quinta-feira, 13 de março de 2008

Corrida contra relógio para fazer jornalismo*

Wilame Prado

Despertador tocando parece britadeira trabalhando. Mesmo assim, perco a hora - ela sempre me foge às mãos. Por conta do atraso, cuspe no canto dos olhos, remela tirada com o dedo, balinha de hortelã e um gole de café antes de sair para entrevistar a doutora, que não tem doutorado, apenas residência.

Uma dúvida cruel vem à cabeça: ir de moto ou voando? Fosse São Paulo, poderia pegar engarrafamento de helicópteros; aqui em Maringá, o máximo que pode acontecer é um pequeno choque com pássaros ou macacos voadores do Parque do Ingá. Além do mais, mamãe sempre alerta que andar de moto é perigoso e, ultimamente, motoqueiros têm viajado com certa freqüência ao cemitério.

O exercício tradicional de "esquentar banco de consultório" aconteceu mais uma vez. Soubesse da demora, tinha pelo menos escovado dentes e penteado o cabelo. Ainda bem que jornalista já tem fama de desleixado, o que não deixa de ser verdade, tirando o pessoal da televisão, que se derrete em maquiagem nas entrevistas ao ar livre, em pleno sol do meio-dia.

Recebo uma chuva de conhecimentos vitais ao ser humano, lendo revistonas como Caras e Contigo; entedio-me ainda mais e apelo ao vício: um cigarro, dois cigarros, sete cigarros - adoro ficar contando cigarros que ainda restam na cartela.

Depois de conseguir msn, orkut, telefone e posição sexual preferida da secretária, além de tomar dois copinhos de água mesmo sem ter sede, finalmente fui atendido pela médica. Foi quando percebi que tinha esquecido o gravador. O jeito era apelar para o jornalismo clássico com caderneta e caneta na mão e memória ativada. Ela falou tanto e tão rápido que tive de utilizar uma técnica apelativa, a de desfocar o assunto da entrevista para que, enquanto ela falasse sobre este assunto que não me era importante, anotasse o que havia dito outrora e que poderia ser utilizado na reportagem. Sorte ter lido Caras, pois a médica adora falar do Castelo de Caras.

Na corrida contra relógios chego em último lugar, toda vez. Por isso, de uns tempos para cá, sempre que tenho oportunidade, quebro os relógios que encontro. Esses dias, no Bar do Zé, quase apanhei por tacar uma garrafa de cerveja no charmoso relógio com marca de cigarro e carros de fórmula um. Expliquei que gostaria de ficar mais tempo no bar, mas que se chegasse àquela hora em casa, minha garota ia dar nos nervos.

Tenho de escrever ainda a reportagem. É hora do almoço e preciso comer para agüentar de pé até à noite, período que freqüento a faculdade. Em ritmo de escala de produção, dou três garfadas e escrevo uns 220 caracteres (com espaço), em média meio parágrafo; mais três garfadas e mais 220 caracteres. E assim, termino de almoçar, mas não de escrever. Ainda tenho a madrugada depois da aula, horário em que o silêncio grita e a folha em branco cria vida, obrigando-me a escrever vertiginosamente.

Não entendo certos fenômenos que ocorrem de madrugada. Por que o galo canta, sendo que o sol nem nasceu? Por que os "filhinhos-de-papai" derrapam pneus dos carrões e ainda ficam gritando pela janela do automóvel? Por que a descarga do vizinho de cima é tão barulhenta neste horário? Por que tenho medo de ir lá fora, sendo que, aparentemente, nenhuma pessoa está na rua?

E o relógio continua trabalhando; não pára um minuto; seu ritmo é acelerado e o tic-tac vira harmonia dos desesperados. Dia desses, um jornalista havia me dito que o título da reportagem é a parte mais dolorosa de se criar. É verdade, tanto é que já se passaram horas e meu título, ou não atinge os 36 caracteres obrigatórios ou ultrapassa os 40. O jeito é tentar fazê-lo com duas linhas. Deu certo. Porém, ainda falta algo para concluir meu texto e o tempo que tinha para repor energias e descansar para mais um dia de cão já era.

Sorte que tive uma idéia brilhante. Para quê ser inimigo do tempo, assassinando os pobres relógios que vejo? Viro amigo do funcionário proletariado do tempo e, depois de soltar minha lábia, o bom e velho relógio de casa aceita que eu atrase seus ponteiros. Estranho é que, mais uma vez, cheguei atrasado ao serviço.

Finalmente entrego minha reportagem que vai compor o jornal. O assunto diz respeito à vida corrida de estudantes universitários, que abrem mão de sono e alimentação para conciliar estágios, aulas, trabalhos, provas, festas, garotas. Acho que, no fundo, pela correria, a reportagem não saiu das melhores. Mas, valeu a experiência. Pensando bem, acho que talvez sirva até mesmo para mim.

*Publiquei, no dia 10 de janeiro, parte desta crônica neste blog. Hoje, na íntegra.

Crédito da imagem: http://www.gilfilho.blogger.com.br/tempo_.jpg