sexta-feira, 9 de maio de 2008

Uma triste noite de Natal*

Wilame Prado

Véspera de Natal e eu todo animado. Afinal de contas, deu para pagar as contas e ainda sobraram alguns trocados para fazer churrasco nos últimos dias do ano. Estou muito feliz, de verdade. Férias, noivado recente, sol incandescente, sombra e cerveja fresca no refrigerador. E o melhor de tudo, sem contas a pagar.

Prometi a mim mesmo que iria à prolongada missa de Natal com noiva e família. Mas não sou um homem de palavras. Com esse horário de verão, pôr camisa com sol lascado não dá. Sair da sombra e da cerveja fresca, também não dá.

Católica que só ela, noiva fica braba quando as promessas minhas não são cumpridas. Vai bufando e suando para a igreja da pequena província onde nossos pais e parentes moram. Mais tarde, confessa para mim que pecou a missa inteira, de tanta raiva que passou do seu pretendido – no caso, eu.

Como não sou um homem de palavras, descumpro com mais um trato e, quando a noiva cheia de raiva chega da igreja, bufando e suando, encontra-me em estado de descanso absoluto no chão do banheiro em vez de ter ido para casa tomar banho – a cerveja, misturada com o calor e com a canseira de final de ano obrigaram-me a dar uma dormidinha nos azulejos gelados próximos ao box.

Muita raiva para uma pessoa só, ainda mais em véspera de Natal. Bufando é pouco, agora minha noiva estava quase babando. E eu, dessa vez, cumpro um prometido. Vou em casa, tomo um banho, passo gel no cabelo, ponho camisa nova, a mesma que usei no casamento do João, passo perfume e retorno à casa da noiva, prontinho da silva para festejar o vinte e cinco de dezembro com ela. Chego todo amoroso, beijando cangote, bochecha e boca.

Recebo mil e um xingamentos. Percebo que raiva é um estado de espírito que domina e pode acabar com senso de humor; a danada ainda jogou a culpa em mim e disse que eu havia estragado seu Natal e que minhas atitudes se assemelhavam com a de pessoas deploráveis.

Engraçado que a tal da raiva não só domina as pessoas, como também é transmitida para outras pessoas que estão próximas. Vou embora murcho e com as maçãs do rosto vermelhas de tanto ódio. O brabo agora sou eu. Ligo a televisão e percebo que vou passar a pior noite de Natal da minha vida. Assisto sem empolgação ao show do Fábio Jr. Ele toca a canção “Pai”, que me faz lembrar que aquele Natal é o primeiro que passo sem o meu pai, que Deus o tenha.

Resolvo ir para cama, junto ao mp3. Por acaso, está tocando Chico Buarque – Sinal Fechado, de 1974. Ouço “O filho que eu quero ter”, uma das mais lindas canções já feitas por alguém. Lembro novamente de meu pai, principalmente no trecho da música: “teu pai está muito sozinho, de tanto amor que ele tem”.

A raiva, há muito, já havia se transformado em tristeza. Lágrimas, agora, molham meu travesseiro e sinto remorso por ter passado tantos natais sem ao menos telefonar para meu velho e solitário pai. No Natal deste ano, sozinho, desejar um Feliz Natal a ele, seria um pedido que faria ao Papai Noel.

*Post em homenagem ao meu querido pai. Neste 1º de maio, Dia do Trabalho, fez um ano de sua morte. Ano este, vivido sim, mas com um toque a menos de felicidade e o entendimento pleno da palavra saudade.

Crédito da imagem: http://farm2.static.flickr.com/1044/945273447_8156753e59.jpg