segunda-feira, 10 de março de 2008

Medo de criança*

Wilame Prado

Quando criança, apavora-me quando mamãe dizia que a água ia acabar um dia. Só para eu não ficar com a torneira aberta quando escovava os dentes ou quando eu decidia demorar-me no banho quente por mais de meia hora. Então, quando ia à praia e via todo aquele oceano azul de águas disponíveis para quem quisesse nadar, pescar, brincar ou mergulhar, indagava-me a ponto de ficar confuso. Por que faltará água se existe tanto dela no mar? Logo me respondiam alertando que água salgada não é potável.

Mas fui um menino teimoso e garantia a todos que um dia inventariam uma forma de transformar toda essa água salgada em água para o nosso consumo. Alguns anos se passaram e a idéia veio à tona mais depressa do que eu esperava. Isso já é uma realidade no nordeste brasileiro.

Com todas as novas tecnologias e constantes estudos sobre um problema que afronta a todos - falta de água -, os dessanilizadores (faz com que água salgada vire um líquido potável), que já são comuns nos Estados Unidos e em Israel, começam a dar resultados em Atalho, comunidade rural de Pernambuco, que fica a 97 quilômetros de Petrolina.

Em Atalho, foi feito um projeto de técnica considerado simples, porém eficaz. Isso porque, além de resultar em água potável para a comunidade, o sistema permite ainda produção de tilápias-rosas e irrigação da erva-sal que serve de alimento para ovinos e caprinos. A cada litro extraído de água potável, fica como resíduo 1/2 litro de água salgada. Ela vai para o tanque de criatórios de tilápias-rosas, que também é fonte de irrigação para o cultivo de erva-sal. O ciclo não pára. O esterco dos animais alimentados pela erva-sal serve de adubo para as plantações de maracujá da caatinga.

Não é fantástico? A vida em seu ciclo proporcionando uma melhora significante para o homem, lhe dando alimento e água. Ele pode comer peixe tomando suco de maracujá, feitos por água limpa. Ou ele pode comer carne de carneiro, beber água e, de sobremesa, um doce de maracujá. São tantas alternativas.

O mundo não é cruel e sim o homem. Os problemas e as dificuldades são vencidos, mas pela falta de conscientização e por pura ignorância moral, eles desperdiçam as oportunidades que temos para fazer um mundo melhor. O meu medo de criança continua, pois sei que, mesmo se conseguíssemos filtrar os cinco oceanos e transformá-los em água potável, o “bicho-homem” dará um jeito de estagná-la rapidamente. Afinal, o monstro chamado dinheiro irá devorá-lo e fazer com que seu bem próprio fale mais alto do que o bem comum. As mudanças globais acontecem quando as partes individuais iniciam as modificações. Por isso, não adianta cobrar nada de ninguém, antes de cobrarmos de nós mesmos. O mundo é composto por nós e ele só vai melhorar se o homem mudar.

* Crônica publicada no livro Literatura Crônica, da editora Andross

Crédito da imagem: http://aquazensia.files.wordpress.com/2007/06/agua.jpg