terça-feira, 25 de março de 2008

A vingança do gordinho mafioso*

Wilame Prado

"Lembrava-se com nostalgia de Os Bons Companheiros, na cena dos amigos mafiosos presos preparando macarronadas"

Na cela da prisão, o companheiro de quarto não agüentava mais ter de emprestar seu colchão para que Salvatore Ferranti - o mafioso gordo de 210 kg - pudesse cochilar em dois colchões emparelhados no chão. E isso a troco de carteiras baratas de cigarros que ele conseguia trazer para dentro da prisão facilmente. Quando passaram em concurso, os agentes penitenciários nunca imaginaram que teriam de ajudar o velho gordo bandido a entrar no banheiro e ainda vê-lo fazer sua necessidades fisiológicas. Realmente, sua presença ali era um fardo para todos que estavam ao redor.

Quando foi preso pela primeira vez, Ferranti, mais conhecido como "Mafioso", já possuía seus 150 kg pesados. O fato de não ter que fugir mais das organizações federais, o fazia engordar diariamente. Mas ele não se queixava de sua mórbida obesidade, adquirida a cada prato suculento das seis refeições sagradas que fazia encarcerado. Lembrava-se com nostalgia de um de seus filmes prediletos, "Os Bons Companheiros", do Martin Scorsese, na cena dos amigos mafiosos presos preparando macarronadas regadas a molho forte de tomate e cebolas graúdas.

Na busca infeliz por um lugar que oferecesse estrutura adequada para um preso de 210 kg, conheceu quatro prisões diferentes. Nesse intermédio, sentiu-se injustiçado e resolveu escrever um manifesto dos gordos carcerários e lutou com todas suas forças para dar um pouco mais de dignidade aos pobres obesos que viviam em condições desumanas nas prisões da Itália.

Em menos de um mês, escreveu um livro sobre o assunto. Por ter computador, internet e muito tempo na prisão, conseguiu mais rápido do que qualquer literato publicar sua obra em uma das editoras mais renomadas da província siciliana. Vez ou outra saía escoltado da prisão para tirar fotografias ou comparecer a noites de autógrafos em livrarias dos shoppings.

O país inteiro se mobilizou e o livro virou best-seller. Entrou para a lista dos mais vendidos e competiu nas vendas de igual com os adorados auto-ajudas. Em pesquisa encomendada, a população achava injusto manter um obeso daqueles na prisão; 20% votariam nele, caso fosse concorrer a cargo político. Sentindo-se acuada, a Justiça Italiana decretou que o mais novo escritor, Salvatore Ferranti, fosse libertado. Mas o mafioso, acostumado com vitórias recheadas de vingança, não deixou barato. Conquistou a mídia, fez seu melodrama e, carregado pelo povo, lutou para que todas as prisões fossem reformadas, dando condições dignas aos presos gordinhos de toda a Itália.

Ferranti voltou a se envolver com a máfia do grande padrinho Salvatore Lo Piccolo. Só que, agora, tem de administrar seu tempo entre matanças fulminantes, estratégias de manipulação e noites de autógrafos para seu mais novo sucesso de vendas: "Os gordinhos também amam".

*Crônica publicada na coluna Crônico no jornal O Diário do Norte do Paraná, no dia 25 de março de 2008

Crédito da imagem:

http://furrywater.files.wordpress.com/2007/04/gordo-traco.jpg