necessidade praticar o ato da comunicação, falar sobre medos e felicidades, ouvir os relatos de momentos ruins ou bons de outras pessoas. Dizem por aí que relações entre membros de uma mesma família estão se esgotando. Os filhos trocam os conselhos dos pais por conversas virtuais no bate-papo da internet; pais preferem acompanhar, todos os dias, as novelas, os jogos e os jornais do que esclarecer aos filhos que, embora políticos e tantas outras pessoas sejam corruptos, não é correto colar na prova ou mentir para a professora que o dever de casa foi comido pelo cachorro. Os momentos que eu e meus amigos passamos no breu, ouvindo o que cada um tinha para dizer, vão ficar guardados na memória de todos como uma lembrança boa. É uma pena que na segunda-feira tudo voltou ao normal. Dessa vez, assistir a "A Favorita" é o que milhares de pessoas pelo Brasil afora estarão fazendo todas as noites em seus respectivos lares. *Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 3 de junho, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.portaldaadministracao.org/wp-content/uploads/2007/08/apagao.jpg