sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Felicidade tardia

Wilame Prado

As lágrimas derramadas molhavam seu travesseiro. Às vezes, são inexplicáveis, porém, naquela noite, sabia muito bem o porquê estava chorando. Aos vinte e poucos anos já se acostumara com a montanha íngreme e cheia de obstáculos no percurso que é a vida, onde, em momentos felizes se está no topo, outrora, no chão e sem ânimo para escalar.

Há dois meses, teve plena consciência de que estava no ápice de uma boa fase, mas o medo já o acercava pelo fato de saber que não tardaria e viria a tempestade em seu barco da vida. Ele não sabe nadar e o colete salva-vidas é reservado às crianças e mulheres primeiro. Por isso, nem conseguiu aproveitar muito bem esse momento melhor e se concentrava em ficar sempre com o pé no chão e nunca flutuar ao ponto de sonhar.

Como o previsto, a tão temida crise existencial o acercava, e era impossível não chorar, tamanho o medo de seu quarto escuro, onde a força de seu pensamento era tão forte que os monstros e as bestas se faziam presentes frente ao espetáculo maior de sua vida: a solidão.

De repente não há mais porque ver beleza na vida. Parece que o campo de visão, que outrora era verde, agora é cinza com tons de marrom. Não há graça nenhuma em nada e o exercício mais doloroso e complexo de se realizar é com o maxilar, pois fingir que está sorrindo é o choro mais frenético, na realidade. As flores morreram, inclusive aquelas que somente ele via nascer por entre os asfaltos cinzentos. Nem jogo na TV o animava mais, isso demonstrava que o caso era sério.

O que se podia fazer nessas horas ou nessas fases – concluiu - era tentar viver mesmo não conseguindo deixar de se abstrair e ser taxado como anti-social, muitas vezes chato. Mesmo assim, ele não queria se entregar; estava cansado dessa vertigem de karma e ansiava por estabilidade na viagem sem volta apenas para as lembranças, que é a vida. Na sua memória, constava inúmeras subidas e descidas, mas dessa vez parecia impossível ver a tão sonhada luz no fim do túnel.

Muitas vezes ele pensara na morte, mas a desejava naturalmente, ou seja, um ataque no coração, um atropelamento, um câncer voraz ou até uma cirrose. O suicídio não fazia parte de seus planos. Embora fosse um perdedor de carteirinha, não admitia tirar a vida de ninguém, pois achava que era de uma covardia para não só com ele, mas para com todos que estão ao redor. Para ele, quem morria dormindo eram pessoas de sorte.

Enquanto ela, a morte, não vinha vestida de cetim, o menino percorria as ruas da cidade. Eram muitas as percepções. Sujeira, animais mortos, fedores horrendos, flores mortas e, principalmente, poluição visual, sonora e do ar. Enquanto ele saia do seu serviço indesejável e ia embora para sua habitação, também indesejável, via alguns e outros nos bares, nos carros, no supermercado e percebia que qualquer pessoa seria mais feliz do que ele, e que o dinheiro reinava num mundo onde ele é o bobo da corte que fora demitido por não conseguir mais achar graça em ser a graça. Achava engraçado como as pessoas conseguiam ver graça nas desgraças alheias.

Para o menino, não existia atitude mais deprimente do que tomar cerveja sozinho em um bar da esquina. Talvez, o fato de andar pelado em seu apartamento faria com que conseguisse arejar o ar rarefeito e triste de sua cabeça, mas não, apenas um ato impensável de quem não sabe mais o que fazer quando os sinais se perdem no ar e a solidão dos marinheiros já não é mais abatida com uísque.

Ele continuava a andar por entres as ruas da cidade. Cada dia uma rua diferente, porém as pessoas eram as mesmas, hipócritas e desocupadas.

