quarta-feira, 23 de abril de 2008

Cheirando jornalismo

Wilame Prado

Ele não agüentava mais viver a loucura diária do telejornalismo. Depois de ganhar os principais prêmios como jornalista investigativo e ainda cobrir meia dúzia de guerras pelo mundo afora, queria um pouco de paz. Ao mesmo tempo, queria também dar conta do recado, já que acabara de conseguir um novo emprego, em uma outra emissora de televisão. Resolveu, então, cheirar umas fileirinhas de pó para se manter ligado.

Conseguir a droga foi fácil, pois sua agenda de contatos perniciosos era extensa. Os marginais achavam chique dar entrevista a ele, que parecia não ter medo de bandido. O jornalista só não esperava, um dia, cair em uma cilada, em um flagrante premeditado. Logo ele – um jornalista de credibilidade.

O fato é que juntamente com o vício estimulante de cheirar cocaína, surgiu na vida do jornalista um caso de amor com a senhora que intermediava seu mundo burguês com o mundo sujo do tráfico. Ambos se divertiam fazendo fileirinhas sobre a mesa transparente de vidro; achavam legal improvisar um tubinho com um dólar lembrando alguns filmes norte-americanos.

Mas a fase boa do casal passou. Embora precisasse da droga para continuar mantendo seu pique de guerra na busca por fontes inimagináveis e entrevistas bombásticas, o jornalista tinha consciência de que seu verdadeiro mundo ainda era o dos burgueses. Conseqüentemente, teria de manter as aparências e, sendo assim, arranjou uma namorada quinze anos mais nova, com um belo sobrenome pomposo.

Isso bastou para que o amor da companheira de pó do jornalista virasse ódio mortal. Prometeu para ela mesma que mancharia a irretocável imagem de "jornalistazinho modelo". Ligou para ele e o seduziu com dez papelotes, da "boa". Armou o flagrante e esperou ver o circo pegar fogo para começar a dar entrevistas reveladoras na grande imprensa. Deixou combinado que esclareceria os fatos no excelente programa televisivo de Luciana Gimenez.

Embora tivesse caído na tentação e ter acreditado que conseguiria gramas de pó facilmente, o jornalista sabia muito bem como se livrar dessa enrascada. Caiu na risada quando recebeu de presente um livro de auto-ajuda de uma senhora que dizia ser sua fã. Embora não tenha conseguido entrar na prisão, ela fez questão de declarar que acreditava na inocência de seu jornalista preferido.

Ele foi solto. Em depoimento, disse ter sido obrigado a cheirar pó para conseguir êxito na busca por fontes. Seu programa, mais do que nunca, é sucesso de audiência. No desespero, a ex-amante do jornalista se queimou na mídia ao armar um barraco no Superpop. Agora, entre uma reportagem e outra, o jornalista arranca as folhas do livro "Minutos de Sabedoria", único presente recebido na prisão, para fazer tubinho e cheirar carreiras estimulantes de cocaína sobre a mesa transparente de vidro.

Crédito da imagem:

http://www.observatoriodoalgarve.com/cna/Images%5Ccocaina_snifar.jpg