terça-feira, 18 de março de 2008

Nascendo*

Wilame Prado

A conversa com o editor chefe do jornal fora marcada. Restava ao garoto cumprir suas funções trabalhistas daquele dia para, finalmente, ir à redação e tentar vender seu peixe, ou seja, convencer o editor chefe de que realmente seria interessante também para o jornal publicar semanalmente suas crônicas.

Uma mescla de excitação e nervosismo era o que sentia. Esperando a hora da conversa, já na redação, pôde vivenciar o que realmente é uma rotina de jornalistas dando retoques finais às matérias para a próxima edição do diário impresso.

Meio perdido, o garoto ainda conseguiu trocar idéias com o diagramador, que argumentava o quanto as sextas-feiras do jornal eram corridas, já que, praticamente, duas edições tinham de ser fechadas. A tão esperada hora chegou. Foi apresentado ao editor chefe. O garoto já o havia visto nas sessões de sábado do Projeto Um Outro Olhar - cinema bom e com entrada franca. Sentou-se em uma das cadeiras estofadas vermelhas, na sala de reunião com paredes vermelhas, e soltou uma frase que fez com que as maçãs do rosto do garoto ficassem também vermelhas: "Então é você que é o homem das letras."

Boquiaberto, timidamente sorriu seu sorriso mais amarelo de todos os tempos. Logo de cara, objetivamente e sem deixar o garoto respirar, o editor mandou uma pergunta arrebatadora, em que a resposta poderia decidir seu futuro como cronista, ou não: "Por que você quer escrever no jornal?" O garoto, na verdade, gostava mesmo é de escrever e não de falar. As perguntas não foram bem respondidas. Talvez, se o editor as tivesse enviado por e-mail para que respondesse, até mesmo em forma de crônica, seria mais fácil para ele.

A idéia de não ser cronista do jornal já enchia sua mente de pessimismo. A tacada final do editor chefe, talvez como válvula de escape para voltar aos seus afazeres jornalísticos, talvez por querer dar mais uma chance ao garoto que há quatro meses mandava crônicas e mais crônicas para o editor do caderno de Cultura, foi sugerir que ele mandasse a penca de textos para seu e-mail.

Um dia se passou. E, pouco antes do pôr-do-sol de uma quinta-feira, o garoto, que sempre teve o sonho de publicar crônicas em um jornal, recebeu uma boa notícia: todas as terças-feiras, no Caderno D+ de O Diário , suas crônicas serão publicadas em uma coluna intitulada "Crônico". Com o sorriso que já não era tão amarelo assim, tomou mais um gole de café e continuou escrevendo seus textos para o resto da vida.

* Crônica publicada na coluna Crônico do jornal O Diário do Norte do Paraná no dia 18 de março de 2008

Crédito da imagem: http://dreamsofthemoon.weblogger.terra.com.br/img/escrevendo.jpg