terça-feira, 27 de maio de 2008

Flores de plástico*

Wilame Prado
Ao acordar, olhou pela janela um vizinho com cara de alegre. Mandou-o tomar naquele lugar. Saindo do prédio, ao receber um bom-dia do porteiro, disse: "Só se for para você, que fica o dia inteiro sentado e ganhando salário graças ao condomínio que eu pago". Chamou um táxi. Antes de entrar no carro, perguntou qual time o motorista torcia. Ao ouvir a resposta "Corinthians", desistiu da corrida, alegando que não andava com marginal. Chegando à empresa, depois de finalmente achar um taxista são-paulino, demitiu um estagiário que se recusara a engraxar seu sapato. Naquela manhã, ainda, demitiu mais três funcionários e contratou outros três, que aceitaram ganhar R$ 300 a menos para fazer as mesmas funções. Na rua, deu um assobio e gritou "gostosa". Quando a mulher olhou para trás, ele disse, tirando sarro: "Não é você não, bicho feio". Fez questão de xingar um flanelinha que cuidava de carros próximo à empresa. Disse a ele que, um dia, pagaria uma goma de mascar e uma moeda de dez cruzeiros pelo "digno" serviço prestado naquele quarteirão. O flanelinha, bufando, não pensou muito e desferiu socos certeiros na boca do estômago e no rosto do empresário, que, em vão, tentava aplicar os aprendizados da aula de boxe. Por fim, tonteou e beijou o chão. Deitado na maca, antes de entrar na ambulância, olhou bem para o agressor e disse: "Vou lhe processar, vagabundo." No hospital, recusou os cuidados de um enfermeiro, pois o achava afeminado demais, e também não aceitou ser atendido por uma senhora de idade. Quando finalmente chamaram uma enfermeira nova, loura e com um decote que deixava à mostra bonitos peitos de silicone, o empresário esperou o momento certo e acarinhou sua bunda com uma das mãos. Seus hematomas, antes avermelhados, agora estavam arroxeados e mais inchados depois dos tapas que levou da enfermeira loura. Voltou para a empresa jurando que iria processar também a "mocinha de branco" e demitiu mais dois funcionários só porque perguntaram o que eram aqueles roxos em sua cara. Já em seu apartamento caro, como de costume, sua única companhia eram móveis quietos e objetos inanimados. Naquele instante, achou que seria bom trocar idéia com o vizinho; sentiu remorso ao atrapalhar tantas vidas profissionais, como a dos funcionários que demitiu; desejou estar ao lado da bonita garota que olhou para trás quando ele a chamou de gostosa. O empresário sabia que seu dinheiro não podia comprar aquilo que estava querendo no momento. Depois de tomar meia garrafa de uísque, chorou. E, como todas as noites, aos prantos, ligou para a mãe, alegando saudade. Perguntou a ela porque a vida era tão cruel a ponto de deixá-lo, diariamente, sozinho na penumbra, conversando com paredes e regando, em vão, as plantas de plástico da sala. * Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 27 de maio, na coluna Crônico Crédito da imagem: http://www.uma.pt/blogs/box-m/wp-content/uploads/2007/06/triste-vida.jpg

MEME PÁGINA 161 DO LIVRO*

Frase: "Fora a descoberta feita no próprio corpo que a deixara como louca, sem saber o que fazer." Livro: Tempo de amar (Autran Dourado) Passo o desafio para os seguintes blogs: Filosofia Muriliana Alexandre Gaioto Acorda Maringá Vontade crônica de escrever Blog do De Paula
*O meme funciona assim: 1- Pegue o livro mais próximo, com mais de 161 páginas. 2- Abra o livro na página 161. 3- Na referida página procure a 5.ª frase completa. 4- Transcreva na íntegra para o seu blog a frase encontrada. 5- Passe o desafio a cinco blogs