Um ou outro fingia ter ocupação, mas ficar a vida inteira atrás de assinaturas e papéis, pensava, não era ocupação e sim profissão inventada para as pessoas dizerem que estão ocupadas. Enquanto isso, o filho cresce e essa pessoa nem vai notando. Esse filho de outrora, agora fuma, bebe, não suporta o ambiente familiar e já tem alguns fios de barba na cara, fazendo com que fique cada vez mais parecido com o pai, que continua atrás de assinaturas.

A vida não tem sentido quando não conseguimos sentir que ela vale a pena por isso ou aquilo, refletia o menino. Será que existe o azar? Indagava. O menino triste agora é cético também e, mesmo pisando na bosta e recebendo uma cagada de pomba no cabelo, não acreditava em azar. Nesse dia de bostas, entrou em seu apartamento e se esqueceu que estava com os tênis sujos, andou pela cozinha e pelo carpete da sala. Mais tarde, começou a sentir cheiro fétido que o fez pensar o quão sua vida é uma merda e, assim, viajou achando que a vida de merda tinha cheiro. Depois da pequena pira, perdeu alguns minutos limpando o chão.

Ele sabia que crise existencial sempre passa, nem que for por pequenos momentos. Porém, começou a se preocupar em demasiado porque já estava nessa situação há pelo menos dois meses e ainda não tinha conseguido sorrir. Sua fisionomia estava mudada, seus cabelos despontados, suas penugens salientes, a fisionomia magra agora já aparentava ser doença, juntamente com as olheiras e cor predominante amarela. Fazia muito tempo que não via seus familiares, que moravam a poucos minutos de sua cidade, e já não saía com os amigos nem com os falsos amigos. Estava surpreso porque nunca percebeu tamanho fracasso em ninguém com sua idade. Sentia em suas costas uns quarenta anos de vida, mas tinha só vinte e poucos.

Foi nessa onda de baixo astral que conseguiu se formar na faculdade. Tinha facilidade com as futilidades acadêmicas. Mesmo assim, não trabalhou na área, optou por serviços mais fáceis em que pudesse ficar livre durante mais tempo do dia. Foi nesse desânimo que ele, inclusive, casou-se com uma perdida igual a ele, mas que fazia uma boa sopa de legumes.

Ele viveu muito tempo admitindo que conseguiu encontrar a verdadeira felicidade em apenas dois momentos - um quando seu time foi tri-campeão mundial interclubes e outro quando sua filhinha nasceu, de sete meses. Ele acostumou-se com a depressão e encarou como pano de fundo de sua vida.

Alguns são felizes e ingênuos, outros são tristes e a par da realidade, filosofava o menino.

Mas, em uma noite fria de inverno acordou descoberto porque sua mulher era friorenta e seqüestrava a coberta inteira. Nisso, olhou para o travesseiro e lembrou-se do dia em que o molhara com verdadeiras lágrimas incontidas. Percebeu que havia perdido um enorme tempo de sua vida tentando não ter crises quando, na verdade, ele é que as tinha inventado. Percebeu que não era difícil viver e sim sobreviver, e esse não era o seu caso. Lembrou de todas as pessoas que saíram feridas quando tocaram em seus espinhos e que, por isso, nenhuma sentiu o cheiro de sua rosa.

Levantou, beijou sua mulher como se fosse a única, foi ao berço e, sem querer, fez um barulho. Lavínia, sua filha, acordou e, por incrível que pareça, não chorou. Pelo contrário, abriu um lindo sorriso sem dentes. A emoção sentida por ele, as palavras não conseguiam traduzir, mas nunca, em toda sua vida, havia percebido o quanto era um rapaz de sorte.

Ele viveu mais dois dias de plena felicidade. Brincou com a filha até se cansar, fez amor com sua mulher até engravidá-la novamente e se olhava no espelho de barba feita e cabelo cortado achando-se muito bonito. Em uma de suas constantes andanças pelas ruas, foi atropelado por um carro que apostava racha. Provavelmente, morreu feliz, mas muito arrependido por perder tanto tempo até encontrar uma razão de viver.

Crédito da imagem: http://oblogdorapaz.blogs.sapo.pt/arquivo/the%20fall,%20de%20Negateven.jpg