terça-feira, 20 de maio de 2008

Estamos na roça*

Wilame Prado

Houve um tempo em que morar no sítio significava ter paz e sossego. As crianças ajudavam o pai nos afazeres rurais enquanto que a mãe era a verdadeira dona de casa, coando café às 5h quando o galo cantava, matando frango para vender e para fazer com batata aos domingos e lavando as roupas do marido e da prole no riacho mais próximo. Isso tudo, sempre, com uma linda canção na ponta da língua, afinal de contas, não existia ainda o radinho de pilha.

Esse tempo se foi, segundo relato de dona Luzia, 80 anos, minha avó. Ela já viveu tudo isso, mas hoje mora na cidade em uma casa cheia de quartos vazios, fantasmas e lajotas para lavar. O frango é comprado no açougue da esquina, a máquina de lavar faz tudo sem reclamar e, agora sim, existe o radinho de pilha, embora ela ainda prefira sussurrar os cantos da igreja que dificilmente tocam no rádio.

O finado avô João Azarias, ilustre agricultor da pequena Santa Fé, até seus últimos dias de vida, não abdicou do uso da carrocinha como transporte. Quando estava de banho tomado, gostava de pedalar com sua bicicleta Monark até a pastelaria do Baji Bali para comer, escondido, pastéis e espetinhos de carne.

Meus tios também, um dia, já foram da roça. Toda vez que sinto cheiro de esterco de vaca, um cheiro até bom, lembro-me do tio Marquinho em época de silagem. Tio Carlo era o famoso caubói. Trabalhava de chapelão invocado e passeava de chapelão também invocado, só que limpinho. A vida sertaneja foi ingrata com eles. Hoje, ambos vendem álbuns de fotografias e ganham mais dinheiro com isso.

Meu padrinho, conhecido por Zé Preto, ainda hoje persiste nas atividades agrícolas. Para isso, conta com a ajuda de seu filho, o Carlinhos, um garoto inteligente e que também ainda enxerga bucolismo nos prados verdejantes onde oleaginosas são plantadas. Tio Mário era sócio do Zé Preto. Mas, por ter um coração maior do que ele mesmo, foi levado por Deus para a grande roça do céu.

Semanas atrás, porém, os persistentes agricultores da família tiveram um susto. Pensando, ingenuamente, que a roça ainda era lugar de paz e sossego, assim como na época em que dona Luzia matava frangos para o almoço de domingo, receberam a notícia de que uma gangue havia roubado um trator no sítio. O detalhe é que Zé Preto ainda está pagando as prestações do financiamento sem fim da máquina agrícola.

Na edição de sábado de O Diário, li a notícia de que uma família rural de Ivatuba ficou aproximadamente oito horas como refém de bandidos, que também saíram pilotando trator alheio. Parece brincadeira, não? O perigo não está somente nas cidades. Além de todas as dificuldades que o roceiro tem com clima e mercado, agora sofre também com a falta de paz e sossego no sítio. Concluo que, definitivamente, o agricultor "tá na roça".

* Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 20 de maio, na coluna Crônico

Crédito da imagem: http://www.mtfazendas.com.br/FotosNoticias/pecuaria1.jpg