quarta-feira, 14 de maio de 2008

Particularidades do transporte público

Wilame Prado

Até mesmo crianças aparentam estar tristes e enrugadas. Pessoas feias, solitárias, cansadas e fedidas. Outras, desesperadas, sem educação e deprimidas. Algumas são dignas e estão inseridas no protótipo de normal, ou seja, assistem novela das oito, compram cd pirata da novela das oito e comem, de vez em nunca, no Mc´ Donald´s.

A briga por assentos é acentuada por muita rivalidade e dores nas varizes. Não obtendo êxito na dança das cadeiras, as chances são grandes de passar uma hora em pé, segurando em algum apoio, que te provoca asco, por lembrar que inúmeras pessoas já colocaram as mãos ali, não se importando se nelas continham coliformes fecais, restos orgânicos, ou respingos de uma masturbação mau sucedida no banheiro público.

Tem gente que faz questão de deixar o celular na maior capacidade sonora e ainda com aquela linda canção que retrata uma festa em um ap. Sem falar nos que passam o trajeto inteiro conversando pelo mesmo aparelho, muitas vezes futilidades, como a compra de pães para o jantar, ou coisas mais fúteis ainda, como o fechamento de negócios ligados à sua medíocre empresa.

Não me lembro bem do nome de quem inventou o IPod, mesmo assim o agradeço pela invenção. Embora quase ninguém use o IPod propriamente dito, e sim o pen drive que toca música, importado da China, ele tem contribuído pela paz nos transportes públicos, pois o sujeito que está ouvindo mp3 fica quieto em um canto e não atrapalha ninguém, exceto quando perde o limite de decibéis produzidos pelo aparelho e acaba compartilhando com vários ao seu redor a sua música, que nem sempre é de qualidade.

Há também várias pessoas que, assim como eu, preferem ler revista, livro ou jornal, sempre se debatendo, metade do caminho, para virar as páginas, a ponto de desistir da idéia de ler. O espaço é curto e, em pé, o ato de ler é crucificante. O engraçado é que muita gente não dá um real para comprar jornal, mas quando senta ao lado de alguém que comprou um exemplar, não tira os olhos das notícias. Elas passam pelas bancas e ficam minutos lendo manchetes das capas. Mesmo assim, não adquirem o mísero pedaço de papel sujo.

Não se contentando com fétido cheiro de suas axilas, cujo desodorante foi passado, pela última vez, ontem, depois do banho, para assistir, limpinho, a novela, o cidadão ainda tem a coragem de trazer consigo um pacotão de chips, sabor isopor e aroma chulé. O adesivo do transporte público diz não fume, mas era melhor alguém fumando ali dentro do que comendo um chips desse ao seu lado.

Nada contra a terceira idade, mas chego a conclusão de que a maioria não tem nada para fazer a não ser ficar andando de ônibus para lá e para cá. A senhora sai de seu município, de circular intermunicipal, para comprar duas latas de massa de tomate, que estão na promoção na cidade ao lado. Eles podiam, pelo menos, deixar para zoar em horários que não sejam de picos, pois, embora a classe trabalhadora, como um todo, seja jovem e cheia de energia, ficar um dia inteiro costurando em uma fábrica ou atendendo clientes na loja de roupas do shopping, cansa em demasiado.

Quando você entra no ônibus, sobram uns lugares pingados para sentar, mas assim que você se senta, chega uma senhora de 70 anos, com um monte de sacolas e com aquela cara de: “o que tá esperando para deixar eu sentar moleque?”. Geralmente, nem um ‘obrigado’ você recebe.

Esse é o cenário de, pelo menos, três horas do meu dia. Quando desço da circular, um frio de fim de tarde arrepia os pelos de meu braço. A noite está enluarada e um cheiro de bife acebolado exala de muitos lares. Amanhã é outro dia, mas a rotina prossegue e os infortúnios do transporte público me esperam. Nem que for financiado, mas dia desses farei posse de um carro.

Crédito da imagem:

http://marxismo.files.wordpress.com/2007/06/imagem-cartilha-transporte.jpg