terça-feira, 15 de abril de 2008

Moços velhos*

Wilame Prado

Pelas frestas do portão metálico cor-de-cinza, o velho olha a rua e seus personagens. Cachorro comendo barata e gato fugindo de rato; pessoas indo e vindo não se sabe para onde numa hora dessas; carros toda hora, intercalados com motos barulhentas e caminhões idem; árvores tão velhas quanto ele, com a diferença de que ainda têm força para permanecerem em pé.

Ele é velho, mas nem tanto em anos de vida. Não fosse o mal de Alzheimer, aquele seu sorriso de moleque e olhos de coruja ainda podiam dar algum trabalho para sua senhora. Rugas há, profundas, parecendo sulcos cheios de poeira. Histórias para contar, há também, de monte. O problema é que poucos querem ouvir. As pessoas preferem a televisão ou a internet. É mais cômodo.

Mas tem um moço que é cheio de prosa e louco para ouvir histórias de vidas - não basta apenas assistir aos filmes de drama ou esperar os monstros que ficam debaixo da cama – quer conversar e precisa entender o porquê de tantos olhares para o nada, para o além frestas de portão. O velho estampa sorriso, mesmo falso e sem força, quando o moço quer prosear. Ele diz para o moço que seu mal é maligno mesmo. E que a abstração de determinadas atividades o faz ficar ali, olhando por entre as frestas cor-de-cinza do portão.

Às vezes, percebe-se que, devido ao abafamento do pequeno espaço onde o velho fica a testemunhar o olho da rua, seu cheiro exala brabo, forte e predomina o ar – o clássico cheiro de velho. O moço nem liga. Ele quer prosear e fica feliz, ao mesmo tempo lamentoso, quando ouve pela enésima vez a história que o velho sempre conta sobre seu pai - inválido depois de quebrar a espinha em um acidente com uma árvore serrada.

Quando é dia de brincadeiras e risos de felicidade passageira, o velho parece nem lembrar, sem ironia, que tem Alzheimer. Brinca, envolve-se na dança de caçoar os outros meninos e, dessa maneira, torna-se um menino. Aí não se sabe mais quem é moço ou quem é velho. Talvez os dois sejam moços velhos.

Mas quando lembranças de um passado longínquo e triste entram na cabeça do velho, sorriso amarelo e sem dentes é o máximo que pode dar. E é aí então que tristes dramas escorrem de sua linguagem de língua enrolada – ele muitas vezes não consegue se pronunciar. Para o moço ouvir acertadamente, tem de apurar os ouvidos e fazer cone com a mão envolvendo as orelhas. O moço nem liga. Quer mesmo é prosear.

A tão lendária pescaria que o velho praticava com seu mais velho ainda jaz avô, é outra história que ele insiste em contar. Diz que "vô é vô e dele nunca me esqueço". Mas já se esquece de muita coisa, como o caminho de volta para casa e até o nome de parentes. Lembranças de um passado bem antigo preenchem as tardes do velho quando fica olhando por entre as frestas do portão cor-de-cinza.

As prosas entre moço e velho duram pouco mais de cinco minutos. Mas o moço nem liga, quer mesmo é prosear. O velho também não liga, embora muitas vezes prefira se abstrair olhando para o infinito de suas lembranças, com olhar fixo nas frestas do portão, pois sabe que o tempo, malvado que só, leva sua memória dia após dia, em conta-gotas de esquecimentos.

*Crônica publicada no jornal O Diário do Norte do Paraná, na coluna semanal Crônico, no dia 15 de abril de 2008

Crédito da imagem: http://farm2.static.flickr.com/1234/1148143610_4aa3dcf7d2_o.jpg